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Crítica #2: O Menino Que Queria Ser Rei

Auxiliado também pela trilha sonora do grupo coletivo chamado Electric Wave Bureau, cujas composições alternam entre o íntimo e o opulento, o sacro e o profano, O Menino que Queria Ser Rei é, de longe, a melhor reimaginação da história mítica de Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda
 O Menino Que Queria Ser Rei

Hollywood tentou, durante meados dos anos 2000, trazer personagens reais e histórias clássicas às plateias de todo o mundo, embalando-os em espetáculos de puro entretenimento. Contudo, filmes como Tróia (2004), Rei Arthur (2004) e Alexandre (2005) provaram que as investidas não resultaram em quintessências épicas, seja no impacto de suas decisões artísticas na cultura popular ou nos números de bilheteria (a exceção fica pelo longa de Wolfgang Petersen). Novamente, ao longo desta década prestes a se encerrar, viu-se um panorama ainda pior: Robin Hood, Conan, o Bárbaro e Rei Arthur não mostraram o menor apelo junto ao público acostumado aos super-heróis, amargando cifras que variaram entre o medíocre e o calamitoso.

Talvez, o motivo para o insucesso desses projetos – ao menos, por um ponto de vista criativo – se materializava na tentativa de anabolizar excessivamente tudo o que parecia mais elementar e relacionável ao espectador/leitor. Pois bem, a boa notícia é que o diretor inglês Joe Cornish investe na contramão dessa abordagem típica dos grandes estúdios: O Menino que Queria Ser Rei (The Kid Who Would Be King, 2019) é uma atualização da lenda do Rei Arthur, desde o momento em que retira a espada Excalibur da pedra até a convocação de seus fiéis cavaleiros. Sim, trata-se de uma história deveras conhecida, mas o que conta aqui é a renovação do contexto e o espírito sagaz com que Cornish desenrola este conto.

Desta vez, quem assume o manto é o jovem Alex (Louis Ashbourne Serkis, filho de Andy), um adolescente londrino que, junto ao amigo, Bedders (Dean Chaumoo), sofre bullying na escola onde estuda. A situação começa a mudar quando ambos recebem a visita do famigerado mago Merlin (Angus Imrie, na versão jovem/Patrick Stewart, na velha), que explica sobre as origens de Alex e os alerta quanto à ameaça representada por Morgana le Fay (Rebecca Ferguson), meia-irmã do Rei Arthur e disposta a conquistar o mundo.

O roteiro, também assinado pelo diretor, inclui diversas referências a elementos da cultura pop contemporânea, de Star Wars a Harry Potter, que não soam isoladas justamente por retratarem a personalidade dos adolescentes e a maneira que usam para compreender os elementos da lenda original. O subtexto que serve como liga temática para motivar o comportamento dos personagens também é interessante, justificando o contexto social e temporal da narrativa: em um mundo gradualmente mais confuso, afobado e exigente, os adolescentes sofrem cobranças às quais não têm tempo para ponderar, apenas reagir instintivamente para garantir sua sobrevivência. Sendo assim, quando Alex opta por não agir contra seus bullies, trata-se de uma decisão movida pelo medo de jamais estar em paz novamente; em contrapartida, este é o mesmo receio dos agressores: ficarem para trás e sofrerem eles mesmos as humilhações que perpetuam.

Porém, apesar de suas intenções nobres e da importância da mensagem defendida pelo longa-metragem como um todo, Cornish comete alguns deslizes dramáticos em seu texto, apressando a aproximação de personagens então antagônicos, cuja empolgação jovial e irrestrita ressalta a transição abrupta de seus comportamentos. Além disso, o desfecho dado pelo roteirista a um dos leitmotifs do protagonista (a busca por seu pai) não só é anticlimático, mas termina conferindo uma postura antipática ao garoto, que encerra a situação por conveniência, e não por espontaneidade.
Felizmente, o carisma do elenco impede que a precariedade destas resoluções comprometa a totalidade do produto.

Louis Ashbourne Serkis apresenta um desempenho gradativo: de início, parece oscilar apenas entre expressões de catatonia e apatia; à medida que a jornada progride, no entanto, introduz ao público a convicção e bravata necessárias para torná-lo um herói do porte de Arthur. Já Dean Chaumoo encarna com precisão a postura mais sonhadora de Bedders frente aos acontecimentos, sendo particularmente tocantes os olhares cheios de brilho que lança ao ver algo impressionante. Tom Taylor, visto no fiasco monumental nomeado A Torre Negra (2017), consegue fazer de Lance um rapaz crível e propositalmente desagradável, mesmo que frágil – e se Rhianna Doris pouco pode mostrar como Kaye, ao menos, sua escalação revela certa transgressão, ao passo que Rebecca Ferguson e Patrick Stewart surgem como as figuras adultas mais tarimbadas que ancoram este tipo de iniciativa. O grande destaque fica por conta de Angus Imrie (filho de Celia), que cria um Merlin acertadamente excêntrico, lépido e tão juvenil quanto os meninos que recruta.

Auxiliado também pela trilha sonora do grupo coletivo chamado Electric Wave Bureau, cujas composições alternam entre o íntimo e o opulento, o sacro e o profano, O Menino que Queria Ser Rei é, de longe, a melhor reimaginação da história mítica de Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, uma pela qual ninguém esperava ou precisava, mas que gera felicidade por sua existência.
Que também ofereça conteúdo suficiente para os pequenos pensarem sobre a situação do nosso mundo fora de maniqueísmos é apenas um agradável bônus.



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