Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

42ª Mostra | Crítica: Assunto de Família

Assunto de Família aborda os questionamentos modernos do que constitui uma família, exuberando as relações construídas entre pessoas, independente de ligação sanguínea, e desconstruindo moldes tradicionalistas, dando lugar ao respeito e o sentimento de aceitação pessoal e social.
Assunto de Família

Hirokazu Koreeda regularmente busca retratar o assunto família, sendo base para grande parte de sua filmografia, e assuntos como realidades diversificadas na contemporaneidade. Mas, o que seus filmes principalmente trazem a tona é o conceito do que é família e suas vertentes, interligado com a humanidade de cada um. E Assunto de Família basicamente homenageia a própria carreira do diretor com temas atuais e pertinentes como abuso infantil e quebra do que é conhecido tradicionalmente como família.

Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2018, sua mais nova produção não só traz elementos cotidianos e atuais, como também o árduo trabalho de conscientizar o ser humano sobre outras realidades.

Localizado na cidade de Tóquio, a família Shibata vive em extrema pobreza, dependendo apenas da pensão da matriarca da família e pequenos furtos em mercados para o próprio sustento. Durante a volta para casa, Osamu (Lily Franky) e seu filho Shota (Kairi Jo) encontram uma menina abandonada na rua. Apesar da dificuldade financeira, a família acolhe a menina, percebendo sinais claros de abuso infantil.

Os temas abordados por Koreeda são ao mesmo tempo similares e absurdamente tocantes, encontrando sempre um aspecto a mais de contar histórias com núcleos parecidos, mas que possuem vertentes mais profundas do que imaginativas. E é exatamente este realismo empregado em Assunto de Família, este núcleo com mais uma nova vertente, que o faz um dos melhores diretores do cinema japonês e este filme ser um dos seus melhores de sua longa carreira.

O ambiente enclausurado em que os personagens vivem, construído com tamanha precisão e simplicidade, com uma cinematografia opaca e morna no interior desta casa, que é certamente possível acreditar no lugar em que moram e as condições precárias. E mais do que a imagem da pobreza transmitida pela casa, os personagens que moram neste ambiente que conseguem passar com bastante firmeza a visão de uma família real, com ligações ternas e sentimentais, agregando toda a poesia que os envolvem através de olhares, contatos de avó e neta, busca por aceitação, etc.

Por mais que a trilha sonora seja um tanto genérica e inconstante, nunca é um empecilho para a narrativa, principalmente por não se apoiar na música, mas na sensibilidade à flor da pele construída pelo roteiro conciso e seus atores completamente investidos.

A poesia de Koreeda neste filme é transformadora, e digo com isso não em aspectos técnicos, de narração ou qualquer âmbito do que se conhece por cinema. Transformador pelo seu conteúdo e pela sua representatividade. Pelas camadas criadas em sincronia com não só a comunidade japonesa, e sim com qualquer família não reconhecida como família devido a seus moldes não tradicionais de pai, mãe e filho.

A história proporciona momentos a todos os personagens, com níveis diferenciados, e propósitos liberais e humanidade iguais. A passagem de princípios da sábia para os discípulos, sem explicar verbalmente ou através de clichês, mas inserindo os blocos da construção da história calmamente, exatamente como uma poesia, atingindo o ápice no ato final. Koreeda pode perdido a chance de fechar o filme com a cena que resume o enredo perfeitamente, mas é relevado devido a toda a formação dos personagens, o desenvolvimento de todos os integrantes da família Shibata, e a conexão entre todos que, com certeza, se relaciona com qualquer família em qualquer país do mundo, explicitamente levando em conta o tratamento da adoção no filme. Assunto que ainda é um tabu em várias partes do planeta, inclusive no Brasil. E partindo do conceito de família “incomum”, e associando com o Brasil particularmente, reverbera no que é afirmado como família, trazendo para nossa atualidade o questionamento mais recorrente que é: os valores da família.

Koreeda claramente traz os valores da família. Porém, não da forma casta e convencional esperada, mas a humanidade em cada um, o sentimento acima de estruturas pré-formadas, a disfuncionalidade presente em famílias e o que os une independente da biologia. E a edição costura a vida que cada personagem, explorando o momento de cada um de forma orgânica e sem sobrepor a história de um com a de outro, nivelados perfeitamente, abdicando de dar ênfase em um personagem específico para expressar principalmente o conceito da família “moderna”, e mais do que isso, o apreço por coisas simples.

As diferentes perspectivas são pontuadas com leveza e charme, ainda que com um drama latente perpassando o enredo. O elenco é composto por seis membros da família Shibata, com cada um representando realidades atuais de forma crível o suficiente e visualizando a família em si como o real personagem, sem distinções de importância, retratando o dilema de encontrar uma criança que sofre abuso doméstico, e não saber como lidar com a situação; prostituição; roubo como forma de sustento, causando um duplo sentimento no público, pois é claro que está errado, mas é compreensível pelo fato de sabermos a necessidade que essa família passa e o quanto uma fruta faz diferença.

Koreeda conduz com parcimônia, sem apelar para a dramatização extrema. Pontuando críticas sutis à autoridade policial falha – o que se aplica fortemente a qualquer sociedade – e a falta de entendimento do desejo da criança, e como ela é silenciada por ser uma criança. Casos mínimos que a beleza de sua poesia visual mede sem exagero, buscando o minimalismo e o sentimentalismo na pureza e inocência da criança.

Assunto de Família aborda os questionamentos modernos do que constitui uma família, exuberando as relações construídas entre pessoas, independente de ligação sanguínea, e desconstruindo moldes tradicionalistas, dando lugar ao respeito e o sentimento de aceitação pessoal e social. O roteiro contorna a infância regida pela inocência e a falta de inocência igualmente, passando pela adolescência reprimida e desorientada, o papel dos pais sem base financeira para compor a família, mas próximos aos filhos, sempre conectados pela presença da avó. Uma narrativa que mostra uma família, com personalidades distintas, que não se atropelam, e sim compõe uma a outra. Roteiro que é assinado por Koreeda, e não poderia ser dirigido por outra pessoa senão pelo próprio autor, pois, honestamente, não há no cinema mundial atualmente um diretor que consiga agregar leveza e dramaticidade de forma tão simétrica, com mensagens claras de esperança para humanidade que são mais do que necessárias para os tempos de hoje.



Deixe sua opinião:)