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Crítica #2: Suspiria - A Dança do Medo

O Suspiria de Guadagnino é uma versão elegante e atmosférica, cheia de detalhes curiosos, com elementos psicológicos oportunos e que não perde raízes de seu DNA
Suspiria - A Dança do Medo

É fato que estamos na era dos revivals, remakes e recriações. Não é de hoje que a arte se apóia no passado como referência para construir o presente. No Renascimento, início da Era Moderna, os artistas se inspiraram em civilizações da Antiguidade Clássica (Grécia e Roma), como referência cultural para desenvolver suas criações. Só que no cinema, e falando especificamente do gênero horror, isso tem gerado resultados desastrosos tanto pela falta de competência quanto da de necessidade. Por exemplo, qual foi a necessidade de se refazer filmes referenciais do gênero como Massacre da Serra Elétrica (2003), Psicose (1998), Carrie: A Estranha (2013), Poltergeist (2015) e A Profecia (2006)? Nem vamos citar os remakes de terror japoneses que claramente não funcionam bem deste lado do mundo. Mas é claro, existem exceções honrosas. A Mosca (1986) de David Cronenberg, It: A Coisa (2017) e A Morte do Demônio (2013) são alguns remakes bem sucedidos, que foram mais bem elaborados e criativos que seu material fonte.

O filme Suspiria (1977), de Dario Argento, é um clássico cultuado e amplamente respeitado entre aficionados por terror e fãs de cinema. O filme é adorado em todos os sentidos pelos entusiastas do gênero, desde a linda paleta de cores primárias contrastada, com vermelhos vibrantes e azuis pulsantes, até a fantástica trilha sonora progressiva da banda italiana Goblin. Visto o quanto é reverenciado o filme de Argento, seria fácil utilizá-lo como métrica para julgar o remake recém lançado pelo diretor Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome). Embora de certa forma inevitável, usar o filme original como padrão de verificação nem sempre é uma maneira segura de aplicar o pensamento crítico. E uma boa refilmagem na verdade, deve funcionar em seus próprios termos e não se preocupar em agradar os fãs do original ou operar como uma cópia do filme do qual ele se inspira. Essa é a melhor maneira de se entrar no Suspiria de Guadagnino. Ciente de que é um exercício artístico que respeita suas origens, considera o seu material principal, no entanto, está disposto a construir o filme por seus próprios méritos.

Embora tenha semelhanças com o original ele é um filme muito diferente e segue um caminho mais radical e aprofundado. Ao contrário do filme original, onde o cenário alemão foi basicamente circunstancial, Guadagnino e o roteirista David Kajganich se aprofundaram mais no período e na localização. O impasse violento entre a Facção do Exército Vermelho Baader-Meinhof e o governo da Alemanha Ocidental em 1977 forneceu um cenário cultural para a narrativa do filme. Isso mudou completamente a abordagem do original e tornou o filme com mais camadas sem deixá-lo demasiadamente reflexivo, pretensioso e sem parecer um exercício superficial ou com posições políticas.

O novo Suspiria mantém o cenário original dos anos 1970, mas muda a ação de Freiburg para Berlim Ocidental, local que serve de instalação de uma academia de dança que na verdade também é um covil de bruxas. As atividades terroristas do grupo Baader-Meinhof, organização guerrilheira de extrema-esquerda, e referências que remetem ao nazismo, são utilizadas como subtramas para dar mais significado utilizando os horrores da vida real. Com esse pano de fundo seguimos então a chegada de Susie Bannion (Dakota Johnson) à academia de dança de Helena Markos em uma tarde chuvosa. Ao contrário do filme de 1977, pouco sabemos dessa bailarina inocente que aposta em uma audição que é bem sucedida e aprovada pela grande coreógrafa Viva Blanc (Tilda Swinton). Juntamente com a chegada de Bannion, há uma subtrama paralela envolvendo o desaparecimento da aluna Patricia Hingle (Chloë Grace Moretz), que busca refúgio com o Dr. Josef Klemperer (Tilda Swinton), um psicanalista atormentado pela culpa de perder sua amada esposa em uma das invasões nazistas. Através das histórias de Patricia para o analista na abertura do filme é que começamos a perceber que há algo muito estranho escondido nas paredes da Markos Academy.

Para amarrar o jogo perturbador, os contrastes e correspondências dentro do contexto histórico político, um design de produção com figurinos muito cuidadosos e um elenco maravilhoso foram necessários. Dakota Johnson está adequadamente pura como Susie, expressando inocência, autoconfiança e uma sabedoria misteriosa que o personagem exige. A atriz treinou duro para o papel e fez a grande maioria das danças do filme e as sequências de ensaios que estão magistralmente executadas. Mas a surpresa é mesmo Swinton, que recebe três papéis muito diferentes, dois deles com maquiagens pesadas e quase irreconhecíveis. Mais uma vitrine para seus talentos camaleônicos e um desafio artístico para a atriz.

Argento tendeu a evitar a política da época e se concentrou em criar uma festa luxuosa para os sentidos em sua fotografia, enquanto Guadagnino submerge em uma Berlim de tons de cores suaves e escuras. Em vez de emular a luz altamente colorida e pontuada de Argento, onde sua arte estava toda na superfície, ele optou por um olhar propositalmente monótono e frio, com chuva caindo ao ar livre e interiores iluminados para maximizar um clima dominador e opressivo. Apesar de tudo, ele mantém o gosto por sangue, brinca com espelhos e lentes grande angulares, mergulha em ângulos altos e corta bruscamente para os closes, e assim busca em algumas cenas retornar à explosão colorida e psicodélica de Argento, conectando o visual com os enredos que acontecem dentro da companhia de dança.

A trilha sonora de Thom Yorke (Radiohead) é o ponto fraco do filme e às vezes parece deslumbrante mas também evasiva e evocativa. Colocar letras nas músicas acabou por tirar o público da experiência e o fato de não parecer ser autêntica para o período em que o filme transcorre, claramente não se encaixa no tom que o longa tenta criar. É como se Yorke em vez de fazer algo que agregasse força à atmosfera geral, assistisse ao filme e então criasse a música inspirado por ele.

Não ajuda também o fato que esse Suspiria seja quase uma hora mais longa que o de Argento. Durante grande parte de seu tempo de execução, ele é um thriller estranho e tenso como deve ser, mas o filme perde ritmo no segundo ato e o enredo se perde na sua estrutura. As cenas finais redirecionam completamente o foco do filme, por motivos que não são claros, e acaba se desconectando com tudo o que vem antes. Com isso o filme perde coerência, mas pelo mundo que cria e as ideias que exploram no todo, vale a pena se perdoar as partes que não funcionam bem.

O Suspiria de Guadagnino é uma versão elegante e atmosférica, cheia de detalhes curiosos, com elementos psicológicos oportunos e que não perde raízes de seu DNA. É ambicioso no mesmo enredo e merece ser apreciado sem comparação.


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