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Crítica #2: Albatroz

Apesar de referenciar-se em David Lynch, o filme não parece entender a dimensão de sonho no cineasta e converte a obra em um puro maneirismo estético.
Albatroz

Com um bom elenco, equipe técnica e argumento do premiado Bráulio Mantovani (Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2), Albatroz, do diretor Daniel Augusto (Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho) apresenta uma ousada narrativa e estética tentando sair dos enquadramentos e conservadorismo narrativo do cinema mainstream brasileiro.

O argumento assinado por um dos mais respeitados roteiristas nacionais, conta a história de Simão (Alexandre Nero), um fotógrafo que em viagem à Jerusalém acompanhado de sua amante Renée (Camila Morgado), testemunha um atentado terrorista frustrado. Fotografar o evento lhe rende fama e prestígio internacional, mas também o coloca em uma trama surreal e alucinada que envolve neurociência e coloca em risco seu casamento e a vida de sua esposa Cats (Maria Flor).

No roteiro percebe-se claramente a assinatura do escritor, com linhas narrativas que se sobrepõem em ordem não cronológica e marcado por uma montagem disruptiva. A ideia do filme é realmente impetuosa em tentar fazer o telespectador e o protagonista decidirem o que é real ou imaginário e o porque de determinadas situações, mas o que parece é que o roteiro se perde no meio do caminho e o filme acaba tornando-se uma confusão de cenas. O fato do enredo causar confusão no telespectador e levá-lo a formular diversas teorias e a estética arriscada não chegaria a incomodar, mas ao invés de deixar os temas abertos de maneira implícita à interpretação do espectador, o filme prefere se apoiar em um excesso de diálogos expositivos que explicam em demasia suas temáticas ao público. A direção de Daniel Augusto até tenta tornar a trama interessante em alguns momentos, no entanto ele excede nas intenções e peca pelo excesso, mais parecendo que está discursando sobre os temas do que permitindo que o público os perceba a partir dos personagens e situações propostas pelo roteiro.

A fotografia opta por uma estética complexa, porém bem elaborada para preencher essa trama embaralhada. Poucas vezes nosso cinema produziu uma audácia estética e um projeto de composição que harmonizasse tantos elementos de linguagem visual e sonora. A montagem de Fernando Stutz presta um bom serviço ao filme e a fotografia de Jacob Solitrenick acerta no trabalho dos contrastes entre luz e sombra, as cores intensas, planos inclinados e inserções de fotografias que funcionam para fortalecer a confusão mental e dialogar com o fluxo de pensamento do personagem principal. O problema é que essa intrepidez visual, somada à narrativa transloucadamente insatisfatória tem como consequência um longa cansativo que entrega ao filme o status de confuso. Carregar visualmente o filme não foi suficiente para construir uma progressão narrativa e no final o filme não nos dá muitas respostas.

Em termos de elenco o filme é bom, onde Alexandre Nero é o destaque e o filme acaba por ter foco total nele. Ele consegue ajustar bem o seu personagem, interpretando bem um homem confuso e vítima das situações propostas. Por outro lado há alguns personagens como o de Andréa Beltrão e da Andreia Horta que são bem decorativos e caricaturados.

Toda a subtrama envolvendo a neurocientista parece saída de um filme B, assim como outras temáticas sobre judaísmo e terrorismo que parecem não se conectar com o resto e descolam-se totalmente do todo sendo desnecessárias para as reflexões feitas sobre a imagem e os significados. Todo o resto vai aos poucos se transformando em uma série de meditações sobre a natureza e os limites entre sonho e realidade e como a subjetividade intervém no entendimento do real.

Com propósitos tão amplos o filme não tem como dar conta de todos os temas que aborda e acabamos por assistir a uma série de vinhetas aleatórias construídas para fundamentar um discurso pronto sobre a natureza do real e do sonho. Na verdade, o nosso cinema pode e deve sair dos sistemas de storytelling vigentes e tentar alçar outros vôos. Albatroz fez o possível para entregar sensação de inesperado e trazer algo diferente, mas que não conseguiu acertar na fórmula.

Apesar de referenciar-se em David Lynch, o filme não parece entender a dimensão de sonho no cineasta e converte a obra em um puro maneirismo estético. Apesar dos esforços competentes de fotografia e montagem, Albatroz termina sendo um quebra cabeças deslumbrado por aspirações que nunca se concretizam. Não chega a ser um total equívoco, e pode funcionar para a produção nacional como um ruído que perturba mas que também sugestiona e inspira.


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