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Crítica: Torre - Um Dia Brilhante

Com um suspense sutil e paranoia crescente, Torre - Um dia brilhante é um filme para se descobrir o que está abaixo da superfície.
Torre - Um Dia Brilhante



“Torre. Um dia brilhante” é o longa de estréia da diretora roteirista Jagoda Szelc que encantou os críticos e a indústria polonesa e depois fez eco também internacionalmente no Fórum da Berlinale e em evento em Cannes. Mas este filme será para alguns, e não para todos, já que o ritmo lento e a sutileza exagerada vão prender a atenção de públicos específicos e deixar outros desorientados e questionando as limitações do roteiro bidimensional. O filme leva seu tempo construindo o mistério, atraindo você para uma mistura de pavor e uma narrativa que flerta com o surreal ameaçando se desviar para o horror. Se na superfície o filme pode sugerir um estranho cruzamento entre Luis Buñuel e Lars Von Trier, um estilo único, poético e visceral sinaliza camadas esperando para ser exploradas.

Com uma premissa intrigante Torre tem uma atmosfera sinistra, suave e envolvente produzindo uma sensação persistente de pavor que cresce lentamente devido ao seu ritmo casual. Não é uma história forçada, requer atenção e um pouco de trabalho de investigação para captar as mudanças sutis e traçar as progressões, já que não tem pressa para se revelar. Este conceito permite que o filme transcenda como o enredo se propõem, criando uma abordagem interessante para uma história que lida com espiritualidade, mas permanece cheio de substância.

O filme em si é uma espécie de horror psicológico, abrindo com um carro solitário que deixa o espaço urbano e mergulha na beleza montanhosa da Polônia. As locações escolhidas desempenham um papel importante, já que a paisagem polonesa aumenta a beleza e a sensação de medo que se imprime ao longo do filme. Elementos de direção de arte também são fundamentais para produzir o tom desejado da história, coincidindo com os elementos justapostos das tonalidades da fotografia e a transcendência espiritual involuntária da personagem central.

O filme apresenta uma família reunida para celebrar a santa comunhão de uma jovem. O conflito dramático central é estabelecido imediatamente, quando as duas irmãs Mula (Anna Krotoska) e Kaja (Małgorzata Szczerbowska) se encontram e parecem habitar lados opostos de um espectro espiritual. No coração da história está a conturbada relação entre as duas onde a paciência de Mula é testada em acontecimentos peculiares nos arredores da cidade e dentro de sua própria casa desde a chegada de Kaja. O comportamento de Kaja é errático e extremamente estranho no filme e é através da sua presença desconcertante que a família será testada e a tensão só aumenta à medida que a história continua. O mistério por trás do comportamento de Kaja é essencialmente o que impulsiona o filme, além das tensões familiares de longa duração que se manifestam em brigas de baixo nível e ocasionalmente em sequências.

Szelc escolheu atores carismáticos que são praticamente desconhecidos, mas que têm uma química juntos e cujas performances trazem uma qualidade ao arco principal da história. Anna Krotoska está ótima e sua performance é capaz de dar um desempenho emocional a personagem paranoica através de suas expressões faciais. Malgorzata Szczerbowska não tem um visual assustador e um arco bem desenvolvido, mas seus maneirismos e comportamento transmitem também algo perturbador.

A cinematografia ajuda a criar uma experiência cinematográfica imersiva e um tanto perturbadora. As escolhas visuais são frequentemente intrigantes e dá ao filme uma atmosfera tensa com misturas de imagens lentas que muitas vezes remetem a um pesadelo. Uma câmera que gira ao redor, balança e explora bem o zoom, parece um artifício óbvio, no entanto aumenta o sentimento geral de conflito iminente e dá aos personagens uma autenticidade ainda maior. O desenho de som de Kacper Habisiak completa o tom predominante de agonia sinistra estabelecendo desde os primeiros segundos um clímax grandioso de turbulência psicológica.

Com um suspense sutil e paranoia crescente, “Torre. Um dia brilhante” é um filme para se descobrir o que está abaixo da superfície. Suas várias nuances, metáforas e prenúncios são suficientes para compensar algumas fraquezas do roteiro e é um filme sofisticado que registra sutilmente o mundano das relações íntimas e espirituais. Tem muito a oferecer e anuncia a chegada de uma boa direção no cinema europeu.


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