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Crítica: O Doutrinador

Embora O Doutrinador surja com a explícita função de nos deixar incertos e receosos com o futuro de nosso país, é possível dizer que nos deixa, no mínimo, esperançosos com os novos rumos de nosso cinema.
O Doutrinador

Em meio a uma sequência de meses cercados por discussões e tensões políticas que amedrontam muitos pelo país, O Doutrinador é um filme que tem tudo para emergir neste cenário como uma faca de dois gumes. Dotado de uma carga ideológica que é explícita desde o título (mantido da HQ de Luciano Cunha) até todos os atos do enredo, o filme é capaz de se comunicar com ambos os lados predominantes no país, sendo que a mensagem passada pelo longa pode divergir de um extremo ao outro dependendo do ponto de vista do espectador. A mensagem passada, para alguns pode ser vista como inspiradora, para outros, como perigosa.

Embora saibamos que não existe obra sem posicionamento político-social, é preferível que tentemos nos ater ao filme enquanto entretenimento somente, como tem sido pedido pela equipe de produção por trás do longa, que insiste em afirmar que é “apenas mais um filme de ação, no melhor estilo Justiceiro.”

Nesse ponto, o filme surpreende e satisfaz. O Doutrinador surge para provar que o cinema nacional é perfeitamente capaz de trazer conteúdos com o mesmo nível de qualidade dos blockbusters que consolidaram o gênero de Super-Herói na última década em Hollywood. O roteiro, atuação e direção não ficam atrás de muitos longas dos estúdios Marvel e DC, e nos fazem enxergar potencial nesse caminho que começa a ser traçado dentre as produções brasileiras.

No longa, Miguel (Kiko Pissolato) é um agente traumatizado após uma tragédia familiar que enxerga na corrupção de seu país o câncer que impregna as mazelas da sociedade. Decidido a fazer justiça alimentado por sua vingança pessoal, o personagem assume uma identidade mascarada e passa a executar violentamente os políticos e donos de empreiteiras envolvidos em esquemas corruptos. Para tal, ele conta com a ajuda de uma jovem hacker, Nina (Tainá Medina), que se envolve contra a sua vontade na jornada vingativa, mas acaba conseguindo enxergar sentido nas ações do Doutrinador.

A história adaptada da HQ não pode ser chamada de original, pois é intencionalmente uma adaptação das diferentes versões de “vigilantes mascarados” norte-americanos (Batman, Demolidor) a um violento cenário nacional. O enredo constrói a origem e evolução de um anti-herói de forma coesa, passando pelos já conhecidos pontos de jornada e se utilizando de artefatos clichês que agradam os amantes do gênero, não se preocupando com o fato de ser notavelmente explícito em todas as suas críticas e referências a determinados fatos, movimentos, bancadas e partidos políticos.

É possível dizer que as atuações do elenco em nada se diferenciam das atuações de um elenco da Marvel Studios. Não há interpretações espetaculares, nem louváveis, mas os personagens são bem trabalhados, moldados e até mesmo os mais caricatos se encaixam bem no gênero proposto. É possível dizer até mesmo que aqueles que dizem ter se incomodado com as entonações e diálogos trazidos pelos atores provavelmente não teriam sentido tal incômodo se o filme fosse falado em inglês e vendido como um longa de Hollywood.

Kiko Pissolato e Tainá Medina carregam o longa de forma satisfatória, trazendo atuações concisas, sendo respectivamente a carga dramática e o alívio cômico-ácido do longa. Embora o final do filme nos deixe incertos de qual o futuro da história prometida pela série de TV (já anunciada pelo canal Space), é fato que muito agradaria uma série com os personagens Miguel e Nina atuando enquanto dupla anti-heróica.

A fotografia do filme é espetacular, merecendo o título de “Se a fotografia da DC tivesse funcionado bem”. Os ambientes escuros são cuidadosamente contrapostos a iluminação avermelhada que, em diversas partes do longa, fazem paralelo com os olhos vermelhos da máscara do Doutrinador (a máscara é um recurso visual tão eficaz, que até nos faz ignorar o modo repentino como é forçada no meio da história). A direção faz um ótimo trabalho no diálogo entre tais aspectos visuais e o clima de cada cena, também não deixando a desejar nas cenas de ação, que são muitíssimo bem planejadas para evitar que as lutas pareçam coreografias. A violência é explícita e gritante e até o sangue parece se comunicar com os aspectos visuais do longa, mantendo-nos sempre no contraste entre o vermelho e o escuro.

Por fim, embora O Doutrinador surja com a explícita função de nos deixar incertos e receosos com o futuro de nosso país, é possível dizer que nos deixa, no mínimo, esperançosos com os novos rumos de nosso cinema. Não num sentido que busca copiar os moldes hollywoodianos, mas sim numa ótica de popularizar um gênero conforme nossa realidade e na cultura brasileira.

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