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Crítica #2: Não Olhe

Não Olhe é um longa que promete se aprofundar nos medos da adolescência através de um formato de terror/suspense, mas sobra somente uma decepcionante escolha de não confiar no público e em sua capacidade de absorver algo mais original...
Não Olhe

Desde os tempos de cinema mudo, o espelho foi usado um objeto poderoso na hora de recorrer à simbologia dos reflexos na narrativa. Talvez por ser aquele que justamente nos obriga a olhar para nós mesmos, ele traz significados diversos na hora de contar uma história: imagens duplicadas, múltiplas, simétricas e distorcidas; todas prontas para serem ressignificadas de acordo com a vontade da obra. Menos para recorrer a essa reflexão histórica na linguagem e mais para puxar o fio para o filme em questão, o assunto está no centro temático do novo terror psicológico Não Olhe (Look Away, 2018), mesmo que fique mais na intenção boas ideias do que no seu desenvolvimento.

A história é sobre Maria (India Eisley), uma estudante de ensino médio introspectiva que tem grandes dificuldades para se adaptar socialmente. Na escolha, ela sofre bullying constantemente e tem como única amiga, Lily (Penelope Mitchell), e seu namorado Sean (Harrison Gilbertson), por quem nutre uma paixão secreta. Cansada de permanecer o tempo todo sob o olhar exigente do pai, o cirurgião Dan (Jason Isaacs), e passividade da mãe, Amy (Mira Sorvino), Maria passa a se comunicar com seu reflexo no espelho, que se apresenta com uma personalidade oposta, como forma de agir definitivamente contra os problemas de sua vida.

Uma citação atribuída a Leonardo Da Vinci diz que “os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo”. Longe de tentar estabelecer qualquer profunda conexão com os diversos significados da sentença, não é um exagero dizer que ela se liga com o tema principal do filme. Diante dos problemas crescente em casa e na escola, Maria só tem a seu próprio olhar a si mesma para recorrer. Nesse caso, o reflexo no espelho – e a obra não esconde a obviedade do significado – nada mais é do que uma espécie de Id (encarando de forma mais grosseira os conceitos psicanalíticos), onde os escudos de proteção sociais da jovem são derrubados pela instintiva impulsividade – aqui na forma da jovem que decide bater de frente com o casamento problemático dos pais e buscar vingança contra os algozes do colégio.

O background problemático, aliás, é um dos pontos fortes do longa sob ótica da direção do israelense Assaf Bernstein, que mostra ter um bom olhar estético sobre a ambientação e um senso de ritmo cadenciado que privilegia a construção da tensão que ocorre, principalmente, no 1º ato. É eficiente, por exemplo, a maneira como o isolamento de Maria tem muito de sua origem nas impertinências venenosas do pai e no clima incômodo que se estabelece quando a família está junta no mesmo ambiente. A noção de afastamento fica bem representada e o cineasta tem bons recursos para mirar nos olhares de canto da protagonista, especialmente no que tange à sexualidade reprimida.

Basicamente recorrendo a uma paleta azulada durante quase todo a narrativa, a fotografia ajuda na sensação de frieza prestes a ser “invadida” pela impetuosa chegada de Airam (sim, o reflexo de seu nome...), enquanto a câmera de Bernstein brinca com a dualidade ao mesmo tempo que é eficiente em criar um clima de terror psicológico resultante da confusão em relação seu reflexo – o que rende uma ótima cena que une os anseios íntimos da personagem à primeira “aparição” de Airam. Junto a isso, há a inserção de um elemento envolvendo seu passado que serve como um mistério acerca da própria natureza da ameaça, e que serve, ao menos até metade do filme, para manter o nosso interesse na história.

Infelizmente, as boas intenções da obra acabam sendo vítimas do que parece ser uma necessidade inevitável em encaixá-la dentro de um rigor de gênero. O que era parte do que o espectador deveria deduzir se torna mastigado por explicações desnecessárias que impedem que a complexidade temática da premissa seja realmente desenvolvida. Não ajuda o fato de que várias reflexões (com o perdão de um possível trocadilho) se tornem óbvias demais durante a narrativa: o pai é, claro, um cirurgião plástico especializado em “consertar” pessoas, a mãe é saudosista de seus tempos de beleza e a prometida dualidade entre Maria e Airam vai sendo reduzida à clichês que se inclinam de forma decepcionante para o sobrenatural, o que torna a relação entre elas cada vez mais maniqueísta.

Sendo assim, Não Olhe era um longa que prometia se aprofundar nos medos da adolescência e discutir assuntos como autoconfiança, vaidade e identidade através de um formato de terror/suspense, mas sobrou somente uma decepcionante escolha de não confiar no público e em sua capacidade de absorver algo mais original, até se aproveitando de uma onda recente de bons exemplares do gênero que procuraram chacoalhar um pouco um histórico repleto de lugares comuns.  


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