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Crítica: Marvin

Marvin é incongruente e possui suas falhas que deixam o enredo um pouco mais pobre do que poderia, mas, na mão de Anne Fontaine, o filme passa sua mensagem perfeitamente e encaixadamente com circunstâncias atuais do bullying
Marvin

O cinema francês da atualidade já tem registrado o nome de Anne Fontaine, de forma concreta e presente, com sua perspectiva progressista além dos moldes do que é o “cinema da mulher”, citando a própria diretora. Com seu novo filme, os temas que costumam ser tabu voltam para sua filmografia e, especificando Marvin, o tema da sexualidade e a transformação humana diante de um aspecto com muitas variantes sociais e pessoais.

Marvin é um garoto tímido e isolado tanto em sua família quanto na escola, alvo de bullying em ambos os ambientes que descobre o teatro quando criança e decide seguir a carreira como ator. Perpassando a infância e a vida adulta de Marvin, sua sexualidade começa a ser desenvolvida enquanto seus desejos pelo teatro aumentam, carregando memórias para seu futuro junto a vontade de realizar uma peça autobiográfica.

O design de produção e a cinematografia trabalham juntamente ao criar atmosferas que apresentam dois mundos diferentes, passando entre a infância, com panoramas abertos e limpos do campo, utilizando a claridade campestre plenamente; em contraponto, a vida cosmopolita e boêmia em Paris, exacerbando os ornamentos da cidade e seus valores artísticos, além de constantemente posicionar o elenco próximo de pontos que resplandeçam a maravilhosa Paris. A produção explora a dualidade do personagem e do cenário: com tons claros e naturais quando criança em formação pessoal e desconhecida de si própria; tons mais escuros e noturnos, paralelos ao glamour do teatro, para um homem já formado, ainda que possua suas dúvidas da vida.

A edição da transição entre épocas introduz uma fluidez prazerosa para o enredo, sem atropelamentos nos segmentos, embora, no decorrer do segundo ato para o terceiro, a passagem da infância seja esquecida e é lembrada abruptamente com uma cena desconexa do conceito proposto. A linearidade é bem corrente, até que, assim como a ruptura nos segmentos da infância, possui um flashback que inicia uma leve confusão do meio do filme em diante, sendo praticamente jogado dentro da trama e bagunçando o que parecia sucinto.

A trilha sonora é sutil e colocada sem contar a história, e, mesmo espaçada demais, e em alguns momentos quase esquecida, aproveita devaneios e sensações para contornar pensamentos não verbalizados.

A narrativa entre épocas é organizada – até certo ponto –, desenvolvendo seu protagonista em suas duas fases gradativamente, com o roteiro servindo aos atores, sem dizer muito, mas com momentos específicos que retratam a realidade do descobrimento da sexualidade e o resultado de sua aceitação. Jules Porier que interpreta a versão criança de Marvin é pontual ao mostrar exatamente o reconhecimento de si próprio enquanto homossexual, com as dúvidas passadas no olhar e na forma de se portar, transmitindo dúvidas influenciadas pelo bullying que sofre de forma ponderada e relacionável – fruto do bom roteiro. A realidade palpável de crianças se descobrindo ajuda sua atuação, suficientemente para ser possível qualquer pessoa relacionar com o que Marvin passa na história. O ator oferece verdade em sua interpretação, embora não consiga cruzar completamente o visual de uma criança interpretando uma criança.

O enredo mostra os resultados da infância de Marvin com poucas brechas, e a presença de Finnegan Oldfield traz uma firmeza necessária intercalando o sofrimento do seu eu criança. As dúvidas que ainda permeiam sua vida são seguradas pelo olhar frio e calculista do ator – porém, mais inexpressividade do que real performance –, carregando duramente a tristeza ao longo do filme tão fortemente que quando o emocional do personagem atinge alguns poucos picos de alteração é dúbia a sensação de decepção por expor o que estava tão bem escondido, ao mesmo tempo em que é tocante ver transbordar o seu passado. Os dois atores possuem seus talentos, e mostram faces de uma pessoa real em seu sofrimento, com ambos compartilhando emoções, de forma diferenciada, mas que não se complementam, faltando a mesma fluidez que tem na edição.

O elenco compõe competentemente a história de Marvin. Genéricos, especialmente a família, com a mãe complacente e “acolhedora”, o pai ultra masculino, o irmão mais novo bonzinho e o mais velho rebelde. Todas as faces necessárias para aparentemente criar um ambiente opressor, pois, parece que não tem como se desvencilhar dessas convencionalidades para contar esse tipo de história. A família não tem destaques dentro dela, muito menos o elenco na escola. Durante sua fase adulta, os personagens ganham um pouco mais de camadas e apoiam mais o entendimento do público sobre Marvin. Entretanto, uma falha e um acerto ocorrem no enredo.

As personagens femininas, incluindo a participação especial de Isabelle Huppert interpretando a si mesma, tem presença marcada com clareza, e influência direta no desenvolvimento do personagem, desde criança até adulto. Fator interessante de se observar da necessidade da mulher em sua vida e o símbolo da maternidade constantemente movendo a narrativa, os empurrões que elas dão a Marvin, e a engrenagem principal para a humanização e a força do protagonista. No entanto, assim como algumas dessas personagens femininas, outros personagens são abandonados drasticamente no meio do filme, e esquecidos por completo ou abandonados e retornando rapidamente com resoluções desesperadas apenas para lembrá-los e ter um argumento para seu sumiço repentino.

A mão da diretora na história é leve e sem grandes movimentações, optando pela objetividade da realidade de uma criança que não se conhece, o bullying que ela sofre e o que essas ameaças causam na mentalidade desse menino, podando algo que poderia ser gráfico demais, mas que sua compreensão da dificuldade de ser uma criança e saber que há algo de diferente em si formula uma visão tangível da verdade. A câmera procura sempre mostrar os personagens por completo, sendo interessante observar como eles se escondem, aparecendo geralmente de costas ou de perfil, como se guardando seus sentimentos ou convicções abaladas pelo contínuo descobrimento de todos mesmo na vida adulta.

Marvin é incongruente e possui suas falhas que deixam o enredo um pouco mais pobre do que poderia, mas, na mão de Anne Fontaine, o filme passa sua mensagem perfeitamente e encaixadamente com circunstâncias atuais do bullying – especificamente do bullying de meninos afeminados e fora do padrão de masculinidade. A maternidade possui um espaço grande, intervindo pelo personagem e na história por completo. Paralelizando o descobrimento de sua sexualidade e seus desejos de vida, o enredo se perde no que quer passar, mas nunca deixa de expor os problemas infelizmente tão recorrentes do bullying a longo prazo.


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