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Crítica: Juliet, Nua e Crua

No fim, o trio de protagonistas de Juliet, Nua e Crua não procura apenas por filhos, reparação familiar e pela consumação de um ideal, mas sim, por aquilo que os faça alcançar um novo grau de humanidade.
Juliet, Nua e Crua

Annie (Rose Byrne) vive uma vida confortável, mas de perspectivas limítrofes. Namora o professor universitário Duncan (Chris O’Dowd) há quinze anos e, apesar das preferências culturais em comum, não parece cultivar ímpeto suficiente para manter a relação acesa. A culpa se deve, em generosa medida, à devoção abissal que Duncan sente por Tucker Crowe (Ethan Hawke), um cantor indie especialista em canções lamentosas, especialmente o álbum Juliet. Quando recebe uma demo de uma das músicas de seu ídolo, Duncan entra no mais profundo êxtase. Anestesiada pela idolatria do companheiro e por ter seus desejos maternos negligenciados, Annie publica um comentário negativo sobre uma resenha escrita por Duncan, atraindo a atenção do próprio Tucker, há anos isolado da vida pública, iniciando uma amizade virtual com ele.

Ao longo da narrativa, à medida que os destinos de Annie, Duncan e Tucker se entrelaçam de forma irrevogável, fica clara a ideia de que Juliet, Nua e Crua (Juliet, Naked, 2018) está falando sobre o amadurecimento tardio de pessoas que acreditaram piamente no pragmatismo de suas necessidades presentes, na influência que terceiros exerciam em si e na rejeição a tudo aquilo que as transtornasse. Neste sentido, é interessante notar a similaridade temática entre esta e outras adaptações cinematográficas dos romances do inglês Nick Hornby, como os irretocáveis Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002), o simpático Amor em Jogo (2005) e até mesmo o enfadonho Uma Longa Queda (2014).

O fascínio pela música sempre pontuou as obras do escritor – tanto na Literatura quanto no Cinema – e este longa-metragem traz, de praxe, uma trilha sonora aprazível aos ouvidos, por vezes adotada com perspicácia, como na cena que ilustra o flerte sexual entre dois personagens centrais, permitindo que a timidez exposta na letra se manifeste no comportamento de ambos. Contudo, esta paixão vem imbuída agora de uma reflexão: qual seria o real papel desempenhado por um ícone musical? Até que ponto o comportamento, a caracterização e, lógico, o trabalho daquela pessoa pode influenciar incontáveis plateias? Caso aconteça, as vidas dos admiradores afetados deverão seguir como um reflexo irrestrito do artista, espelhando-se constantemente na imagem de um estranho?

É justamente em Duncan, a criatura mais patética da produção, que pululam estas questões. Por mais infantil que seja em sua obstinação por um músico esquecido, o sujeito esconde uma personalidade sensível e profundamente maleável, uma vez que é profundamente tocado pela arte de Tucker Crowe, o que vem a tornar problemático o seu relacionamento com Annie; não porque seja um imaturo autoconsciente, mas porque as músicas carregam um significado incontestável para ele. Estas características complexas são muito bem exploradas pelo irlandês Chris O’Dowd, que transita bem entre vacilação e vulnerabilidade, tornando o sujeito uma figura mais palatável e ocasionalmente relacionável.

Ademais, outras questões igualmente interessantes perpassam a narrativa: o peso do tempo na percepção da vida, a transitoriedade das sensações (às vezes, queremos determinada coisa; às vezes, não) e a irresolução de nossos vazios subjetivos. Annie e Tucker (e Duncan também, em certa medida) são as sínteses de tudo isso: pessoas que acabaram se perdendo de si mesmas, esquecendo-se de suas ambições e machucadas por suas escolhas pessoais. Mesmo que o panorama se aproxime ligeiramente da melancolia, os dois não se deixam dominar por amargura, apatia ou esterilidade emocional, em grande parte devido às ótimas atuações de Rose Byrne e Ethan Hawke.

No fim, o trio de protagonistas de Juliet, Nua e Crua não procura apenas por filhos, reparação familiar e pela consumação de um ideal, mas sim, por aquilo que os faça alcançar um novo grau de humanidade. É possível que nem sempre evoluam (como bem prova o desfecho), mas ao menos, não estão mais estagnados em expectativas brandas.


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