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Crítica #2: A Favorita

A Favorita do grego Yorgos Lanthimos (responsável pelo tão estranho quanto ótimo O Lagosta, 2015) surge como mais uma destas sátiras, carregada de acidez e até um certo veneno, e com um humor esquisito e charmoso
A Favorita

Não é de hoje que os costumes e exageros da realeza despertam o interesse dos plebeus que vêem estas figuras como pilares de luxo, requinte e idealização – ainda ontem o mundo inteiro parava para assistir a mais um “Casamento Real”, não foi mesmo? Tão antiga quanto este fascínio, é a sátira a estes mesmo exageros que rondam o mundo das cortes, dos banquetes e dos palácios, desde a aurora dos tempos, alimentada por intrigas, fofocas e maledicências oriundas da inveja do povo – e muitas vezes das mais escandalosas verdades. Neste ensejo, A Favorita (The Favourete, no original) do grego Yorgos Lanthimos (responsável pelo tão estranho quanto ótimo O Lagosta, 2015) surge como mais uma destas sátiras, carregada de acidez e até um certo veneno, e com um humor esquisito e charmoso que despertou a atenção da crítica especializada lá fora – o longa foi o campeão de indicações no último Critics’s Choice Awards com 14, faturando dois prêmios incluindo o de Melhor Elenco.

Logo de início, somos surpreendidos como a montagem do longa que o divide em atos, semelhantes a capítulos, num formato comum a peças de teatro e mesmo aos primórdios do cinema – a trilha sonora de música clássica altíssima e incrivelmente bem posicionada adiciona a esta montagem um aspecto de espetáculo muito envolvente, transformando a sala de cinema numa ópera clássica, no melhor sentido da expressão. Figurinos, cenários, fotografia, direção de arte, design de produção e maquiagem se encarregam de te transportar para a época daquela história com absoluta perfeição e em alguns minutos você está pronto para usufruir como se deve do arco envolvendo a frágil Rainha Anne (Olivia Colman, vencedora do prêmio de Melhor atriz em filme de comédia pela crítica), sua amante, amiga de confiança e verdadeira governante a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz, que está impressionante e ganhou uma indicação de coadjuvante pelo papel) e sua recém-chegada prima e alpinista social Abigail (Emma Stone, que fecha a trinca das protagonistas indicadas a prêmios de atuação pelo filme).

A trama é baseada em fatos, todas as personagens principais são reais e mesmo sem haver evidências conclusivas sobre as práticas homossexuais da Rainha Anne da Grã-Bretanha (1665 - 1714) nem com a duquesa, nem com Abigail, sabe-se que a monarca era frágil e quem exercia real influência na corte era a personagem vivida por Weisz, assim como também é sabido que sua prima Abgail (Stone) de fato foi uma das responsáveis pela ruptura da relação entre as duas amigas poderosas e ao posterior banimento da duquesa da corte inglesa. Portanto, há um respeito histórico primoroso, mas o que faz A Favorita despertar tantos elogios por aí é a forma brilhante como zomba da realeza, com seus maneirismos exagerados, perucas enormes, roupas extravagantes e maquiagens pesadas para disfarçar um ambiente de fragilidade, intrigas e escândalos. Todos os personagens possuem um linguajar chulo e mordaz, tampouco sem deixar de ser elegante, e o filme provoca risos sinceros com as tiradas afiadas ditas pelos nobres em cena.

O diretor, aqui, se apossa com propriedade do tom de sátira, e enquanto se preocupa em dar a todos os ambientes e cores um aspecto de natureza morta, com tons escuros e pastéis, carrega as tintas nos momentos ridículos em que a nobreza soterrada em pó-de-arroz se diverte com entretenimentos bobos como corridas de patos dentro dos palácios. Numa sacada inteligente, Lanthimos abusa das lentes grande-angulares extremas, que causam uma distorção na imagem e dão ao espectador a sensação de estar observando tudo através de um olho-mágico, como se espiássemos os bastidores opulentos do poder.

Ao final, uma cena aparentemente solta resume bem a intenção de A Favorita para conosco: um homem nu, cobrindo suas vergonhas e usando uma imensa peruca ruiva, se coloca como alvo de laranjas e tomates atirados pelos nobres pomposos para seu divertimento. Debaixo de toda aquela maquiagem, babados e tecidos, o filme despe a nobreza até o ridículo a que ela se propõe a portas fechadas, sujeita a loucuras, desvios, perversões e falhas de caráter, e nos dá tudo de bandeja, como observadores ocultos atrás de uma fresta ou fechadura – prontos para atirar-lhes os tomates que eles merecem.



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