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Crítica: A Garota na Teia de Aranha

Perseguir a representação de Lisbeth pode parecer algo fútil de se entreter, pois, afinal de contas, é apenas uma personagem.
A Garota na Teia de Aranha

Após a tentativa de levar a série de livros suecos Millenium aos cinemas americanos – tentativa infelizmente frustrada por motivos capitalistas e gananciosos –, o reboot literário da série lançado em 2015 serve como material fonte para o reboot cinematográfico, agora com produção completamente diferente e renovada. Os personagens são os mesmos, pelo menos a maioria, com o mesmo nível de suspense, focando em Lisbeth Salander (Claire Foy) e sua atual vida de justiceira em prol das mulheres subjugadas pelos homens. Ao cumprir um serviço pedido por um cliente, acaba se envolvendo em uma rede mafiosa e sádica, desdobrando crimes cibernéticos e agentes corruptos.

A moldura feminista implantada em Lisbeth Salander se torna mais clara do que no filme estrelado por Rooney Mara, expondo sua luta interior devido a seu passado abusivo para a proteção de mulheres na mesma situação, e, dentro deste quadro pintado da força feminina de Lisbeth é gratificante a ferocidade e consciência balanceadas pela atuação de Claire Foy, pois, o roteiro cria essa personagem justiceira, quase ao estilo Jason Bourne, e se distancia das duas propostas características: a defensora das mulheres ou a quase agente secreta que enfrenta tudo e todos. O equilíbrio de Claire Foy levanta os interesses deturpados da história que se aprofunda a princípio em Lisbeth, sendo largados ao decorrer da narrativa e retomados subitamente e sem nenhum impacto emocional, o que é necessário para uma personagem tão complexa e já conhecida como Lisbeth, que carrega melancolia e a força feminina, além de múltiplos níveis pessoais a serem trabalhados, oferecendo um estudo humano diferente de qualquer outro personagem, mas que se torna mecânico e raso.

Neste contexto, é impossível não comparar esse renascimento dos livros de Millenium com a versão original do autor Stieg Larsson, assim como também é impossível não comparar esta nova produção com a de David Fincher em 2011. Principalmente pelo fato de que o diretor Fede Álvarez se apoia no estilo de Fincher para criar o ambiente mais denso e cinza possível, sem a mesma qualidade sombria e inebriante da cinematografia e mise-en-scène, direcionando seu trabalho de acordo com o que Fincher fez em 2011. O que atrapalha o desenvolvimento de sua direção e o entendimento de quem está realmente dirigindo o filme: Fincher ou Álvarez. A influência ultrapassa o limite e se encontra em um entre lugar, sem pertencer nem a um diretor nem a outro, e sem pertencer nem ao gênero suspense propriamente e nem ação como utilizada constantemente neste reinício de franquia. Fica a impressão de que A Garota na Teia de Aranha foi dirigido por David Fincher em início de carreira.

Retomando a associação com Jason Bourne, Álvarez constrói seu enredo em derivações de outros filmes de suspense e espionagem americanos, rebuscando todos os aspectos tradicionais para um ambiente em que não há nada de tradicional. O suspense não é alimentado pelos atores que nunca transmitem o desespero e a curiosidade pelo o que está por vir; a trilha sonora não compõe a narrativa, sendo um fator importantíssimo para o gênero suspense; a montagem é acelerada, com bons momentos de cortes secos entre um personagem e outro, mas isolados demais, a progressão nunca chama a atenção e o senso de ameaça não existe.

As conveniências do roteiro são gritantes e no mínimo preocupantes de se ver em uma produção deste porte, que, ainda que não tão grandiosa quanto Os Homens que Não Amavam as Mulheres de David Fincher, o nível de reconhecimento, devido aos famosos livros, coloca o filme involuntariamente em um “pedestal”. Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason) é a grande dupla de Lisbeth, e sua presença é praticamente extinta de significação, servindo como fio condutor para a trama se desenrolar ao invés de realmente ter um papel na trama. Lakeith Stanfield sofre a mesma ausência de relevância, sendo menos afetado já que a história evolui para o segundo ato devido a seu personagem. É admirável e empolgante ver a entrega do roteiro para Lisbeth, porém, não adianta um personagem estar eximiamente trabalhado – o que nem isso acontece – e o resto da produção estar desaparecido.

O visual empregado de viúva negra, exibindo bastante o vermelho e o preto paralelamente é vistoso e gratificante, levando em conta a falta de personalidade de Álvarez. Dentro do conceito imaginado, não passa de um “gato e rato” estilizados modernamente.

Os impactos sociais que o contexto desses personagens abordam possuem relevância, em grandes aspectos. O problema está no roteiro que não os explora devidamente e se distancia da originalidade e individualidade de Lisbeth, se entregando aos conceitos hollywoodianos de justiceiros, diminuindo fortemente a importância de uma mulher como Lisbeth Salander para o âmbito artístico.

Perseguir a representação de Lisbeth pode parecer algo fútil de se entreter, pois, afinal de contas, é apenas uma personagem. E exigir seu dessecamento ao nível do que seu criador, Stieg Larsson, no cinema pode até fugir do campo de estudo crítico de filmes. Mas, esta personagem específica representa mais do que essa nova versão apresentada. Lisbeth Salander é mais do que uma simples mulher gótica, problemática e inteligente. Lisbeth é um símbolo de resistência contra a opressão masculina presente através das épocas, e especialmente nos dias de hoje, sendo uma mulher necessária a sétima arte. Claire Foy é incontestavelmente absorvida por Lisbeth – o que não é uma crítica – e Lisbeth é absorvida por cada mulher que se encontra em situações sexistas e oprimentes.


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