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Crítica #2: O Candidato Honesto 2

Contando com efeitos visuais de trigésima categoria e entregando um conceito final duvidoso (a democracia se mantém intacta mesmo quando permite conspirações e subentendidos), O Candidato Honesto 2 é uma comédia ordinária, acelerada e enjoativa, que aposta demais no histrionismo, na escatologia e no humor de boteco digno da pior fase do Zorra Total.
O Candidato Honesto 2

João Ernesto foi condenado a uma pena de mais de quatrocentos anos. Porém, saiu após cumprir apenas quatro anos de reclusão. Quando é liberado, não demora muito para que seja convidado novamente para candidatar-se à Presidência da República, aliando-se ao cadavérico Ivan Pires, que assumirá como seu vice. Desta vez, a sorte estará ao seu lado – ou não?

Sequência do simpático longa-metragem lançado em 2014 – e melhor projeto cinematográfico da carreira de sua estrela –, O Candidato Honesto 2 (Idem, 2018) é mais uma comédia protagonizada por Leandro Hassum, dirigida por Roberto Santucci e escrita por Paulo Cursino, responsáveis por coisas “maravilhosas” como a trilogia Até que a Sorte nos Separe. Não há nada diferente nesta continuação, que não consegue ser espirituosa, interessante ou entrega uma mensagem renovadora como o predecessor.

Durante parte generosa da projeção, somos agraciados com piadas sobre pregas anais, excesso de pelos corporais, sorriso gengival, pênis avantajado, etc. O longa só dá o menor sinal de vitalidade quando aposta no principal: a sátira à política brasileira. Santucci e Cursino não são sujeitos sutis ou rebuscados, e é justamente esta deficiência que eleva consideravelmente a qualidade do material. As referências, a casos e personas públicas, saltam aos olhos, inconfundíveis. A mais evidente – e bem sucedida – é a caracterização do vilão Ivan Pires (Cássio Pandolfh), que, cujo nome já explicita, possui traços notavelmente vampirescos, seja por seu semblante pálido, austero e pela capacidade desagradável de aparecer inesperadamente. Logicamente, trata-se de uma sátira ao Drácula Executivo, vulgo Michel Temer.

Entretanto, este mérito não é exclusivo desta produção. Há tempos que Temer é associado a vampiros, seja na internet, na televisão, nas ruas, nos jornais, nos redutos universitários, etc. O que o texto de Cursino faz é justamente brincar com essa percepção popular sobre o presidente, assim como zomba de Marina Silva ao encará-la como uma coadjuvante insossa e diminuída no embate final da corrida eleitoral, da mesma forma que constrói Pedro Rebento (Anderson Müller), a versão cinematográfica de Jair Bolsonaro, como um desequilibrado truculento e populista, cujo penteado assemelha-se ao do jovem Adolf Hitler. A retórica nonsense da ex-presidente Dilma Rouseff também não fica de fora do escárnio dos realizadores, retomando a abordagem (até mesmo a atriz, a excelente Mila Ribeiro) feita em Até que a Sorte Nos Separe 3 (2015).

Ou seja, o grande destaque desta comédia não é a criação ou a novidade de seu conteúdo, mas sim, a forma como se apropria de piadas preexistentes sobre aqueles a quem satiriza. Sendo assim, quanto mais Cursino se limita a injetar suas próprias ideias neste trabalho, melhor para o projeto. O único momento em que o roteirista entrega um resultado mais convincente – ainda que atrelado a uma figura pública real – acontece em uma sequência na qual João Ernesto é visitado por um agente federal japonês, acredita ser o alvo de uma condução coercitiva e, por precaução, queima documentos e aparelhos eletrônicos.

Se funciona razoavelmente chovendo no molhado, o roteiro não entrega nada substancial no que concerne à estrutura ou desenvolvimento de personagens. Constantemente, Cursino e Santucci apostam em elipses para fazer a narrativa avançar. O problema, no entanto, ocorre pelo excesso desse recurso, que acaba esvaziando qualquer potência dramática, elimina possibilidades humorísticas e é responsável por tornar fugazes e vazios os conflitos do enredo. Além disso, em diversos momentos, o protagonista assinala uma autorreflexão, sente vergonha, pena de si mesmo por suas ações e toma alguma atitude moral transformadora (do ponto de vista da trama, fazendo-a girar). Entretanto, mais adiante, são feitas piadas em que João Ernesto tem/recebe malas de propina e consome drogas com um empresário escuso.

Ora, se o roteiro determina que o caráter do personagem está em um positivo processo de mudança, por que, então, suas ações, comportamento e percepções éticas continuam condenáveis e imbecis? Simples: porque Leandro Hassum precisa de uma oportunidade para exibir suas caras e bocas e adotar um tom tonitruante para simular o desespero/embaraço cômico do sujeito que interpreta. Aliás, o trabalho do ator aqui é de uma incoerência e falta de originalidade desconcertante. Não há composição cênica. Hassum está fazendo o mesmo papel de seus últimos filmes. O tom de voz, a postura corporal, a expressão facial, os trejeitos, inflexões, enfim, ele parece se esforçar repetida e incomodamente, o que entrega a artificialidade da performance. Até a observação de João Ernesto sobre os discursos ininteligíveis de Dilma (“Eu não entendo nada que ela fala”) é exatamente a mesma feita por Tino em Até que a Sorte Nos Separe 3. O pior é que o caso parece ser de limitação dramática, não de um ator interpretando uma variação de si próprio, visto que Hassum parece ser uma pessoa bem mais espontânea e crível em sua vida civil do que os personagens que executa.

Agravando um panorama pouco favorável, o diretor Roberto Santucci demonstra uma inépcia assombrosa na composição visual de sua obra, tão ineficaz que beira o amadorismo. Os enquadramentos são desleixados e deselegantes, cortando as cabeças dos atores, suprimindo o chamado “teto” (aquele espaço entre a cabeça do ator e a margem superior do quadro). Dificilmente, a justificativa da filmagem embasou-se em uma técnica de linguagem pensada para sufocar o elenco, o que representa uma involução preocupante de Santucci como cineasta.

Contando com efeitos visuais de trigésima categoria e entregando um conceito final duvidoso (a democracia se mantém intacta mesmo quando permite conspirações e subentendidos), O Candidato Honesto 2 é uma comédia ordinária, acelerada e enjoativa, que aposta demais no histrionismo, na escatologia e no humor de boteco digno da pior fase do Zorra Total. Sai-se melhor quando aposta em associações do senso comum, facilmente identificáveis. Está aí uma ironia refinadíssima: um filme que progride da calamidade absoluta até uma mediocridade tolerável.



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