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Crítica: O Retorno do Herói

Diante de um gênero datado e que raramente mostra novidade, O Retorno do Herói é um prato de entretenimento histórico e humorístico – com mais uma ênfase no humor.
O Retorno do Herói

Em uma época de comédias relativamente prosaicas, O Retorno do Herói busca trazer o lado heroico e histórico tipicamente francês. A leveza das comédias é imprescindível, da mesma forma que um bom enredo é necessário para contar qualquer história independente do gênero. E rebuscando o cinema clássico francês, Laurent Tirard nos mostra sua visão francesa a partir de perspectivas diferentes e modernas.

O filme apresenta o Capitão Neuville (Jean DuJardin), recentemente noivo e abruptamente chamado para uma batalha em território austríaco. Com a tristeza de sua irmã, Elisabeth começa a escrever cartas em nome do capitão e enviá-las para sua irmã. Entretanto, tudo se desordena quando ele reaparece e vai atrás de sua noiva.

O cenário é visualmente lustroso, com grandes panoramas da natureza e da nobreza francesa. O interior da casa é extremamente detalhado e delineado juntamente com o figurino brilhante, especialmente o uniforme do Capitão Neuville, sempre marcando presença com seu uniforme vermelho. A recriação de época a partir de cenário e figurino são perfeitos e simplesmente belíssimos.

A trilha sonora é contagiante em questão de condução de cenas, embora seja um tanto genérica do que já é conhecido tradicionalmente da música francesa em geral, sem apresentar algo de diferente do que já foi escutado diversas vezes no cinema, principalmente hollywoodiano – em suas tentativas de representar a França.

A edição é bem compassada e coordenada com praticidade, sem firulas, mas objetiva de uma forma que o humor seja coeso com as cenas, e a repetição de certas ações não se torne enfadonhas.

Entre pequenos deslizes e ótimos trabalhos técnicos, os destaques estão claramente no elenco fortíssimo, ainda que sem estrelas renomadas além dos protagonistas, e o roteiro sutilmente perspicaz por sua escolha de ambiente.

Os membros da família da casa possuem um humor precisamente encaixado, sem exageros, e que marca sua presença em simples reações e comentários cômicos, além de personalidades basicamente burguesas distantes de realidades e que se surpreendem com qualquer narrativa no mínimo empolgante. Com cada ator tendo seu momento, desde a mãe e seus comentários a cada fala, respondendo praticamente automaticamente, e sempre servindo bem o humor, até a noiva do capitão e sua libido incontrolável que oferece uma nota mais alta que o filme, em sua constante leveza, necessita. Entretanto, os destaques são certamente os protagonistas, interpretados por Jean DuJardin e Mélanie Laurent, capitão/noivo e irmã/cunhada respectivamente.

A relação de ambos os atores é incrivelmente fluida e coordenada, com um completando o outro em suas desavenças que carregam a comédia inteiramente sem perder a força. Jean DuJardin mostra os efeitos de seu charme de costume, conseguindo proporcionar charme, ao mesmo tempo em que o “desgosto” do público por sua covardia. Enquanto Mélanie Laurent serve como a voz da razão, com um desespero contagiante e uma ironia bem controlada, sem passar do limite – o que, em um roteiro carregado pelo cômico incessantemente, é admirável. E ainda que tenham alcançado ótimas performances individualmente, a separação de ambos na análise é quase impossível devido à relação perfeita entre os atores, o que aumenta o reconhecimento do trabalho atingido.

O roteiro constrói um cenário maravilhoso para uma história já familiar, mas que funciona, devido às atuações, e devido ao humor bem escrito. As camadas dos protagonistas são bem desenvolvidas, enquanto o que está em torno deles molda uma visão histórica bem relacionável. Especialmente pelos diálogos entre o capitão e sua cunhada, o filme caminha sem problemas e sem furos aparentes no roteiro, e, novamente, destaco o humor. Porém, embora os segmentos não se atropelem e o roteiro dá oportunidade para que todos os personagens tenham seus momentos de realmente aparecerem, a força e independência construída pela personagem de Mélanie Laurent é desmoronada completamente pela usual submissão do gênero da comédia. O desenho de uma personagem feminina além do tempo em que se encontra; atual; interessante por não se ater exatamente as convenções sociais; com aspectos tão contemporâneos ao nosso tempo que sua presença é ainda mais atrativa e nos agracia pela ótima atuação e ótimos diálogos. Tão imaculadamente feito que, particularmente, desaponta em seu desfecho e o desfecho da obra por completo pela conveniência preguiçosa e falta de originalidade – tendo perdido uma oportunidade clara na originalidade.

Laurent Tirard conduz belamente seu filme com um estilo visivelmente teatral, sem se prender a direção escolhida e deixando claras suas inspirações a partir de enquadramentos e organização das cenas. Buscando sempre emoldurar todos os personagens em um ambiente só, dando voz a todos, e com todos fazendo parte do momento organicamente. A liberdade imposta por Laurent Tirard é palpável, e ajuda a comédia quase irreverente.

Diante de um gênero datado e que raramente mostra novidade, O Retorno do Herói é um prato de entretenimento histórico e humorístico – com mais uma ênfase no humor. Resgatando valores franceses e os ironizando inteligentemente, e trazendo para as questões atuais, mais especificamente, a independência feminina dos moldes tradicionais. O elenco é brilhante, coordenado primorosamente pelos protagonistas Jean DuJardin e Mélanie Laurent. No entanto, o filme se consagra em tantos momentos e tão perfeitamente que quando chega a seu ponto fraco ele é fraquíssimo e perde o engajamento que havia conseguido do público, com uma conclusão que desaponta e quebra o que tentou construir durante a narrativa inteira.


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