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Crítica: Calmaria

O desequilíbrio da proposta de Knight causa um impacto absolutamente negativo ao inserir questionamentos sobre família, culpa e o peso do passado com elucubrações desmedidas sobre questões mais profundas acerca de destino, escolhas e o real propósito do homem (pois é...) aqui nessa vida.
Calmaria

Quando Calmaria (Serenity) começou a ser divulgado pela sua dupla principal de atores em entrevistas e talk shows, o prometido era basicamente algo como um “thriller sensual” que se passa em uma ilha. Chegando agora ao Brasil sem muito alarde, o poster traz os dois grandes nomes separados por um grande rasgo vermelho escancarando o tom de conflito que procura vender a história com toques de drama e suspense; e além disso, claro, há o trailer repleto mistério que serve mais para despertar nossa curiosidade sobre o que nos aguarda entregar uma surpresa legítima. Bom, uma coisa podemos dizer: esse filme definitivamente não é o que você está esperando. Só resta saber se isso é boa ou má notícia.

A trama acompanha o solitário capitão do barco Serenity, Baker Dill (Matthew McConaughey), que sobrevive em uma pequena ilha do Caribe levando turistas para pescar em alto-mar. Enquanto enfrenta dificuldades para se manter financeiramente, ele alimenta sua obsessão por um peixe lendário o qual persegue há muito tempo, ficando cada vez mais atormentado cada vez que chega mais perto de finalmente pegá-lo. Essa rotina será abalada quando Karen (Anne Hathaway) chega à cidade procurando vingança contra o marido abusador, Frank (Jason Clarke), fazendo com que alguns mistérios sobre o lugar e o próprio Baker Dill sejam revelados.

É preciso logo dizer que o longa tem duas partes bastantes distintas: uma que contém toda essa premissa acima – que, como se pode observar, tem material para sustentar (teoricamente) boa parte dela – e outra que dependeria de revelações que certamente se classificam como spoiler (sobre o qual não falarei nessa crítica). Mas vamos encarar o desafio assim mesmo e tentar estabelecer o que pretende a obra e porque ela acaba fracassando terrivelmente quando decide dar grandes passos a fim de surpreender o público e tocar em múltiplas temáticas ao mesmo tempo.

Inicialmente, já uma estranheza na sequência de abertura. A trilha sonora aparece hiperbólica e Baker age como se estivesse frente a frente com um inimigo mortal (o peixe). Os diálogos soam um pouco artificiais e há um clima dramático carregado demais para tão pouco tempo de filme. Assim que Karen surge em sua primeira cena, começa a ficar evidente que há uma abordagem propositalmente determinada a ironizar com diálogos desenhados e um tom referencial ao noir. Matthew McConaughey é o protagonista pessimista e sempre com tiradas perspicazes na ponta da língua enquanto Anne Hathaway tem os cabelos, a roupa e a postura de uma típica femme fatale.

Não necessariamente todas essas características irão se manter, mas se há um elogio (o único, na verdade) a se fazer ao diretor e roteirista Steven Knight (Locke, Senhores do Crime) é que ele tem, ao menos em boa parte do tempo, um claro objetivo de narrar por exercícios de gênero. Está tudo ali: personagens com passado misterioso, atitudes dúbias, desconfianças e a possibilidade de um crime. A estética flerta um pouquinho também com esse tom mais saudoso, mas se detém mais no pontual, preferindo adotar uma paleta mais vistosa do que investir na famosa característica de jogos de sombras do noir (a homenagem fica mais por conta dos personagens mesmo).

Nesse sentido, a expectativa vai se fortalecendo assim que descobrimos mais pistas sobre as motivações de Karen, a personalidade de seu companheiro vilanesco e os reais motivos que tornaram Dill um sujeito cínico e desiludido, cuja obstinação em capturar Justice (o nome que deu ao peixe) serve como um McGuffin (um objetivo que o protagonista persegue e faz andar a história, mas cujo significado em si não interessa para ela) durante parte significativa do longa. Estava se desenhando até agora uma válida releitura de um típico thriller na forma de uma grande brincadeira com o próprio formato narrativo.

Portanto, há vários elementos que normalmente já despertariam ojeriza a qualquer roteiro que se pretendesse ser levado a sério: diálogos afetados, escolhas inverossímeis e conveniências demais. Contudo, algumas delas não são “salvas” pela segunda metade da obra, como exposições desnecessárias e subtramas que se ligam de maneira frágil às revelações posteriores (atente-se para a personagem interpretada por Diane Lane e Djimon Hounsou, por exemplo). Até aí, era possível esperar que o filme tivesse como principal particularidade uma narrativa que usa diversos recursos de cartilha como forma de homenagear grandes gêneros e exercer o prazeroso cinema pelo cinema (me lembrei de diretores como Brian De Palma e Quentin Tarantino).

Infelizmente, tudo acaba dependendo de um grande plot twist (que não revelarei) responsável por ressignificar vários dos elementos desenvolvidos na primeira metade da obra. É o famoso “tudo agora tem um sentido” e todas consequências que virão depois. O efeito deveria ser o de tornar tudo mais interessante e profundo, mas o longa vai ladeira abaixo ao se mostrar incapaz de levantar os questionamentos que pretende e tentar desenvolvê-los através de uma bagunça completa de caminhos demais para substância de menos. A inserção de novas regras e uma súbita mudança de gênero mais parece um recorte de duas propostas diferentes que simplesmente jamais deveriam existir juntas. Inevitavelmente, algumas obras famosas vão ecoar na lembrança (pelo bem do mistério, não posso dizer quais, mas marcaram bastante o final de década de 1990 e 2000).

Mesmo considerando os intuitos estéticos, é difícil não se decepcionar com o conteúdo. O desequilíbrio da proposta de Knight causa um impacto absolutamente negativo ao inserir questionamentos sobre família, culpa e o peso do passado com elucubrações desmedidas sobre questões mais profundas acerca de destino, escolhas e o real propósito do homem (pois é...) aqui nessa vida.

Não podemos reclamar que Calmaria quis navegar longe, mas definitivamente foi parar nas profundezas das bombas de 2019.


3.5/10

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