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Crítica: A Quietude

O subjetivo funciona inteiramente e possui mais representatividade do que alguns possam perceber – especialmente para os brasileiros.
 A Quietude
A memória ditatorial é contemplada em A Quietude com o “silêncio” característico da época da censura. O autoritarismo patriarcal constrói as personagens femininas e a imagem masculina mais mentalizada do que física dita o compasso dessas mulheres, questionando relações, personalidades, segredos, etc, sendo nos pontos não falados que reside a estranheza da família Montemayor.

Família representada principalmente por Martina Gusmán e Bérénice Bejo, interpretando duas irmãs relacionalmente próximas, mas distantes devido ao fato de Eugenia (Bérénice Bejo) morar na França, enquanto Mia (Martina Gusmán) permanece na mesmice suburbana. Após a morte do pai das duas, Mia retorna e com seu regresso conflitos revividos junto com segredos a serem revelados.

A ausência paterna rege a história desta família da mesma forma que o autoritarismo argentino dos anos 60 e 70. A sua falta interliga os personagens e extrai distúrbios e problemas de cada um, causando a impressão do público estar testemunhando o decorrer dos Montemayor a partir do ponto de vista do pai. Este silêncio que permeia estranhamente a vida desses familiares, com muitas coisas não ditas, desde traições entre irmãs até um incesto aparentemente revisitado da juventude. Silêncio que cala as irmãs e a mãe, o trio que, como diz o título, nesta quietude esconde tantas informações que alimenta a narrativa progressivamente, costurada pelos segredos.

Em contrapartida, a matriarca Esmeralda (Graciela Borges) é presente o suficiente para ser questionada no decorrer da história e representar a caixa de segredos que esta família esconde. Firme, sarcástica, dura, entre outras características que determinam o sentimento das filhas que se perdem emocionalmente na ausência do pai e consequentemente na imagem imperial da mãe.

A relação das irmãs possui traços interessantes e ousados diante do conservadorismo que se alastra mundialmente. O incesto claramente não é bem visto, mas é construído em uma cena específica e exposto destemidamente e com uma beleza estrutural que não se torna pornográfico, e sim um ponto de ligação das irmãs a ser compreendido e a ser visto além do sexo. Toda a construção imagética é um quadro a ser admirado pelo intimismo das duas irmãs e a curiosidade que causa pelo desenrolar desse relacionamento que beira a inocência infantil ao mesmo tempo em que se enxerga o desejo carnal uma pela outra – ainda que não verbalizado.

O ambiente em si conversa plenamente com o enredo, silenciado pela ditadura presente na casa, em opiniões não aceitas e a matriarca como a detentora de todo o saber, como uma real tirana acima das filhas. Ambiente enclausurado pelo sufocamento causado pela mãe. Uma estranheza acompanhada pelas luzes sempre piscando como se algo estivesse por vir ou os segredos começando a ruir ou até mesmo simbolizando a presença desses segredos na vida da família Montemayor e a inconsistência de suas vidas repleta de fatos nunca revelados.

Pedaços específicos que são bem trabalhados pelo diretor Pablo Trapero, guiando a atuação de seu trio de atrizes para um círculo vicioso em um aglomerado de problemas pessoais, lidando com a temática da ditadura como alegoria para sua história quase que subjetivamente devido à sutileza empregada. Os toques quietos, porém gritantes que constroem a narrativa, em meio a traições, incesto, suicídio, luto, e com aspectos tão fortes, o autoritarismo que Trapero cede para essa família engole qualquer problematização em cima de casos psicológicos como esses e são intencionalmente descartados e inteligentemente utilizados como exemplo da quietude da ditadura.

O subjetivo funciona inteiramente e possui mais representatividade do que alguns possam perceber – especialmente para os brasileiros. Os problemas do filme se encontram em coisas pequenas que seriam facilmente corrigidas senão fosse preguiça ou até falta de criatividade para resolvê-las, por exemplo, nas músicas que são utilizadas no decorrer do filme praticamente traduzindo a cena ao invés de trabalhá-las com direção e roteiro concisos, além do relacionamento das irmãs que é simplesmente largado de mão após o caso de incesto. O que se torna frustrante, pois em uma cena emoldurada perfeitamente, construindo um panorama além do esperado, o que ela propôs nunca alcançou seu ápice como havia premeditado, o que incomoda bastante em sua resolução.



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