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Crítica #2: A Voz do Silêncio

A Voz do Silêncio se atropela na quantidade de histórias que quer contar, mas pelo esforço técnico e das interpretações de seu elenco do que pelos acertos do roteiro, o longa corresponde a expectativa de retratar São Paulo como um ambiente solitário em que todos estão em busca de algum tipo de amor.
A Voz do Silêncio

A Voz do Silêncio é o recorte do que mais se encontra nas ruas de São Paulo, Amor e Solidão, é como se a metrópole por vezes acinzentada pela poluição e dias nublados, tirasse um pouco do brilho de seus moradores, os diversos arranha-céus abrigam os mais numerosos causos e histórias, e guardam os mais profundos dramas.

Contando a história de nove personagens diferentes, A Voz do Silêncio trás como protagonista os sentimentos dentro de uma cidade “fria”. A terceira obra de longa-metragem do diretor André Ristum, possui a estrutura narrativa que se assemelha a filmes como Crash: No Limite e Magnólia, em que diversas histórias vão se conectando formando algo maior, um eclipse anunciado no início da película que será o catalizador do aglomerado de ideias propostas pelo roteiro.

Em A Voz Do Silêncio, temos a história da Mãe (Marieta Severo) que passa os dias em frente a televisão remoendo a partida de seu filho para o exterior sem possuir ânimo para seguir em frente. Temos a Filha (Stephanie De Jongh) que sonha em seguir uma carreira musical, mas trabalha em uma boate como stripper. Já o Filho (Arlindo Lopes), na verdade é operador de telemarketing que envia cartões postais para sua mãe como se estivesse em outro lugar. A conexão das personagens não se restringe a uma única família. Um dos visitantes da boate é um Pai e Avô (Ricardo Merkin) que luta contra o esquecimento causado pela idade e problemas de saúde, enquanto trabalha como radialista rememorando clássicos da música, sua filha (Marina Glezer) já não o visita a tempos, seu neto (Enzo Barone), luta para manter o avô por perto, e no prédio do homem, um porteiro, estudante e sushiman (Claúdio Jaborandy), um homem que divide suas tarefas de trabalho com as horas de faculdade, lidando sempre com atrasos e reclamações de seu chefe (Nicola Siri). A quantidade de personagens e histórias se justifica pela número de abordagens que o diretor tenta trazer para o longa, algumas com êxito, outras nem tanto.

A direção opta por poucos movimentos de câmera, as vezes vemos a movimentação orgânica de câmera na mão, mas a maior parte dos enquadramentos são fixos, deixando para a os atores e a edição o trabalho de dar ritmo as cenas. Por sorte o elenco corresponde ao peso das personagens e o resultado estético é satisfatório. Os principais destaques são Marieta Severo, que possuí uma personagem complexa em que é possível encontrar ausência de sanidade e depressão, o argentino Ricardo Merkin que funciona como alívio das tensões durante o drama pesado do filme, mas que possui sua própria luta diária, e Claúdio Jaborandy, embora seu personagem não seja melhor que o de Marieta Severo, sua performance não deixa a desejar e convence quando sua indignação e humanidade é posta a prova.

A edição do longa é a melhor coisa do filme. Aliás, os aspectos técnicos de edição, trilha sonora, mixagem de som e fotografia, funcionam de maneira coesa e se sobressaem ao trabalho de roteiro e direção.

O trabalho estático da câmera não diminui o desempenho da direção de fotografia, que retrata o longa com tons amarelos e desbotados frisando a frieza do ambiente poluído e pouco amistoso que é São Paulo, as cenas noturnas permeiam boa parte do longa, mas até mesmo nas cenas diurnas as escolhas de enquadramento e iluminação são boas.

A trilha sonora é mais um dos destaques positivos do longa, até mesmo a já conhecida “Não existe amor em SP” do rapper Criolo se encaixa com precisão na obra, mas vale também mencionar a cena de abertura do longa em que trilha e edição montam um clipe que é capaz de expressar com exatidão o caos da cidade.

A Voz do Silêncio se atropela na quantidade de histórias que quer contar, mas pelo esforço técnico e das interpretações de seu elenco do que pelos acertos do roteiro, o longa corresponde a expectativa de retratar São Paulo como um ambiente solitário em que todos estão em busca de algum tipo de amor.


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