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Crítica: A Freira

A Freira é abertamente um produto concebido para explorar ainda mais a franquia e que talvez funcione somente para predispor elementos da narrativa que serão depois recobrados em outros filmes do universo.
A Freira

Universos cinematográficos compartilhados são a última moda, e a Warner parece ter encontrado uma linha de produção para filmes de terror de baixo orçamento e bom faturamento. Ainda que seguindo a mesma esquematização de Poltergeist (1982) e fazendo um eco com Amityville (1979), Invocação do Mal foi um dos poucos filmes do gênero terror dos últimos anos que conseguiu combinar alguma qualidade e resultados de bilheterias. Com um roteiro aceitável, boa caracterização, personagens carismáticos e uma direção crua e sem inventividades, o diretor James Wan conseguiu nos colocar numa atmosfera distinta, sombria e ameaçadora. E agradou, apesar dos clichês clássicos do gênero e das resoluções rápidas e cafonas das tramas. É fato que temos um longo período de decepções quanto a filmes de possessão demoníaca, já que muito já fora feito e poucos sucessos conquistados, ainda com a sombra comparativa ao clássico imortalizado, O Exorcista. É verdade que os derivados da franquia fizeram muito bem aos filmes de terror, pois ajudaram a alavancar a bilheteria do gênero que estava em decadência por pelo menos duas décadas.

A Freira foi integrada à saga, funcionando ao mesmo tempo como um prequel/spin off, estendendo o universo da história. É claro que em narrativas derivadas há geralmente um enorme predomínio da exploração comercial do assunto, mas havia esperanças nessa continuidade pela abordagem do personagem sinistro da freira Valak, que aterrorizou e funcionou bem em Invocação do Mal 2. Tendo aparecido também em algumas das sequências da série, um spin off assustador parecia óbvio. Mas desta vez a figura aterrorizante serviu unicamente como ponto de venda, e o que temos é um filme menor e esquecível que opera reverberando cada um dos lugares comuns do gênero sem saber muito bem o que quer dizer ou como fazê-lo. Há pouca novidade neste filme dirigido pelo novato diretor Corin Hardy (A Maldição da Floresta). O que acontece, além do previsível, é uma imitação de dúzias de outras pequenas tramas sobre possessões demoníacas que sequer são executadas de maneira muito competente.

A história é básica como seu desenvolvimento. A trama se inicia com o suicídio de uma freira em um mosteiro na Romênia e se desenvolve na investigação de um padre (Demián Bichir) e uma jovem noviça (Taissa Farmiga) que se juntam a um camponês que encontrou o cadáver (Jonas Bloquet). Partindo daí o sobrenatural se estabelece em ciclos que incluem espiritismo, possessões, exorcismos e até o sangue de Jesus. Combinando elementos retirados de Drácula e O Exorcista, o filme basicamente se empenha em amontoar cenas que tentam assustar apenas através de jump scares telegrafados (e insistentes) e o uso exaustivo do recurso de som alto. E tudo praticamente pode ser previsto antecipadamente.

Havia muito potencial para um filme de terror gótico e atmosférico, no entanto, um roteiro totalmente sem direção, com uma narrativa confusa e vertiginosa apresenta um monte de coisas que simplesmente acontecem. E a história termina sem conseguir responder a uma questão que parece ser básica se formos exumar os arquétipos de quaisquer clássicos de terror: o que exatamente esse demônio do outro mundo realmente quer? A história é rasa e uma grande bagunça. O filme torna-se então uma ideia barata para dar sustos. Não há surpresas reais e os clichês, mesmo que assumidos como proposta, são tratados sem nenhuma astúcia e sem função narrativa. Portas batendo, sons estranhos, aparelhos que ligam sozinhos, sombras e figuras desincorporadas desaparecendo no final de longos corredores se esgotam em um filme que se recusa a investir em novas idéias próprias. Mesmo se levarmos em conta que há muito pouco o que se inovar no gênero, ainda há o excesso de diálogo expositivo e obstinadamente explicativo que foi escolhido em troca de se utilizar o visual para contar a história. Ao invés do terror construído com silêncios que o filme sugestionava, preferiu-se o barulho alto e súbito a cada três minutos.

A inconsistência do roteiro fica marcada pelo jeito como a figura da freira (Bonnie Aarons) é retratado. Ironicamente, é ela que recebe a menor atenção, já que é mal aproveitada a mitologia em torno do personagem. É desconcertante que um monstro de fundo de Invocação do Mal 2 seja mais eficaz em poucos minutos de tempo de tela naquele filme, do que em um filme dedicado a ele.

Na ausência de trama ou complexidade de personagens no roteiro de Gary Dauberman (IT: A Coisa) e James Wan (Jogos Mortais), o elenco dificilmente pode ser culpado e o filme não consegue dar a eles arcos significativos. O exorcista de Bichir recebe a motivação mais clichê que conseguiram encontrar e não consegue causar um grande impacto. Some-se a isso o fato de seus traços de caráter que parecem mudar de cena para cena. Taissa Farmiga, embora tenha recebido um personagem sem grande motivação e seja obrigada a parecer assustada todo o tempo, é a melhor em termos de performance. Bloquet está lá, em seu papel de alívio cômico, mas é difícil dar risadas genuínas no filme. Utilizado em tentativas fracassadas de criar humor, parece sugerir uma espécie de aldeão hipster da Disney.

A favor da obra está a ambientação e a paleta de cores bem acertada. O trabalho de efeitos visuais é sólido e o cunho artístico nos transporta para a época. A abadia decadente e coberta de vegetação é adequadamente sinistra. O lindo castelo medieval na Romênia, belamente trabalhado pelo desenho de produção, dá a sensação de um cenário de filme de terror completo. O trabalho de câmera de Maxime Alexandre (Alta Tensão), ora subjetivo, ora objetivo, é bem sucedido. Com um bom uso de câmera na mão ele passeia bem pelos corredores e escolhe bons planos específicos. A fotografia é visualmente atraente e muitas vezes dá ao filme uma cor pendendo para o sépia, ora monocromático ora sujo e sem vida.

A Freira tinha algumas ótimas ferramentas para trabalhar. A iconografia assustadora de Valak, uma ótima locação, um bom elenco e uma proposta visual rica, mas infelizmente os desperdiçou em uma trama chata e com soluções fácies.

Algumas cenas à parte, há pouco para emocionar ou envolver numa história profundamente mal costurada que deixará parte da platéia bocejando ou revirando os olhos. A Freira é abertamente um produto concebido para explorar ainda mais a franquia e que talvez funcione somente para predispor elementos da narrativa que serão depois recobrados em outros filmes do universo. Ou quem sabe para unicamente manter a franquia fresca na mente dos espectadores e arrecadar dinheiro fácil. É também o indicador de que certas ideias podem parecer comercialmente atraentes, mas para tal precisa-se de um roteiro inteligente e um diretor mais preparado. Vamos acreditar que o futuro da franquia não faça disso um hábito.

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