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Crítica: Alfa

Ao final, Alfa é um daqueles filmes que desapontam não por serem ruins, mas por não serem capazes de dizer nada mesmo em meio a uma certa competência técnica – no desfecho (não darei nenhum spoiler) há um pequeno twist que me deixou ligeiramente feliz, mas já era tarde para esquecer a sonolência anterior.
Alfa

Membro de uma tribo de homens vivendo em uma época bem antiga (provavelmente pré-histórica), um jovem rapaz acaba se perdendo da sua família e vaga perdido e ferido até se encontrar com um animal com quem acaba desenvolvendo uma amizade. Não parece ser uma premissa original, não é mesmo? Se extrapolarmos um pouco apenas pela sinopse e sem considerar a trama de fato, não é nada que Mogli ou Tarzan já não tenham feito de forma a perdurar na cultura pop o arco do humano que aprendeu a viver como os animais – e estes nem eram novidade, já que eram adaptações de velhos contos passados por outras mídias. Agora, se imaginar uma trama parecida com essa e adicionar uma hiperestilização nas imagens e uma pitada de documentário do Animal Planet, o resultado é algo como Alfa.

Aqui, o garoto é Keda (Kodi Smit-McPhee), jovem que atravessa a idade de provar sua maioridade – e masculinidade – participando de incursões por desertos rochosos e frios como teste de seu futuro papel de liderança frente à figura seu pai, Tau (Jóhannes Haukur). Em uma dessas provas, um acidente acontece durante um estouro de bisões e o garoto é gravemente ferido. Dado como morto posteriormente, ele sobrevive e, ao fugir de um ataque de uma matilha, acaba ajudando um lobo ferido com quem parte em busca de casa e lutando para vencer a fome e o frio no caminho.

Quando um filme começa a dar os sinais de que terá mais problemas do que qualidades, estes costumam aparecer logo de cara. Como um primeiro exemplo, iniciando já na sequência que deveria encerrar o 1º ato, a narrativa coloca o protagonista no momento chave do incidente que o colocaria direto na trama principal apenas para interrompê-lo e inserir um flashback contando tudo da semana anterior para apresentar o personagem. Sem motivo que se justifique, a escolha representa o apreço muito maior da obra pelo impacto posterior de suas imagens (como comentarei mais à frente) do que por sua história, já que tentar fazer o espectador sentir qualquer empatia por Keda não surte efeito se o público sequer o conhece o suficiente para temer minimamente por ele. Mas sejamos tolerantes para permitir que a projeção engate e sejamos fisgados por uma versão moderna e cativante dos exemplos citados lá no primeiro parágrafo...

O que também não tarda a se demonstrar um esforço em vão, já que a caracterização da tribo de Keda e suas particularidades não poderiam ser classificadas além do genérico. Basicamente, o que temos de informação sobre ela são diálogos expositivos em forma de discursos sobre a liderança e sobrevivência, e sobre sobrevivência e liderança mais um pouco. E falando em diálogos, a falta deles poderia ser uma qualidade do longa, já que em sua maior parte vamos apenas 2 personagens perambulando e se conhecendo, mas o pouco que se tem deles é completamente dispensável (há talvez uma exceção acerca de uma ligação emocional entre o pai e o lobo envolvendo um papo de “você está fedendo”...). Para piorar, é uma pena que a versão distribuída aqui no Brasil será disponibilizada apenas na versão dublada, o que impede que vejamos o resultado de algo que me chamou atenção quando procurei informações sobre o longa: a língua falada pelos personagens foi inventada para o próprio filme, e só saberemos o resultado depois de ter que procurar a versão original – que também incluiria a voz de Morgan Freeman em uma narração em off completamente dispensável que só tem como efeito parecer que estamos sintonizados no Discovery Channel.

Se tem algo que remete ao canal são as belas paisagens. Nesse sentido, Alfa chega no ponto onde consegue demostrar suas qualidades, mesmo que mais pontuais do que necessariamente orgânicas. Fotografados por Martin Gschlatch (Boa Noite, Mamãe), os ambientes ganham imponência e uma inegável beleza estética, abusando das cores fortes refletidas num intenso pôr-do-sol e acentuando o contraste com as noites estreladas, geralmente servindo como forte pano de fundo para os perfis de árvores, animais e personagens. Aliado com um bom desing de som, responsável por intensificar a imponência da natureza sobre um rapaz que só tem a inexperiência como ferramenta, a gama de ruídos de folhas, pedras, vento e ecos de predadores torna a natureza quase como um personagem incansável constantemente à espreita. Ao menos visualmente, a obra impressiona e até chego a considerar que algumas sequências funcionariam em 3d, já que Gschlatch o diretor Albert Hughes (Do Inferno, O Livro de Eli) compreendem bem o uso de extensa profundidade de campo quando desfila planos abertos que salientam a grandeza da paisagem.

Em compensação, o uso frequente da composição digital causa um certo desconforto paradoxal. Mesmo que deslumbrantes, os cenários acabam ganhando uma coloração e textura que se destacam negativamente quando comparados com tomadas claramente feitas em um local real (ao menos uma pequena parte dele). Uma outra abordagem utilizada para conferir um ar épico à narrativa é o uso de câmeras lentas que aumentam significativamente a sensação de irrealidade (há momentos que poderiam ser facilmente confundidos com Zack Snyder em seu 300). Ainda no CGI, há várias aparições de animais que são prejudicadas pela evidente computação gráfica – não que ela seja ruim, mas é perceptível o suficiente para tentar nos tirar do filme. Felizmente, o lobo Alfa é claramente um animal de verdade (em grande parte), o que talvez seja a escolha mais acertada do longa, já que facilita imensamente nossa ligação (ainda mais se gostar muito de cachorros e tentar ignorar os protestos que a equipe de produção vem recebendo por causa do abate de bisões unicamente para as filmagens).

Não que essa conexão seja particularmente forte e, nesse caso, é uma pena que o filme não tenha substância suficiente para fazer o público se emocionar com o destino do lobo e do protagonista.  Durante boa parte do 2º ato, há uma semente em potencial que ensaia despertar uma simpatia pela dupla e torná-la ao menos memorável nas próximas horas depois de sair da sessão, mas acontece tudo de forma desconjuntada por culpa de uma lógica temporal que não nos deixa muito material para nos importar.

Ao final, Alfa é um daqueles filmes que desapontam não por serem ruins, mas por não serem capazes de dizer nada mesmo em meio a uma certa competência técnica – no desfecho (não darei nenhum spoiler) há um pequeno twist que me deixou ligeiramente feliz, mas já era tarde para esquecer a sonolência anterior.  


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