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Reflexões de Uma Cinéfila: a negação do rótulo de vítima em “A Esposa”

“A Esposa” acompanha o processo de Joan de saída desse lugar que ela não sabia estar para reencontrar a sua própria voz sem ter que estar à sombra de uma figura masculina – e os detalhes da última cena mostram esse desprendimento
“A Esposa”

Esse texto contém spoilers de “A Esposa”

Quando Glenn Close levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz por “A Esposa” eu pouco sabia sobre o filme. Agora que o assisti, o que mais me atingiu foi a forma como sua personagem Joan Castleman, a “construtora de reis”, se recusa em ser rotulada como vítima apesar de ser uma.

O filme nos apresenta Joan (Gleen Close) inicialmente apenas como a esposa de Joe Castleman (Jonathan Pryce), um consagrado romancista prestes a ganhar um Nobel de Literatura. A esposa do homem reconhecido internacionalmente. Ela está sempre na sombra aos olhos públicos quando, na realidade, é a protagonista de toda a vida e talento de Joe.

Joan Castleman é a verdadeira autora de todos os livros do marido. Como uma aspirante à escritora no fim dos anos 50 ela ouviu que como mulher jamais seria publicada e, caso o fosse, não seria lida – e isso a fez ignorar seu talento. Então Joe, seu namorado na época, recebe a chance de ser publicado, mas não consegue desenvolver a história e é Joan que se oferece para escrever o primeiro romance. “Porque um escritor escreve”, ela escreve o primeiro e todos os livros assinados por ele. Para qualquer um que vê a história de fora – como é o caso do biógrafo Nathanial Bone (Christian Slater), Joan é uma vítima. Ela escreve os livros para o marido sem receber qualquer reconhecimento. Mas ela recusa insistentemente o rótulo.

Joan sabe que escolheu escrever para o marido – seja por amor ou chamado do seu talento – e vem daí a insistência em não ser definida como vítima. Uma mulher que pode fazer uma escolha não somente é raro como valioso e isso a desprende do papel de vítima.

Mas ao mesmo tempo essa escolha só foi colocada em seu radar porque ela nunca teve a opção de ser publicada como uma escritora mulher. Joan acabou sendo silenciada, mas encontrou na sombra do marido a escolha de conseguir se publicar e deixar de ser uma vítima. É sua voz que está sendo premiada através do nome do marido.

Joan nunca deixou de escrever para Joe e, ao que entendemos a princípio, isso não a incomodava. Até que o marido ganha o Nobel e pula na cama gritando “eu ganhei” ao invés de “nós seremos publicados” como no começo do filme.

“A Esposa” acompanha o processo de Joan de saída desse lugar que ela não sabia estar para reencontrar a sua própria voz sem ter que estar à sombra de uma figura masculina – e os detalhes da última cena mostram esse desprendimento: ela vira um caderno em que todas as frases começam com “um homem que” para uma página em branco. É seu voo para o que escolher assim como ela escolheu escrever para o marido inicialmente.


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