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Crítica: O Menino que Queria Ser Rei

Com poucos e fracos efeitos visuais, atuações e roteiro sem lá muita inspiração, não sei ao certo se a mensagem que tentou ser passada a esta nova geração vai ter êxito, mas mesmo assim, não posso reclamar muito de alguém que tenta ensinar às nossas crianças que o nosso futuro depende delas serem boas, verdadeiras, honestas e honradas – isso deve valer alguma coisa.
O Menino que Queria Ser Rei

Um “mito de fundação” geralmente é uma história lendária narrada por um povo de modo a conferir-lhe identidade e sentimento de unidade. Havendo uma saga de virtude e bravura em sua origem, as pessoas conseguem se reconhecer como que sendo feitas daquele mesmo material heróico que forjou seus pais fundadores. O Império Romano tinha um; as cidades-estado gregas tinham vários; os Judeus também têm e os ingleses – por que não? – também possuem um mito para chamar de seu. Trata-se da jornada heróica e virtuosa de um menino que veio do nada, e de posse de uma espada mágica, unificou um país, derrotou o mal e criou as bases de uma nação que estava destinada a ser grandiosa. Esse menino entrou para a cultura popular como Rei Arthur e, hoje, num mundo de descrença e individualismo, são as virtudes dele e de seus cavaleiros que o diretor britânico Joe Cornish tenta trazer de volta para as crianças atuais com o longa O Menino que Queria Ser Rei (The Kid Who Would be King, 2019).

O que ocorre nesta adaptação da famosa lenda não é uma reinterpretação estilizada como no recente Rei Arthur : A Lenda da Espada (do diretor Guy Ritchie, 2017), mas uma transposição do mito em sua forma mais clássica para nossos tempos, muito mais parecido com o que os filmes do semideus Percy Jackson (O Ladrão de Raios, de 2010 e O Mar de Monstros, 2013) tentam fazer, apenas trocando os deuses do Olimpo por Excalibur e a Távola Redonda. O longa, inclusive, reconhece claramente que é apenas uma nova tentativa de contar uma história que já vimos centenas de vezes, seja com o próprio Arthur ou com – como o próprio protagonista menciona – Harry Potter, Luke Skywalker e tantos outros por aí.

Aqui, temos o órfão de pai Alex (Louis Ashbourne Serkis), que ao encontrar a espada Excalibur precisa assumir sua responsabilidade como novo futuro rei do povo da Bretanha, reunir aliados e derrotar a feiticeira Morgana (Rebecca Ferguson, dos capítulos mais recentes da franquia Missão Impossível) com a ajuda do mago Merlin (personagem dividido pelo jovem e ótimo Angus Imrie e pelo eterno Professor Xavier, Sir Patrick Stewart). No meio desta história nada original, temos um esforço legítimo de levar as crianças – sobretudo as inglesas – a uma retomada para ideais que parecem perdidos como responsabilidade, união, honra e honestidade – os ideias dos cavaleiros medievais. Adicione a isso uma jornada de amadurecimento com pitadas de representatividade – dentre os personagens principais, temos uma cavaleira que além de ser menina, é negra e outro claramente descendentes de indianos e gorducho, que dão boas lições de coragem e amizade ao longo do filme – e temos uma obra que pode não ser muito memorável, mas dará uma ótima Sessão da Tarde daqui há alguns anos.

Dado o momento histórico, não consigo parar de pensar que o diretor Joe Cornish, mesmo sendo um filme infantil, está dialogando o tempo todo com um Reino Unido que acabou de escolher sair da União Européia – com o chamado BREXIT em 2016 – e agora demonstra estar arrependido desta decisão – literalmente no dia anterior à sessão que assisti, o Parlamento Britânico alegou por ampla maioria desconfiança na liderança da Primeira Ministra Teresa May, abrindo margem para novas eleições. O roteiro se repete em falar da falta de liderança da nação, motivo pelo qual são necessários novas encarnações Arthur e de seus nobres cavaleiros, capazes de conduzir o povo inglês para um futuro glorioso que atualmente parece impossível.

Seja como for, O Menino que Queria Ser Rei é sim capaz de empolgar as crianças, mas fora das terras da rainha, diante de todo seu contexto, não passará de um filme para os pequenos assistirem de tarde na volta da escola tomando achocolatado – e só se estiver passando também, sem fazer muita questão. Com poucos e fracos efeitos visuais, atuações e roteiro sem lá muita inspiração, não sei ao certo se a mensagem que tentou ser passada a esta nova geração vai ter êxito, mas mesmo assim, não posso reclamar muito de alguém que tenta ensinar às nossas crianças que o nosso futuro depende delas serem boas, verdadeiras, honestas e honradas – isso deve valer alguma coisa.



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