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Crítica #3: A Favorita

Mantendo um grau de subversão até o seu fim (como se vê no belo plano que fecha a obra), A Favorita conta uma boa história e é um ótimo cinema na forma como usa sua linguagem para enriquecer a nossa experiência.
A Favorita

O cineasta grego Yórgos Lánthimos começou a despertar interesse no meio cinéfilo com o longa Dente Canino, vencedor do Um Certain Regard no Festival de Cannes, em 2009,  e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte. Adepto de abordagens mais fortes e com a predileção por incomodar o espectador, o filme já mostrava que o diretor gosta de explorar o lado mais sórdido do ser humano e seus comportamentos absurdos quando certos limites morais são extrapolados. A faceta animalesca – constante nos trabalhos posteriores tanto nos títulos quanto nas temáticas (O Lagosta, O Sacrifício do Cervo Sagrado) – é algo que está sempre presente em seus personagens e pincelado de diversas formas em cada uma de suas obras. Agora, em seu último trabalho, A Favorita, ele opta por um formato aparentemente mais “tradicional” e direto (ao menos em termos de trama) ao escolher a corte inglesa do século XVIII como o palco para explorar novamente as singularidades escondidas atrás de um evento histórico real.

A trama se passa na época da Guerra de Sucessão Espanhola, quando a Grã-Bretanha e a França entraram em guerra, juntamente com outras nações europeias, por causa da crise sucessória do trono espanhol após o término da dinastia que o ocupava. Na ponta do reinado, estava a frágil e quase sempre debilitada rainha Ana (Olivia Colman), cujo governo exigia constantemente que tomasse decisões importantes que afetavam a guerra e a própria população do país. Para ajudá-la o tempo todo, a amiga de infância e conselheira Sarah Churchill (Rachel Weisz), a Duquesa de Marlborough, a acompanha em todos os seus afazeres diários, influenciando, inclusive, nas decisões políticas da corte. Após a chegada de Abigail (Emma Stone), prima de Sarah, esse equilibro começa a ser ameaçado quando a nova peça entra para disputar a influência da Rainha.

Apesar de usar o importante evento histórico como pano de fundo, a intenção de Lánthimos não é fazer um drama de época propriamente dito. Toda a certificação de que necessitamos para nos transportar esses trezentos anos no passado está no excelente design de produção e figurino. A narrativa se passa quase inteiramente no espaço da corte e sua opulência se mostra na ornamentação detalhada e no minimalismo dos ambientes e caracterizações dos personagens. Se estivéssemos diante de uma tradicional obra histórica, já seria o suficiente para que ela fizesse jus ao período e à representação visual específica (não à toa, acabou de ser incluída nas categorias de maquiagem e direção de arte no Oscar).

O que acontece de fato aqui é que o roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara adapta a conhecida amizade da Rainha e a Duquesa – junto com a posterior chegada de Abigail (que também existiu de verdade) – para uma surpreendente mistura de humor satírico e thriller psicológico. À parte da trama principal, o ambiente tóxico de intrigas constantes se junta a um certo deboche acerca do comportamento pomposo da realeza, que usa seu microuniverso para expor a frivolidade do ambiente. Nesse caso, o humor não vem só dos ótimos diálogos e das tiradas perspicazes – com destaque para versatilidade de Emma Stone na pele de Abigail e nos insultos perigosamente jocosos de Harley (Nicholas Hoult) –, mas nas representações visuais que se contrapõe de forma quase absurda ao retrato realista que seria de se esperar (se fosse, como dito, um drama histórico). Deste modo, a cena em que um homem nu é alvejado por pedaços de comida em um jogo bizarro, exibindo um simbólico sorriso estupidamente infantil, é um dos mais significativos exemplos do pitoresco, mas evocativo quadro que o diretor tem a intenção de evidenciar.

E o que torna A Favorita realmente intrigante é a condução de Yórgos Lánthimos e como ele basicamente subverte o que se esperaria dessa história à primeira vista. Tirando uns 2 ou 3 momentos pontuais onde há um certo exagero que pode tirar o espectador brevemente do filme, Lánthimos e seu diretor de fotografia Robbie Ryan (também indicado ao Oscar) não economizam nas grandes angulares (lentes que ampliam objetos mais próximos e aumentam o campo de visão, distorcendo as proporções da imagem). A técnica traduz exatamente o estranhamento proposto no objetivo de afastar o realismo e fazer abraçar a excentricidade do ambiente, o que é um recurso muito eficiente em produzir a sensação de estar acompanhando uma realidade desvirtuada. O embate entre as aparências e verdadeiras motivações também acompanha a tom da narrativa à medida que ela se torna mais perigosa e ácida, o que vai ficando patente nos belos planos pontuados por feixes de luz, que ressaltam a eventual opressão do palácio e isolam os personagens em meio à escuridão, principalmente nas noites claustrofóbicas onde as intrigas do trio central se acentuam.  

Pois, não sendo “só” efetivo em seu humor, o longa é incrivelmente tenso e angustiante. Em grande parte, isso se deve ao trabalho excepcional de Rachel Weisz, Olivia Colman e Emma Stone. Enquanto Weisz e Stone formam um conflito direto entre experiência e perspicácia, Colman confere uma instabilidade que chega a ser assustadora para a Rainha Ana, tornando-a uma personagem imprevisível e trágica. Outro aspecto essencial que eleva a sensação de apreensão é a trilha sonora composta por sons dissonantes e pulsantes, responsáveis por transmitir uma sensação de incômodo crescente, servindo, inclusive, como elemento de ligação temática entre cenas importantes que dizem muito sobre a relação de dominância entre o trio. A montagem de Yórgos Mavropsaridis (mais um lembrado pela Academia) não fica atrás e produz algumas transições interessantíssimas, como aquela em os sons de tiro esportivo antecipam a tensão em uma conversa casual repleta de um subtexto ameaçador.

Chegando à sua reta final, o longa exibe um leve desgaste no ritmo, mas isso não é o suficiente para diminuir o sucesso da experiência sensorial e dramática alcançada por Lánthimos. O resultado vai além de uma história bem escrita e atuada, se aprofundando nos personagens e tornando o exagero da intriga algo divertido e tenso de se acompanhar. Mantendo um grau de subversão até o seu fim (como se vê no belo plano que fecha a obra), A Favorita conta uma boa história e é um ótimo cinema na forma como usa sua linguagem para enriquecer a nossa experiência.


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