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Crítica: O Ódio que Você Semeia

O longa que trata sobre voz, e o poder que ela possui quando manifestada, vai muito além do que uma mera denúncia sobre o racismo.
O Ódio que Você Semeia

Após o gênero Young Adult ter ganhado força e se solidificado no meio literário na última década, as adaptações do mesmo para o cinema também mostram que é possível (e necessário) produzir longas que tratam de temas sérios e fortes com o público juvenil. O Ódio que Você Semeia acompanha bem a realidade e a voz de uma geração de jovens politizados que possuem consciência quanto à diversidade, privilégios das maiorias e necessidade de mudança. E é com apostas singelas em premissas potentes que o filme estabelece tal diálogo com essa juventude.

Mas não se deixe enganar, o público-alvo do filme engloba adultos e qualquer outra faixa etária que tenha a mente aberta para a desconstrução de preconceitos e senso comum baseados na cultura racista. O diretor George Tillman Jr, ao lado da roteirista Audrey Wells, constrói uma adaptação com força e objetivo explícito, que expõe sem pudor problemáticas da cultura norte-americana, mas que não se distanciam de nossas vivências ou da realidade global.

A história não destoa da original do livro de Angie Thomas, acompanhando a vida de Starr Carter (Amandla Stenberg), uma jovem negra que vive com sua família no bairro periférico de Garden Heighs, onde a violência, o tráfico e a insegurança são parte de seu cotidiano. Por exigência de seu pai Maverick (Russell Hornsby), ela e os irmãos frequentam uma escola particular num bairro predominantemente branco, onde é necessário ocultar alguns hábitos e costumes e viver uma “segunda vida” sem chamar a atenção.

A vida da jovem toma um rumo brutal quando seu amigo Khalil (Algee Smith) é brutalmente assassinado por um policial branco, e ela é a única testemunha capaz de depor acerca do ocorrido. Embora no início Starr queira manter sua identidade em segredo, temerosa pela sua segurança e a de sua família, a garota aos poucos percebe a real importância de usar sua mais poderosa arma: sua voz.

Um dos principais motivos pelo qual o longa funciona bem é o elenco. Amandla Stenberg apresenta uma adolescente convincente, que jamais beira a total ingenuidade, mas transparece uma transição explícita que vai do silêncio conformado ao ódio gritante à injustiça. O roteiro fornece subsídio para que a atriz desenvolva na personagem mudanças visíveis em seu comportamento na relação com cada um dos demais a sua volta.

Russell Hornsby também apresenta uma performance extremamente exata e ponderada, circundando a beira dos estereótipos de um pai ciumento e de um ex-criminoso, mas sem ceder a eles. Os sentimentos de proteção e honra latentes em todas as suas expressões, gestos e em sua voz geram uma sensação ainda maior de importância às temáticas debatidas no enredo.

É possível notar que, no desenrolar da história, roteiro e direção sofrem alguns entraves. Em meio a tentativa de fazer jus à obra original, o segundo ato do filme vaga sem propósito por algumas cenas, como se o filme não soubesse ao certo como se encontrar enquanto a protagonista não se encontra.

Embora tais percalços não tirem o brilho do filme, é possível crer que Stenberg possuía um potencial ainda maior de atuação que não ganhou espaço na escolha e desenvolvimento de cenas.

Contudo, é pelo seu potencial conscientizador que O Ódio que Você se Semeia se destaca. Fazendo bom uso de recursos sonoros de impacto, acompanhados de faixas bem escolhidas numa trilha impecável, é possível fazer uma lista de no mínimo dez cenas do filme capazes de causar arrepios e sensações de revolta no espectador.

O longa que trata sobre voz, e o poder que ela possui quando manifestada, vai muito além do que uma mera denúncia sobre o racismo. O trabalho de Tillman Jr, Wells e Thomas é inspirar o poder de fala a grupos marginalizados, fazendo uso de choques emotivos, mas sem deixar de finalizar o projeto com uma mensagem de esperança.


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