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Crítica: Ponto Cego

Se há de se eleger um grande ponto alto da obra, este seria a maneira como ela trata a questão da empatia, que é onde se encontram seus momentos de brilhantismo.
Ponto Cego

Segundo o famoso trabalho do psicólogo dinamarquês Edgar Rubin, há um conjunto de ilusões de óptica que forçam o cérebro humano a não conseguir aliar duas interpretações ao mesmo tempo (uma é sempre descoberta após a outra) de uma mesma imagem. O Vaso de Rubin, a mais famosa delas, se apresenta como um vaso ou dois rostos virados um para o outro, dependendo de quem vê e qual delas surgirá primeiro.

Esse mesmo experimento aparece em um certo momento de Ponto Cego, quando um personagem estuda a variação de um ponto de vista e como ele tende a permanecer como uma prioridade de acordo com a suscetibilidade de cada um. Essa é apenas uma das formas que o longa encontra de falar sobre o racismo e suas várias facetas dentro de um grupo, mesmo que teoricamente o mais isento deles. Sem jamais parecer um observador de fora dissertando sobre um problema que não sofre, o filme é extremamente bem-sucedido em não apenas tratar de temas sensíveis, mas em fazê-lo com agilidade e sagacidade.

A trama se passa na cidade de Oakland, na Califórnia, quando Collin (Daveed Diggs) está a apenas três dias do fim de sua liberdade condicional. Ao presenciar um incidente na rua envolvendo a polícia e um jovem negro, ele se vê cada vez mais acuado pelas restrições de um ex-presidiário e por questionamentos que envolvem sua comunidade e seu instável amigo de infância, Miles (Rafael Casal).

A temática do racismo já foi extensamente trabalhada no cinema de várias maneiras, desde de exercícios narrativos com outros gêneros (Corra!) até recentes blockbusters de super-herói. Aqui ela retorna à forma mais direta e retrata situações intimamente ligadas ao grupo étnico em questão. Mas é preciso reforçar logo: há a clara abordagem mais “na cara” e também várias outras reflexões que brotam de dentro para fora em sua narrativa, sendo seu grande mérito as duas camadas que consegue explorar, uma que é exposta e outra que revela as entranhas do racismo impregnado nos costumes até daqueles que são incapazes de admiti-lo.

Assim sendo, não é surpresa que outros personagens não entendam a relutância de Collin, por exemplo, em dar brecha para as regras de sua condicional e tentar andar sempre na linha, já que sabe que somente a cor de sua pele já é o suficiente para que mantenha a atenção em dobro. E o interessante é que nem é preciso que ele esteja em ambiente estranho; do contrário, convive com o amigo branco (que é casado com uma negra) em um ambiente majoritariamente negro. O interessante é que essa tendência que pessoas tem de categorizar aquilo que é diferente aparece no comportamento de outros grupos “de fora” propositalmente beirando uma caricatura, como exemplo os hipsters brancos que insistem se apropriar de fatores culturais negros em uma crítica a um progressismo desesperado em se manter longe de rótulos (algo que a série Atlanta também constantemente aborda).

O que impressiona é que a pesar do peso que se traz da premissa, o longa opta por uma dinâmica que engana pela aparente descontração de sua abordagem. Collin e Miles são ainda jovens e sua amizade é retratada com muito humor e verdade. O roteiro, escrito pela própria dupla de atores, toma tempo para tornar a convivência e o passado deles bastante palpáveis através de elementos característicos de suas idades e grupo social, sem que eles pareçam pejorativos. Com boas atuações de Diggs e Casal, a dupla ganha rapidamente a identificação do espectador, sempre protagonizando (ou sendo alvo de) situações bizarramente engraçadas e diálogos afiados, tudo aliado com um desenvolvimento gradativo para que o tema ressoe para cada um de forma diferente – e para uma mensagem também diferente.

Essa série de microuniversos representados pode levar a uma impressão de que o diretor Carlos Lopez Estrada privilegia a “lógica das esquetes”: aquela em que cada sequência funciona mais dentro de si mesma do que no todo. Mas o fato é que a estrutura se engrandece à medida que os pequenos incômodos sociais se escalam e se tornam responsáveis por um rico quadro do racismo espalhado por pequenos atos, falas e escolhas. A jornada do protagonista é um grande arco de autoconhecimento e reflexão acerca da violência contemporânea originada de intrincadas questões raciais.

Como se não bastasse, a narrativa ainda encontra ritmo e agilidade em seu flerte com momentos musicais. Não à toa, a montagem de Gabriel Fleming chega a brincar com a lógica dos clipes que remetem ao rap (estilo que tem raízes na comunidade afro-americana), com destaque para algumas sequências de sonho repletas de fortes imagens simbólicas. Investindo em transições inventivas e mantendo um equilíbrio perfeito de tom, Fleming e Estrada montam uma verdadeira crônica moderna sob o ponto de vista de seus personagens, calcada em um texto aguçado e que tem a capacidade de incomodar e tirar qualquer um da zona de conforto sem que seja necessário elevar vilões e mocinhos. Mesmo que aqui e ali haja um exagero que beira riscar o melodrama, a impressão geral é a de uma comédia tentando sobreviver ao drama, ou vice-versa.

Se há de se eleger um grande ponto alto da obra, este seria a maneira como ela trata a questão da empatia, que é onde se encontram seus momentos de brilhantismo. Temos dois amigos que se vestem de forma semelhante, falam as mesmas gírias e frequentam os mesmos lugares, mas Miles é branco e, por mais que ele julgue estar sempre em sintonia com Collin, jamais será capaz de entender por completo a profundidade dos conflitos do amigo. Ao invés de recorrer a um embate direto e simplista entre dois personagens, o filme inverte com inteligência o “alvo” do preconceito ao forçar o rapaz branco a sentir tudo aquilo que o outro foi forçado a suportar durante toda a vida – o que pode ser observado num pequeno, mas poderoso diálogo entre Miles e sua esposa sobre certas questões que parecem banais ao olhar de fora (não darei spoilers, mas vocês reconhecerão o momento). Mesmo assim, o trato não desanda para um simples discurso sobre bandeiras sociais. Não se ataca propriamente o caráter, mas o poder pestilento de tornar um opressor até que aquele que se julgou vítima a vida inteira.

O mais revelador ainda é reconhecer que mesmo com toda a jornada, ele continuará com seu benefício de nascença, enquanto Collin permanece com a “obrigação” de provar sempre algo a mais diante da visão que o mundo costuma ter dele. Como constatação disso, o longa também encontra uma forma perfeita de reconhecer esse fardo quando um diálogo ao telefone faz o protagonista se entregar ao fato de que ele sempre será uma espécie de Vaso de Rubin, inevitavelmente julgado e propenso a ter sua pior versão como se fosse a que o definisse por completo.  


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