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Crítica #2: A Casa que Jack Construiu

Após anos em depressão, Lars von Trier retorna com um filme autoanalítico, que se constrói a partir da essência da obra do diretor e roteirista.
A Casa que Jack Construiu

Assistir a um filme de Lars von Trier é um ato de coragem. Deve-se estar preparado para encarar a natureza humana escarnada, expondo intensamente sua complexidade, sua ingenuidade e sua vileza. Os trabalhos do dinamarquês confrontam o espectador com a fala da personagem de Nicole Kidman em Dogville: “Eu só estou te perguntando se você tem medo de ser tão humano”.

Em A Casa que Jack Construiu, o polêmico diretor e roteirista nos apresenta a história de um serial killer, narrada em tom confessional pelo próprio, que resume 12 anos de assassinatos em cinco incidentes. Arquiteto frustrado e acometido por um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) com relação à limpeza, Jack (Matt Dillon) encontra no homicídio a válvula de escape para suas angústias. Utilizando a imagem de uma pessoa que caminha por uma rua iluminada por postes e as sombras projetadas a partir da iluminação, ele é mostrado não como alguém que vive sob a influência de duas sombras, inversamente proporcionais em tamanho e intensidade: a dor e o prazer por matar. Conforme a satisfação pela morte de alguém vai se esvaindo com o passar do tempo, suas angústias voltam a se intensificar até que ele sente a necessidade de matar de novo para se sentir melhor. A morte se torna para Jack uma espécie de combustível.

Ao decorrer da narrativa, percebemos que o protagonista dirige o seu relato a Virgílio (Bruno Ganz), o que instaura um paralelo com A Divina Comédia, de Dante Alighieri. A referência à obra do italiano também surge na belíssima cena que remonta ao quadro A Barca de Dante, de Delacroix. Tudo isso deixa claro que a trama está nos guiando em direção ao inferno em espirais concêntricas até o seu epílogo (Catabasis), quando ocorre uma descida vertiginosa aos confins desse lugar onde há apenas dor e sofrimento, mostrando que na narrativa de Jack não existe paraíso, somente inferno.

A Divina Comédia não é a única referência explícita no longa. O seu título é o mesmo de uma cantiga tradicional britânica, na qual, gradativamente, elementos se inter-relacionam em uma estrutura em cadeia convergindo para a casa que Jack construiu. Do mesmo modo estrutural, o roteiro conta cinco incidentes, com um grau crescente de violência, que compõem a casa que o Jack psicopata construiu (sua carreira de assassino).

A Casa que Jack Construiu é um filme sobre serial killer que, na verdade, zomba desse tipo de filme. Ele faz uso de diversos clichês, elementos recorrentes e até mesmo referências clássicas de histórias de suspense/terror e de serial killers. Temos a mulher com o carro quebrado na estrada que pede/aceita carona de um desconhecido; a vítima que literalmente pede para ser morta; o assassino que entra na casa da sua vítima fingindo ser policial (mas, aqui, a vítima é inteligente o suficiente para desconfiar que o cara não é um policial, mas inocentemente o deixa entrar quando este afirma ser um agente de seguro de vida que pode aumentar a quantia que ela receberia pelo recém-falecimento de seu esposo); os policiais burros e incompetentes, que não enxergam o criminoso bem na sua frente, mesmo quando ele se autodenomina culpado ou quando uma vítima pede socorro; o atropelamento de uma pessoa na estrada; o assassino com manias estranhas (neste caso, TOC e tirar fotos de suas vítimas depois de mortas); elementos ocasionais improváveis (ou quase absurdos) que favorecem o vilão (como a chuva mais forte que já se viu que lava o rastro de sangue que o corpo arrastado de uma de suas vítimas deixa por todo o caminho até o seu esconderijo de cadáveres); o psicopata que torturava animais quando criança; o assassino que guarda os corpos das vítimas em um frigorífico; o gosto pela taxidermia (em alusão a Norman Bates, de Psicose); a loira gostosa e peituda que se torna vítima de um assassino cruel e impiedoso (com a remoção de seus seios, surpreendentemente naturais, ironizando a frequente presença de siliconadas, bem como a exploração do sexo em filmes do segmento slasher); a vítima que grita incansavelmente por socorro, porém ninguém ouve; a perseguição/o assassinato na floresta; o jogo frio e sádico no piquenique (remetendo a Violência Gratuita); o serial killer que divulga seus crimes para a polícia (como referência ao assassino do Zodíaco); o típico diálogo por meio do qual o vilão revela seus planos malignos para as vítimas antes de exterminá-las.

Lars von Trier compôs um longa-metragem, sobretudo, autorreferente. Seu estilo estético e narrativo se apresenta de modo potente e desenvolvido com propriedade. A peculiar câmera na mão, viva e inquieta, captura os detalhes das feições e dos movimentos, acompanha de perto os personagens, quase entrando em suas peles. O enredo dividido em capítulos, típico de seus filmes, ajuda na construção de mini-histórias, praticamente fechadas em si, por serem acontecimentos isolados, porém unidas por um fio condutor, o que permite explorar, em cada incidente, um estereótipo diferente de serial killer, sem, com isso, desvincular essas personas do mesmo psicopata. O formato confessional reconfigura o mesmo utilizado em seu último filme, Ninfomaníaca, sendo pertinente ao mergulho interior de Jack em companhia de Virgílio.

A reflexão acerca de sua própria obra e, mais que isso, o deboche às recorrentes críticas tanto às suas produções quanto à sua pessoa surge por meio da abordagem (proposital, irônica e em nenhum momento injustificada) de questões frequentemente associadas ao seu nome: machismo, misoginia, violência e sadismo. Suas protagonistas fortes são substituídas por mulheres estúpidas vítimas de um psicopata, que as culpabiliza com o discurso ácido de que é uma merda nascer homem, pois o homem já nasce culpado e precisa viver carregando o fardo da culpa, enquanto as mulheres são sempre as vítimas. Propositadamente, são contados apenas incidentes envolvendo mulheres. Quando questionado por Virgílio acerca do motivo de apenas matar mulheres, Jack afirma também ter matado homens (porém, em seu relato, notamos que os homens que aparecem são poupados da morte, sendo suas vítimas masculinas apenas duas crianças – ou seja, ainda em fase de formação).

No quesito violência, o espectador também não é poupado. Trabalhando com a analogia entre morte e arte, von Trier apresenta cenas chocantes, entretanto nada gratuitas ou desnecessárias. O uso de gore, a aflição e o desconforto causados são pertinentes às situações narradas. Até mesmo o sadismo se justifica, uma vez que se trata de um psicopata. Escarnecendo da crítica, o dinamarquês coloca o seguinte questionamento nos lábios de Virgílio: “Então, dar com um macaco (hidráulico) no rosto de uma mulher é arte, é isso que devo entender?”.

Após anos em depressão, Lars von Trier retorna com um filme autoanalítico, que se constrói a partir da essência da obra do diretor e roteirista. Do mesmo modo que Jack, de tempos em tempos, se vê diante da necessidade (e não apenas do desejo) de matar para não sucumbir às conturbações internas que lhe afligem, Lars parece ter encontrado na criação a sua válvula de escape, a sua libertação.

Assim como o protagonista chega à conclusão de que a casa que construiu não era de madeira, cimento e tijolos, mas feita com os corpos de suas vítimas, ou seja, a sua carreira de assassino era mais promissora que a de arquiteto, von Trier utiliza o longa como uma forma de refletir acerca de sua cinematografia, alcançando, com isso, uma maturidade sobre o que quer representar. É como se ele estivesse se virando para o público e dizendo: “É isto que eu faço. Esta é a minha arte” (fazendo questão de lembrar outras produções suas, por meio da exibição de cenas de Manderlay, Anticristo, Melancolia e Ninfomaníaca). Portanto, A Casa que Jack Construiu não seria, na verdade, A casa que Lars construiu?

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