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Crítica: O Beijo no Asfalto

O Beijo no Asfalto é um longa que rescende a todos os momentos uma forte sensibilidade, construindo através de atuações brilhantes dezenas de fortes conexões entre os espectadores do filme e toda a beleza por trás de um processo artístico em construção.
O Beijo no Asfalto

Adaptação homônima da peça teatral de Nelson Rodrigues, O Beijo no Asfalto traz a história de Arandir (Lázaro Ramos), que decide realizar o último desejo de um desconhecido a beira da morte após ter sido atropelado, dando-lhe um beijo nos lábios. A partir de tal simples ato, a história de Nelson ganha um teor crítico absurdo ao abordar as severas consequências que ocorrem na vida de Arandir, que é mal visto pela mídia, pela polícia, pelo sogro e por sua esposa.

Contudo, o filme desde o início já demonstra que não pretende se ater simplesmente ao texto de Nelson, e rompe as barreiras do esperado de uma simples adaptação para as telonas. A direção de Murilo Benício é cuidadosa, atenciosa e detalhista, deixando evidente o trabalho minucioso realizado desde o processo de concepção da linha que o longa viria a seguir.

A estética do filme já causa um intencional distanciamento, com uma fotografia contrastada em preto e branco, e escolhas cenográficas como deixar à mostra todos os equipamentos utilizados no estúdio, como as câmeras, claquetes, luzes e microfones. As imagens a todo momento fazem com que o espectador seja absorvido não pela história em si, mas sim pelo trabalho por trás da obra. A escolha de Benício é certeira ao apostar, por trás da abordagem crítica de Nelson Rodrigues, numa abordagem sobre a construção da arte.

Dessa forma, o enredo caminha durante todo o filme por um caminho de metalinguagens, onde há uma mistura entre cenas de ensaios e leituras teatrais, e a própria filmagem da peça. Essa dualidade do enredo ganha vida através da edição, que sabe bem como dispor a montagem na intenção de gerar um paradoxo entre a fantasia do teatro e o realismo do cinema.

Em meio a essa proposta ousada, o elenco é absolutamente fantástico. Lázaro Ramos e Débora Falabella como protagonistas entregam performances impecáveis, apostando em atuações que também representam ao seu modo, uma fusão entre poéticas da linguagem teatral e mecanismos do ator para as telas. O espectador tem sua atenção captada pela naturalidade do elenco ao longo dos ensaios, sendo cativado pela transparência com que os personagens transparecem suas emoções, motivações e diferentes interpretações que cada um deles possui da peça.

É indispensável mencionar a mestra Fernanda Montenegro sempre que realiza participações especiais em qualquer elenco, e a aparição que realiza no longa é não apenas preenchida por seu talento natural, mas também por uma nostalgia emotiva, já que a atriz foi uma das intérpretes na adaptação original do texto para os palcos.

O Beijo no Asfalto é um longa que rescende a todos os momentos uma forte sensibilidade, construindo através de atuações brilhantes dezenas de fortes conexões entre os espectadores do filme e toda a beleza por trás de um processo artístico em construção.



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