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42ª Mostra | Crítica: O Homem que Matou Dom Quixote

O empenho de Terry Gilliam em sua obra perpassa o enredo por inteiro, expondo seus toques não convencionais e o surrealismo aplicado em uma história tão clássica como a de Cervantes.
O Homem que Matou Dom Quixote

Há quase 30 anos se construindo e reconstruindo na cabeça de Terry Gilliam, Dom Quixote praticamente se tornou a sua consciência e um símbolo de perseverança para o diretor e para qualquer pessoa. Desde 1989 imaginando a conclusão da produção que existia apenas em sua mente, vê-la finalmente pronta é agradável, pelo merecimento do diretor que já nos proporcionou filmes tão interessantes e originais como Brazil e Os Doze Macacos. E um filme sobre Dom Quixote que levou quase 30 anos para ser concluído, longo tempo de produção e invenção, levantou as expectativas de qualquer cinéfilo e qualquer amante do personagem, ou a qualquer pessoa interessada em uma história que oferece grandiosidade proporcional ao tempo de produção.

Toby Grisoni (Adam Driver), ao retorna ao lugar onde filmou seu primeiro filme para a conclusão de seus estudos reencontra pessoas do passado e lembranças, se deparando em meio aos seus passeios nostálgicos o ator que interpretou Dom Quixote (Jonathan Pryce) em seu filme, descobrindo que o homem nunca conseguiu abandonar o personagem e vive como Dom Quixote em meio de ilusões.

A visão para o incomum sempre foi a marca registrada de Terry Gilliam. Ao invés de embarcar puramente na história de Cervantes, a metalinguagem molda a narrativa, contando a história de Toby filmando sua nova produção e sua jornada de autodescobrimento pela nostalgia, funcionando como um road movie desértico e hispânico, principalmente quando se encontra o “Dom Quixote”. A loucura do homem que se perdeu em seu personagem e se vê em total alucinação é irretocável, interpretado por Jonathan Pryce realisticamente e sem nenhuma ponderação dos seus atos, como se o próprio ator estivesse perdendo em seu personagem como no filme. E junto de Adam Driver, criam uma duplicidade humorística equilibrada entre a loucura de um e o desespero do outro pelo absurdo deste homem acreditando ser Dom Quixote. A inquietação de Driver em sua performance é incrivelmente verdadeira e genuinamente engraçada, sendo impossível não se relacionar com sua agonia para recolocar a realidade de outra pessoa. Mas, da mesma forma que nos relacionamos com seu desespero, também é reconhecível que em certos casos, o ser humano opta pelas ilusões, e desta maneira o personagem de Jonathan Pryce aparentemente deseja viver, ainda que nunca esclarecido.

Baseado em cima da derivada música heróica, O Homem que Matou Dom Quixote segue diversos gêneros, sem se ater a nenhum específico, podendo ser considerado primordialmente um filme de comédia, que, devido as atuações de Adam Driver e Jonathan Pryce nunca se perde em seu humor. Pelo contrário, funciona ao longo do enredo – bem longo –, usando da quebra da quarta parede para a inserção do público na viagem proporcionada pelo diretor.

A narrativa dos dois se desenrola progressivamente e regularmente, editada precisamente, fazendo com que a transição de época que ocorre no decorrer do filme nunca se torne episódico ou fragmentado, sendo segmentos calculados e desenvolvidos organicamente, com a passagem de tempo fluida e compacta. Narrativa que se apoia em seus dois protagonistas e na completa insanidade, reproduzida no roteiro com mais afinco do que o necessário, pois toda essa loucura invade o roteiro e confunde a percepção da história que, mesmo bem editada, é atropelada por muitas ideias e pouca assertividade nas propostas. Desconexo e incoerente em grande parte, e a cada cena, o acúmulo de subtramas e cenários, entra personagem e sai personagem, quase com descaso pelas interpretações coadjuvantes que desaparecem diante do perfeito relacionamento de Adam Driver e Jonathan Pryce, diante de um roteiro que é ousado demais e não atinge os pontos que imagina.

O contexto metalinguístico se transforma paralelamente, costurando enredo e visual de forma que a secura do deserto espanhol vá se elevando com aspectos de cavalaria contemporânea para eras antigas, cruzando a atualidade até a Idade Média sem a percepção da metamorfose que está ocorrendo. Partindo do moderno para a antiguidade, reconstruindo ruínas e cenários comuns para a realeza espanhola, porém, principalmente simbolizada pelas roupas de Adam Driver, que se iniciam brancas e reluzentes, e ao final, adere completamente a tons escuros e adereços de cavaleiros organicamente.

O empenho de Terry Gilliam em sua obra perpassa o enredo por inteiro, expondo seus toques não convencionais e o surrealismo aplicado em uma história tão clássica como a de Cervantes. As admirações pelo seu trabalho de ficção científica no passado se enquadram parcialmente na escolha de mostrar seu ponto de vista modernista para uma obra já reconhecida e renomada, trazendo vigor para o familiar. E dentro de seus conceitos surrealistas, a própria produção se torna uma pintura de Salvador Dalí e perde completamente seus sentidos e relação entre os temas e diversos cenários, frustrando a espera por algo que vem sendo trabalhado há anos e que culmina em uma conclusão problemática e estranha – no mau sentido da palavra. A obsessão de Gilliam pelo seu projeto idealizado, cuidando ferozmente pela sua arte – o que é louvável –, aparentemente deturpou seu discernimento da narrativa levando a um trem desgovernado do qual nem o próprio dono da arte soube o caminho que estava seguindo.

Ao final, a exploração do universo rico de Dom Quixote se torna algo pobre pelo excesso de elementos e principalmente a quantidade de histórias querendo ser contada em cima da outra. E ainda dentro de tamanha bagunça, Jonathan Pryce consegue transmitir a verdade do ser humano. Verdade atrelada puramente a realidade social do ser humano que prefere se entregar ao duvidável e à aventuras falaciosas ao invés de reconhecer a realidade diante de seus olhos.



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