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42ª Mostra | Crítica: Guerra Fria

Guerra Fria é uma carta de amor para os pais de Pawlikowski, e uma carta de amor por si só interpretada por Tomasz Kot e Joanna Kulig. Mas, além de um relacionamento, é o reconhecimento dos desejos de uma mulher emancipada e a resiliência necessária quando duas pessoas se amam verdadeiramente.
Guerra Fria

A homenagem prestada aos pais serve como uma carta de amor universal, com a cor vermelha escorrendo nas palavras e músicas melancólicas pelo pós-guerra. Pawel Pawlikowski diz: “[...] Eu prefiro contar histórias sobre personagens em relacionamentos complicados”, mas, dentro de uma história de amor como a que cria em Guerra Fria, que, a propósito, é um título irônico, sendo a produção sobre um amor conturbado – ainda que durante a Guerra Fria –, e confirmando seu distanciamento de politicagem em sua arte, sua base de construção artística de seu país é novamente um cenário extremamente político e crítico. O que torna sua obra ainda de mais valor, considerando sua inserção de uma história de amor totalmente fora dos padrões como esta.

Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) constroem seu relacionamento ao longo de 15 anos, dentre problemas e incertezas causados por duas personalidades e classes sociais distintas durante o pós-guerra.

Pawlikowski iniciou sua carreira já com filmes de língua inglesa pelo Reino Unido, sendo Guerra Fria apenas seu segundo filme em seu idioma nativo, e com mais uma obra-prima é questionável as suas razões de ter mantido suas histórias polonesas escondidas. Filme que além de lhe proporcionar mais um de seus grandes momentos em sua carreira ao ganhar o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2018, presenteia a sétima arte com seu talento inigualável em construção de personagem como já havia sido feito em Ida, e é feito com ainda mais força aqui, glorificando a sua imagem de mulher pelo ângulo cinematográfico e maternal, destrinchando sua atriz camadas pessoais e brilhantes pelo valor claro que o diretor emprega na aparente imagem de sua mãe e a saúda com olhares que representam mais do que as poucas palavras que a atriz tem para se expressar, e quando expressadas, relatam a inteligência feminina explorada intrincadamente pelos contornos preto e branco.

O contraste utilizado do preto e branco realça o tom lamurioso da época, acompanhado de músicas extremamente carregada de sofrimento, e mesmo as mais dançantes possuem uma carga de obrigação ditatorial transmitida pelos atores que se encontram constantemente presos em miséria, tristeza, insegurança etc. Densidade e morbidez aprisionadas pelo enquadramento 4x3 que sufoca os poloneses comandados pelo totalitarismo stalinista e invade suas vidas, principalmente do casal Zula e Wiktor, quase opressivamente.

A assimetria das personalidades de Zula e Wiktor afirma o título Guerra Fria com a incongruência que é característica do amor em si. Ambos se amam, mas a inconsistência temperamental permeia suas vidas em uma típica relação de idas e vindas, embora não tão típica devido as repercussões políticas que suas escolhas causam, o que agrega em valor para a obra e o torna, independente da época em que se passa, um dos romances mais relacionáveis do cinema, cruzando sempre o equilíbrio emocional e nunca colocando concretamente suas intenções em palavras, da mesma forma que a EUA e URSS nunca perpetuavam suas ameaças.

A cinematografia de Łukasz Żal pesada pelo preto e branco é acompanhada pela musicalidade de cantos e apresentações de dança, que age em função da história e em seu perfeccionismo simétrico contrasta a imperfeição amorosa que percorre a narrativa tão perdida quanto as danças que se movem melancolicamente no cenário pós-guerra. Despropositados, mas é visível a libertação desses súditos do totalitarismo quando dançando, mesmo que obrigados, há um desespero pelo desprendimento do enquadramento que está sempre espremendo seus personagens em uma jaula política.

O estilo episódico de Pawlikowski de contar a história de seus pais ao longo de 15 anos delineia a frieza de seu conto sem se preocupar com os espaçamentos, pois, ainda que os momentos e os sentimentos de cada segmento sejam as reais figuras de importância e como o casal se desenvolve da Polônia comunista para a boemia parisiense, a passagem rápida por esses momentos problemáticos é realmente o ponto de interesse dessa história conturbada de amor, com os hiatos forçando a imaginação e interpretação.

A inspiração tida em seus pais credencia o seu papel como diretor para um conto atemporal, e Joanna Kulig simplesmente absorve o real amor empregado por Pawlikowski e o transmite com todas as facetas femininas. Com inteligência e mistério, beleza e sensualidade, inocência e experiência, o repertório de atriz para o desenvolvimento de um ser tão enigmático e maravilhoso como a mulher, passando pelas fases de um relacionamento sem nenhum esforço para transcender sua personagem, partindo da “inocência” camponesa para cantora em bares franceses mudando sua postura enquanto Zula cresce, mas é sempre possível avistar o olhar misterioso característico junto ao amor por Wiktor e sua personalidade, alterando o visual e deixando sua sensibilidade de atriz e a confidencialidade de sua personagem à mostra. Um papel que rebusca atuações da era de 1940 e 1950 de Hollywood. Contudo, em um formato crítico a essas atuações femininas hollywoodianas, interpretando e reverenciando a sua independência ainda que apaixonada. Admirar a capacidade de uma mulher interpretar uma mulher pode soar um pleonasmo, porém, é a profundidade e o entendimento que Kulig alcança em sua feminilidade (além da época retratada) como Zula que mesmo cedendo aos preceitos sociais, nunca abre mão de seus próprios desejos.

Essa súbita epifania que Pawel Pawlikowski teve em contar a história de mulheres polonesas acima de qualquer contexto do Holocausto – uma constante do cinema polonês – traz novos ares para a Polônia e para o cinema, com representações diferenciadas do que temos visto, e com o talento de Joanna Kulig, sua admiração por essas mulheres silenciadas em uma época conturbada como o século XX no pós-guerra passa pela homenagem a seus pais e homenageia essas mulheres resistentes.

Guerra Fria é uma carta de amor para os pais de Pawlikowski, e uma carta de amor por si só interpretada por Tomasz Kot e Joanna Kulig. Mas, além de um relacionamento, é o reconhecimento dos desejos de uma mulher emancipada e a resiliência necessária quando duas pessoas se amam verdadeiramente.



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