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Crítica: Um Pequeno Favor

Beneficiado por sucessivas reviravoltas que o impedem de ser levado a sério, Um Pequeno Favor é um filme de gêneros.
 Um Pequeno Favor

Em seus últimos trabalhos, o cineasta Paul Feig, um dos nomes mais importantes da comédia norte-americana contemporânea, vem demonstrando um senso de humor mais obscuro e tonalmente sofisticado. Depois de usar a escatologia em Missão Madrinha de Casamento (2011) e a violência gráfica em A Espiã que Sabia de Menos (2015) para respaldar as reações de suas protagonistas, Feig agora brinca com as convenções do thriller de suspense em Um Pequeno Favor (A Simple Favor, 2018), acrescentando diversas camadas de humor em passagens inerente e aparentemente dramáticas.

Stephanie Smothers (Anna Kendrick) é uma adorável mãe viúva que dedica horrores às atividades escolares de seu filho. Certo dia, conhece e faz uma amizade inusitada com Emily Nelson (Blake Lively), uma mulher despojada e estonteante, mãe do melhor amigo de seu rebento. Inebriada pela perspectiva de ter uma amiga verdadeira – e inegavelmente atraente -, Stephanie rende-se àquela mulher. Entretanto, um pequeno empecilho surge para obstruir esse panorama favorável: o desaparecimento de Emily, gerando uma intrincada investigação que levará Stephanie a perceber que a nova amiga não era exatamente ela imaginava.

Desde os créditos iniciais, o longa-metragem já abraça um tom de homenagem aos suspenses estilizados dos anos 1950, apresentando uma composição harmônica de cores que remetem aos pôsteres das produções hitchcockerianas e, por incrível que pareça, ao neorrealismo italiano. A insistência do diretor em introduzir canções francesas em vários momentos da narrativa também ressalta essa aura de reverência sofisticada, além de brincarem efetivamente com as ideias cristalizadas de amigas/rivais admiradoras de músicas desta nacionalidade.

Na verdade, as sacadas mais espirituosas de Feig residem em fatores extra-filme. A escalação de Blake Lively como uma mulher moderna, cáustica e bem vestida serve como um aceno saboroso ao espectador mais afeito à cultura popular deste século, uma vez que a atriz foi alçada ao estrelato na série adolescente venenosa Gossip Girl (2007-12); em um diâmetro totalmente oposto, a escolha de Anna Kendrick para viver uma personagem que transborda uma inocência imaculada quase aborrecida não é menos que genial, especialmente pela fisionomia, tonalidade vocal e o currículo pregresso da intérprete (fez Cinderela em Caminhos da Floresta e é a heroína da trilogia A Escolha Perfeita). Ademais, o cineasta também aproveita uma cena de sexo para dar uma piscadela à franquia Cinquenta Tons de Cinza (2015-18), ambientando a ação em um ambiente sombreado e inserindo uma trilha não-diegética pop e supostamente sexy.

O contraste estabelecido entre ambas, tanto atrizes quanto personagens, é fundamental para o bom andamento do projeto. É particularmente interessante como o roteiro de Jessica Sharzer introduz as diferenças entre a dupla, colocando Stephanie em uma situação ligeiramente desconfortável ao chegar à casa de Emily e se deparar com uma pintura da vagina da anfitriã, desavergonhadamente exposta na sala de estar. Outro breve – mas considerável – instante semelhante dá-se durante uma conversa, em que Emily joga fora um martíni no chão de sua própria cozinha, ao que Stephanie prontamente se empertiga para limpar, sofrendo uma represália da amiga em seguida.

Esta contraposição dramática também se alastra para o campo visual, ainda que com certa discrição. O design de produção de Jefferson Sage é hábil ao conceber o lar de Stephanie como tipicamente aconchegante e agradável, quase saído de uma fábula infantil, enquanto a casa de Emily possui características fortemente assépticas, retilíneas e modernistas. Esse sentimento também é realçado pelos figurinos de Renee Erlich Kalfus, que cobrem as protagonistas com tons inequivocamente antagônicos (Stephanie sempre traja cores mais vivas, como amarelo, azul, rosa ou vermelho; Emily, todavia, atem-se ao preto, branco, cinza ou dourado) e que, progressivamente, passam a sugerir ao espectador mudanças ou epifanias de caráter das personagens. Em contrapartida, é uma pena que a fotografia de John Schwartzman seja tão impessoal e esquecível, calcada em planos e contra planos ligeiros e inexpressivos.

O trabalho das atrizes é de excelente procedência. Além da ótima química em cena, é bastante revigorante ver a evolução cênica de ambas ao longo dos anos. Explorando com eficiência as neuroses escondidas de Stephanie, assim como já havia feito no excepcional Amor Sem Escalas (2009), pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, Anna Kendrick apresenta-se como uma figura naturalmente simpática e agradável, mas que esconde uma potência sexual e psicológica notáveis. Já Blake Lively, que já vinha se provando uma profissional bastante interessante desde sua participação no igualmente prodigioso Atração Perigosa (2010), impressiona ao abraçar uma camada agridoce e sardônica, constantemente exalando superioridade e sensualidade cavalares. No entanto, apesar do bom entrosamento, as duas não são favorecidas pelo insípido britânico Henry Golding, cujo grau de convicção em seus diálogos ou expressões faciais é totalmente pífio.

Beneficiado por sucessivas reviravoltas que o impedem de ser levado a sério, Um Pequeno Favor é um filme de gêneros. É um cruzamento entre comédia e suspense, entre thriller erótico e sátira de costumes. Se esta mistura, por vezes, causa uma impressão de excesso de heterogeneidade, em outras, acaba se mostrando bem-sucedida e terrivelmente divertida.

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