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Crítica #4: A Favorita

Este certamente é o filme mais convencional e que se afasta das experiências anteriores de Lanthimos, responsável por narrativas distintas e de pura imprevisibilidade como O Lagosta, O Sacrifício do Cervo Sagrado e Dente Canino.
A Favorita

História ambientada no século XVIII sobre as aventuras de vida e amor de Anne Stuart, no período em que ela era rainha da Inglaterra, A Favorita é o novo filme do diretor Yorgos Lanthimos (O Lagosta) sobre a luta pelo poder dentro do castelo. Lanthimos, conhecido pelo estilo visual e narrativo anacrônico de seus filmes anteriores, mais frios e insensíveis, dá espaço para a humanidade e apresenta uma comédia dramática baseada na tumultuada e excêntrica indiferença da realeza.

A história é ambientada não muito depois da virada do século XVIII, quando a rainha Anne (Olivia Colman) ascendeu ao trono da Inglaterra. Escrito pela roteirista Deborah Davis e Tony McNamara (Ashby), que escolheram focar nos últimos anos da monarca emocionalmente frustrada e indefesa, o filme não perde tempo em estabelecer os conflitos e os jogadores. Sua favorita, Lady Marlborough (Rachel Weisz), literal e figurativamente guarda a chave do coração da rainha. Amiga de infância, confidente íntima e amante secreta, sua proximidade com o trono lhe dá grande poder político, no entanto, sua posição começa a ser ameaçada quando sua prima Abigail Hill (Emma Stone) entra na corte. Aqui se estabelece o conflito central do filme e elas interpretam um par de mulheres lutando pela predileção da rainha a todo custo. Num segundo plano narrativo apresenta-se a monarca tentando liderar seu país através de um conflito prolongado com os franceses que pesa sobre todos e as disputas de lideranças no parlamento preocupado com a falência do país em relação aos gastos militares.

Raros são os filmes em que toda a performance do elenco principal é merecedora de elogios, mas Colman representando magistralmente uma Anne cada vez mais confusa, Weisz (apresentando o melhor desempenho em anos) como uma implacável e forte mulher e Stone, um tanto excessiva mas reagindo a altura dentro da tríade, estão quase perfeitas em todos os sentidos. Destaque para Olivia Coleman, que transmite a tristeza, o desespero e o estado lastimável da rainha Anne de forma comovente e admirável.

A fotografia de Robbie Ryan está excelente. O uso de lentes super grandes angulares e olho de peixe é o principal adorno, distorcendo o campo visual para tornar ainda mais absurda e irreal o drama que se desenrola. No entanto, o recurso é utilizado de forma óbvia, cansativa e sem acrescentar muito à narrativa e em momentos totalmente dispensáveis. O recurso, todavia, permite que os quadros transbordem o rico detalhe do design de produção que retratou de forma impecável a grandiosidade dos interiores do palácio, os jardins exuberantes e os trajes relevantes ao período (produção digna de Oscar de figurino).

Não há porque crer que tudo isto seja suficiente para considerar A favorita um trabalho notável, uma vez que a história em si não traz nada de novo. Afinal, um triângulo amoroso conflituoso no qual a sedução é utilizada como instrumento para obter poder já foi algo visto algumas vezes. Além disso, há certa dificuldade em se conectar com os personagens (apesar das boas atuações) e o filme tem dificuldade em despertar emoções, já que parece evitar o íntimo e buscar o distanciamento e a estranheza. O que não nos deixa desinteressados ou indiferentes, pois testam nossa simpatia e lealdade com a história enquanto os personagens lutam pela supremacia. O próprio Lanthimos parece ciente e no controle dessa falta de emoção, tanto que utiliza (bem) a trilha sonora para dar peso às cenas, gerando uma evidente sobrecarga musical que não impede que o afastamento do público se instale. Faltou realmente um pouco de luz na história e outras tramas secundárias de fundo poderiam ser mais bem desenvolvidas e tratadas, o que nos faz, ao olhar para a história do filme como um todo, perceber alguns hiatos.

A tentativa de Yorgos Lanthimos de dar novos ares e sátira a um gênero já bem desgastado como o filme de época dá um bom resultado, mas nada surpreendente e que não tenha sido feito antes e de maneiras melhores como em Maria Antonieta (Sofia Coppola), Amadeus (Miloš Forman) e Ligações Perigosas (Stephen Frears), para citar apenas alguns títulos. Lanthimos claramente projeta uma tendência revisionista, apresentando três mulheres no centro da narrativa num cinema que privilegiou quase que de forma normativa e por anos esse tipo de trama movida apenas por homens. Os filmes políticos de Hollywood em que as mulheres são retratadas como protagonistas e antagonistas são quase inexistentes, o que é louvável e suficiente para considerarmos o esforço do filme.

Filme para o público que gosta de humor excêntrico, é uma garantia de duas horas de intriga e de jogos políticos que ganha um impulso com a ênfase dos desvios sórdidos, tornando o político mais pessoal e intrigante.

Para os fãs dos filmes que Yorgos Lanthimos dirige, é inquestionável que seus filmes não são para todos. Este certamente é o filme mais convencional e que se afasta das experiências anteriores de Lanthimos, responsável por narrativas distintas e de pura imprevisibilidade como O Lagosta, O Sacrifício do Cervo Sagrado e Dente Canino. Isso não seria um problema se não tivesse ficado a desconfiança de que o diretor, ao perder de vista o caráter e a originalidade de conteúdo, pode estar se afastando de sua essência e aproximando-se furtivamente de um processo seguido por outros diretores, que por razões acessíveis e comerciais adaptam-se a um sistema quase natural de Hollywood.

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