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Crítica #2: Bohemian Rhapsody

Apesar das ressalvas, é difícil passar incólume a uma celebração competente de uma carreira extraordinária como essa.
Bohemian Rhapsody

Foram anos de uma incerteza para a prometida biografia nos cinemas sobre um dos maiores vocalistas do rock de todos os tempos. A figura eternizada do frontman que tinha o público gigantesco na palma da mão pelas mais de 2 horas de um concerto é uma daquelas que viraram símbolo do rock: Freddie Mercury com o punho fechado ao alto e a pose de dominância total. Um regente no palco, mas que também tinha a vida pessoal atribulada pelos excessos. Queen foi – e ainda é – uma banda gigantesca e é natural que se espere um filme digno de sua importância na indústria da música. Por constatação, não é boa notícia quando um projeto desse porte passa por inúmeras polêmicas e dificuldades – entre elas, mudanças e reescritas de roteiro, demissões de diretores e troca do ator principal. Felizmente, o resultado é satisfatório e, embora sofrendo de vários vícios de uma cinebiografia formulaica, o legado da banda segura o tom e sustenta as qualidades da obra em uma boa celebração da vida e carreira de Farrokh Bulsara.

Pois é, esse é o nome verdadeiro de Freddie (Rami Malek), nascido em Zanzibar (atual Tanzânia) e residente em Londres a partir de 1964. O filme abarca o período em que ele conheceu Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello), cuja banda Smile acabara de perder seu vocalista e encontrou em Freddie um substituto ousado e talentoso. Logo passaram a se chamar Queen e se tornaram um sucesso absoluto pelo mundo todo. Mas a cobrança também veio junto com a fama e a dificuldade de lidar com as incertezas pessoais, principalmente com a família, amigos e sua namorada, Mary Austin (Lucy Boynton).

Um dos primeiros elementos mostrados na obra é justamente a ânsia de encontrar um nome artístico (Mercury veio de uma das primeiras canções da banda, My Fairy King), o primeiro dos escapes a que o protagonista recorre para se distanciar da reprovação do pai. A existência da persona no palco à parte do real foi sempre algo marcante para quem o conhecia pessoalmente e é essa a abordagem que permeia o desenvolvimento de seu arco na narrativa: o solitário em busca de amor versus o líder imponente e perfeccionista na música. O último, todos (ou quem gosta de música boa) já conhecem e o outro é objeto da história adaptada no roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo).

A questão é que há dois apelos principais que tentam se complementar na trama: o envolvimento e a conexão com os personagens somado à recriação de grande parte da trajetória musical do Queen. A primeira parte é um problema, já que Bohemian Rhapsody pouco consegue fazer para fugir do cimentado modelo de uma cinebiografia; aí entra a inevitável recorrência à estrutura episódica e que tenta reunir aqueles considerados os grandes momentos da banda (que você leria em um resumo na internet) em pouco mais de 2 horas de duração. Ao invés de soar natural, grande parte dos acontecimentos se entregam à necessidade de catalogar passagens icônicas de forma mais didática, se aproximando mais de um especial cronológico do que uma investigação sobre a essência da banda.

Mas isso é necessariamente ruim? Em grande parte, graças a Rami Malek, não tanto. O ator americano (com ascendência egípcia) consegue encarnar Mercury de forma precisa (confesso que queimei a língua nessa...). De fato, a grande força do filme está centrada em sua performance inspirada. Captando os detalhes e trejeitos que só serão mais identificáveis para aqueles que já viram algumas entrevistas reais – como o fato de constantemente mover a boca de forma a disfarçar o incômodo que sentia com seus dentes projetados para fora – o ator deixa o risco de parecer uma mera imitação para trás e consegue dar alguma profundidade dramática para o personagem. As marcas reconhecíveis para qualquer fã, principalmente as que compunham as performances no palco, estão todas lá e ainda assim é possível encontrar o “verdadeiro” Freddie quando este encara os conflitos pessoais.

E falando nisso, sua relação com Mary também consegue eventualmente fugir da superficialidade. Grande parte dos momentos em que o longa exige que nos aprofundemos em sua personalidade envolvem o conflito entre o início da vida amorosa com a parceira e a aceitação da homossexualidade. Uma das grandes canções da banda, Love Of My Life, foi composta para ela e mesmo depois que cada um seguiu rumos diferentes na vida amorosa, continuaram amigos por toda a vida – ela, inclusive, tem como uma função na trama servir como um refúgio emocional e permitir que o espectador conheça o lado vulnerável do cantor. Em um momento inspirado, por exemplo, é tocante perceber que logo que ele compra sua primeira mansão, convence Mary a se mudar para poucos metros de distância e fim de não perder a companhia entre noites solitárias e telefonemas melancólicos.

Já em relação aos outros personagens, a obra parece aceitar que não há muito tempo para aprofundá-los da mesma maneira. Dessa forma, Brian May (Gwilym Lee, idêntico na aparência físca), Roger Taylor e John Deacon são basicamente versões resumidas de personalidades diferentes que servem para justificar as brigas e os conflitos internos da banda. Isso também não é necessariamente ruim, já que, mesmo superficiais, acabam cumprindo seus papeis pelo carisma e identificação com os fãs. Da mesma forma, outras figuras-chave na história da banda são pinceladas mais com o objetivo de antagonismo do que qualquer outra coisa. O destaque aqui fica para a participação de Mike Myers como o empresário Ray Foster, personagem ficcional, mas que tem inspiração em pessoas reais que se mostraram céticos em relação ao sucesso do álbum mais celebrado do Queen, A Night at the Opera (1975) – cabe ressaltar que, além de servir como um “vilão”, ele é uma óbvia e divertida referência ao clipe de Bohemian Rhapsody remontado para a comédia Quanto Mais Idiota Melhor, famosa pela sequência onde Wayne (o próprio Myers) e seus amigos chacoalham as cabeças escutando o épico no carro.

Aí que entramos na parte onde a obra encontra sua força, que é justamente o fato de ter um caminhão de hits icônicos à disposição e uma direção que soube usá-las e reproduzi-las muito bem durante o filme. Dirigido por Bryan Singer (e posteriormente Dexter Fletcher, após demissão de Singer), a experiência musical é o ponto a se buscar para quem realmente espera algo mais catártico. A junção de uma direção de arte caprichada e efeitos especiais competentes são responsáveis por reproduzir fidedignamente a energia das apresentações e a postura de idolatria do público com Freddie. Se o roteiro de McCarten pesa no melodrama e na artificialidade de algumas situações (as que envolvem as ideias geniais para as canções são geralmente bobas e afetadas demais), aproximando o resultado para um produto que mais parece feito para a TV, a direção eleva momentos cinematográficos a partir dos sucessos do Queen que dificilmente não empolgarão os fãs.

Apesar de não ser capaz de transformar o caráter episódico do roteiro, a montagem de John Ottman ao menos consegue dinamizar a narrativa investindo em recursos que tendem a deixar os momentos de criação musical da banda divertidos, tanto através de cortes que tentam amenizar as passagens “certinhas” demais em termos de saltos temporais, quanto usando transições que deixam a coisa toda mais esteticamente agradável (com destaque para um raccord hilário em que uma galinha é substituída pelos “gallileos” agudos de Roger Taylor). Já o trabalho de mixagem de som pode deixar os mais exigentes incomodados, já que é perceptível a diferença entre as vozes de Malek e Mercury – e convenhamos, é um trabalho imenso reproduzir um timbre tão marcante que não fosse resgatado de gravações originais, algo só aproximado porque o cantor Marc Martel, conhecido pela semelhança vocal, ajudou a compor as vocalizações no filme.

Também possuindo algumas adaptações mais forçadas para quem conhece mais a história da banda, fica evidente que várias dessas alterações serviram para justificar conflitos pessoais do cantor e relacioná-los com o famoso show no Live Aid, em 1985. Para quem reconhece as mudanças (assim com um fã declarado como eu), isso pode incomodar e até soar um pouco picareta, mas também é importante lembrar que essas incongruências não afetam a lógica interna do filme. Se há algo que incomoda é que várias dessas mudanças se tornam suavizações em relação a aspectos polêmicos da vida pessoal de Mercury. O longa aborda de forma burocrática as drogas, a sexualidade e a AIDS, dando um aspecto evidente de “passada de pano” moral para os excessos que fizeram parte de sua história.

Mas, a bem da verdade, fica claro desde o início que Bohemian Rhapsody é mais “novelão” do que qualquer tentativa de ser um drama denso e um estudo de personagem. Apesar das ressalvas, é difícil passar incólume a uma celebração competente de uma carreira extraordinária como essa. E se ainda considerarmos a intensidade de um show histórico de apenas 25 minutos no Live Aid (considerado por muitos como uma das melhores apresentações ao vivo de todos os tempos), vale a pena ter a sensação de reviver em uma sala de cinema (procurem a maior) a culminação de quatro músicos de absurdo talento despejando pura música boa nos seus ouvidos.

Não estamos mal para um bando de rainhas velhas, não é mesmo!?”

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