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Crítica: A Voz do Silêncio

A Voz do Silêncio só consegue, de fato, dissertar a respeito da solidão e da falta de identidade em sua abertura e em seu encerramento, quando não está focalizando nenhum de seus personagens – uma ironia abissal, levando-se em conta que este é um filme abarrotado deles.
A Voz do Silêncio

Logo na abertura de A Voz do Silêncio (Idem, 2018), vê-se carros em movimento, trânsito congestionado, os pés céleres da multidão paulista, os rostos desfocados de transeuntes e prédios desbotados, mas nunca se vê um ser humano como tal. Já fica clara neste prólogo a intenção do cineasta André Ristum (do ótimo Meu País e do mediano O Outro Lado do Paraíso): mostrar que, no mundo pós-moderno, não existem mais indivíduos totalmente particulares. Quem impera é a força da coletividade, esmagando o sujeito.

Neste filme-coral, somos apresentados a um garçom noturno (e porteiro durante o dia) submetido às ordens de um comerciante italiano irritadiço, a um advogado amoral e adúltero, a uma dançarina/cantora de uma boate, a uma ex-professora aposentada e alcoólatra, a um atendente de telemarketing, a um radialista argentino idoso e a uma mãe solteira e corretora de imóveis.
Ristum e o montador Gustavo Giani evidenciam a proposta ao apostarem em uma edição apressada e repleta de cortes secos, criando a percepção de que a vida daquelas pessoas é apressada, sem momentos de inflexão e de que, no fundo, parecem não importar tanto.

Esta abordagem encontra amparo no roteiro também assinado pelo diretor (com a colaboração do excelente Marco Dutra) até o início do segundo ato. Daí para frente, a narrativa descamba para um ritmo mais contemplativo, quase vagaroso, em que os personagens parecem apenas assistir ou anuir com suas frustrações, mas não as manifestam, as repudiam ou procuram elucidá-las. Isto acarreta em uma potente perda de identidade, uma vez que a cadência rítmica é mambembe.

Ademais, por investir em uma quantidade plural de tramas, o roteiro encontra pouco tempo para desenvolvê-las e aprofundá-las, sendo o caso mais grave o do personagem de Marat Descartes, ora tratado com maniqueísmo, ora com complacência. A exceção fica por história de Maria Cláudia (Marieta Severo, razoavelmente tocante), uma personagem sem perspectivas e tão cheia de vícios que se aproxima da senhora magistralmente interpretada por Ellen Burstyn em Réquiem para o Sonho (2000). Possivelmente devido à presença de uma atriz consagrada, este entrecho torna-se o epicentro do longa-metragem (tanto é que o pôster destaca justamente os atores envolvidos nesta parte), ainda que não seja particularmente original e o desfecho acabe sendo insatisfatório.

A Voz do Silêncio só consegue, de fato, dissertar a respeito da solidão e da falta de identidade em sua abertura e em seu encerramento, quando não está focalizando nenhum de seus personagens – uma ironia abissal, levando-se em conta que este é um filme abarrotado deles.



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