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Crítica #2: O Peso do Passado

Por mais que a atriz australiana surja despida de qualquer vaidade e injete convicção em uma personagem derrotista, diferente de tudo o que já fez, é bastante difícil – e, em última análise, frustrante para alguém da estatura de Kidman – almejar se sobressair no meio de tantas ideias mundanas, frívolas e mornas.
O Peso do Passado

A vida nunca esteve tão insuportavelmente cansativa e dolorosa para a detetive Erin Bell. Sua pele está cada vez mais áspera, assim como a secura de seus lábios progride com a mesma intensidade que sente ao necessitar de um refúgio no álcool; a relação com a filha adolescente, Shelby, está a um passo da deterioração e, além disso, por mais que seja empenhada em seu trabalho, é sempre vista por olhares de desconfiança, pena e/ou desprezo. Talvez seja possível que Erin realmente mereça essa recepção tão empedernida, pois age com uma indiferença gritante em relação a si própria, mas não se sabe exatamente o porquê disto. Sua melancolia se acentua quando um homem é assassinado, relembrando-a de acontecimentos ligados a pessoas que certamente preferia esquecer.

É um caso curioso que ambos os títulos – seja o original em inglês ou a tradução para o português – deste filme possuam uma conexão explícita com os temas abordados na obra, ainda que esse didatismo acabe enfraquecendo as interpretações geradas pelo material. Sendo assim, O Peso do Passado (Destroyer, 2018) possibilita apenas duas leituras intrinsecamente ligadas sobre o conteúdo de sua narrativa e por sua dramaturgia: 1) trata-se de uma história sobre os efeitos corrosivos do passado no presente, de que esquivar-se da culpa é uma reação vã; 2) a não assimilação desses sentimentos pesarosos e pouco aprazíveis conduz a um caráter autodestrutivo, uma vez que não é possível enxergar nada de substancial ou estimável no mundo e nas relações humanas.

Minto, existe, de fato, uma terceira possível análise: a de que a profundidade textual esteja presente apenas no cartão de visitas, já que a diretora Karyn Kusama, de carreira instável (do péssimo AEon Flux, passando pelo prazer culposo Garota Infernal até o ótimo terror The Invitation), trabalha esse subtexto com passividade, sem arroubos generosos de criatividade. Mesmo consciente da vocação noir do texto escrito por Phil Hay e Matt Manfredi, a cineasta parece incerta ao abraçar ou não esse subgênero: se por um lado, filma paisagens sem glamour e adota uma estética realista, por outro, todavia, parece destacar a iluminação de alguns interiores, como na conversa final entre mãe e filha, pontuada pelo antagonismo entre luzes neon e a opacidade do marrom. Felizmente, Kusama e a edição de Plummy Tucker apostam em algumas elipses espacial-temporais muito interessantes, mantendo-nos colados à traseira de um carro enquanto acompanhamos uma mudança de local, tempo e atmosfera.

Essa hesitação ao aprofundar visualmente a proposta do roteiro é proposital, já que Kusama está mais preocupada em valorizar a trama e as cenas de ação mais desafiadoras – e é aí que a diretora compromete a uniformidade de sua obra: o enredo não dá margens para surpresas ao longo de seu desenvolvimento e também se demonstra indeciso se está preparando um estudo de personagem ou apenas um filme de gênero.

No entanto, essa indecisão seria atenuada caso os roteiristas se ativessem a apenas uma das cartilhas, mas a dupla investe em um caminho totalmente oposto e ainda mais problemático: a Síndrome de Shyamalan. Hay e Manfredi, autores dos argumentos de produções abaixo da linha da mediocridade como Fúria de Titãs (2010), R.I.P.D – Os Agentes do Além (2013) e os dois Policial em Apuros (2014 e 2016), parecem escritores iniciantes, deslumbrados com a possibilidade de criarem rimas situacionais entre o prólogo e o epílogo, optando por um desfecho cafajeste, desonesto e presunçoso, maculando os pontos fortes da narrativa e eviscerando a falta de lógica da reviravolta, o que poderia ter sido evitado caso determinada cena tivesse sido melhor revisada. Para piorar, a diretora “ajuda” Hay e Manfredi nessa empreitada ao abraçar um uso tolo de câmera lenta e ao inserir imagens dramática e tematicamente desconectadas da narrativa contada ao longo das quase duas horas anteriores.

Resta a Nicole Kidman surgir encardida e cambaleante para tentar salvar O Peso do Passado de sua irônica autodestruição. Porém, por mais que a atriz australiana surja despida de qualquer vaidade e injete convicção em uma personagem derrotista, diferente de tudo o que já fez, é bastante difícil – e, em última análise, frustrante para alguém da estatura de Kidman – almejar se sobressair no meio de tantas ideias mundanas, frívolas e mornas.


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