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Crítica #2: Hotel Artemis

Se o filme em si acaba não entregando tanto quanto poderia em termos de conceito e profundidade, ao menos, fica o consolo de que Jodie Foster continua sendo uma intérprete voraz e que merece uma plateia disposta a apreciá-la.
Hotel Artemis

Em um breve futuro distópico – mais especificamente, em 2028 -, a cidade de Los Angeles vive uma intensa crise hídrica, em que a água é vendida a preços exorbitantes, portanto, inacessíveis. Neste cenário, a enfermeira Jean Thomas (Jodie Foster) comanda o Hotel Artemis, um prédio que serve como centro de recuperação física para criminosos. Pessoas fora da seleta lista de clientes não podem ser socorridas, por mais que estejam definhando.

Estreando na direção de longas-metragens após atuar como coautor dos roteiros de Homem de Ferro 3 (2013) e Missão: Impossível – Nação Secreta (2015), o inglês Drew Pearce insere excelentes ideias em Hotel Artemis (Idem, 2018), que são defendidas por um excelente elenco e que são ornamentadas por um excelente design de produção. No entanto, os predicados fundamentais desta obra já se encerram aqui, nesta introdução.

Uma emulação tímida de Chinatown (1974) e Uma Noite de Crime (2013), o filme é provocativo ao despertar paralelos com o momento atual (a crise da água, as rebeliões urbanas, as elites endinheiradas e indiferentes) e consegue ser intrigante ao apresentar criminosos ávidos por um pouco de dignidade, humanizando-os nesse processo. Ademais, os nomes dos hóspedes do hotel-título carregam um forte senso de ironia (Acapulco, Everest, Nice, Niágara, Honolulu), contrapondo-se às suas naturezas físicas intimidantes e perigosas.

O clima de emulação cinéfila se expande para a construção do clima noir, seja na trama amorosa entre os ladrões Waikiki (Sterling K. Brown, o Randall da série This is Us) e Nice (a argelina Sofia Boutella, tentando desvincular sua imagem do fiasco de A Múmia), no design de produção sujo e ocasionalmente idílico de Ramsey Avery, ou na cinematografia ora abrasiva, ora sufocante do sul-coreano Chung Chung-hoon, colaborador habitual de Park Chan-wook.

Porém, da segunda metade de projeção em diante, o resultado se torna bocado ordinário e apressado: as provocações sarcásticas sobre a moralidade dos personagens e a crítica à postura arrogante e megalomaníaca da elite norte-americana (representada pelo traficante de armas interpretado por Charlie Day) são abandonadas em prol de um crescendo pouco surpreendente ou empolgante (a exceção fica por conta de uma ótima sequência de ação protagonizada por Nice), eliminando discussões, diluindo histórias ou eliminando personagens a bel-prazer, sem terminar de desenvolvê-los e sem justificar suas participações no enredo.

Para piorar, a montagem de Paul Zucker e Gardner Gould prejudica a fluidez da narrativa: quando uma cena está prestes a atingir seu ápice, tanto dramático quanto rítmico, há um corte para outro núcleo; assim que este alcança o nível máximo de interesse, volta-se para a cena anterior. Esta intercalação televisiva ralenta a progressão da trama, dificulta o envolvimento do espectador com as situações e personagens e enfraquece a dramaturgia do texto, uma vez que as intenções da carpintaria dramática se esvaem a cada transição incômoda.

Ainda que varie constantemente entre o brilhante e o trivial, Hotel Artemis tem um grande trunfo em mãos: Jodie Foster. Envelhecida por uma maquiagem competentíssima e sutil, a veterana atriz consegue compor uma personagem enigmática e complexa, visivelmente transtornada e abatida. O desvelo de Foster é tão forte que torna o trauma da Enfermeira menos telegrafado e anticlimático do que realmente é.

Assim, se o filme em si acaba não entregando tanto quanto poderia em termos de conceito e profundidade, ao menos, fica o consolo de que Jodie Foster continua sendo uma intérprete voraz e que merece uma plateia disposta a apreciá-la.


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