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Crítica: Tesnota

Apesar do ritmo, que em alguns momentos sofre quedas na intensidade, e um desfecho um tanto simplório, Tesnota é um bom drama russo.
Tesnota

Em Tesnota (Closeness) somos colocamos no meio de uma trama que nos apresenta uma Rússia interiorana com valores arcaicos, machistas e misóginos fazendo contrapontos com aspectos da contemporaneidade, como a busca de liberdade entre jovens, maior autonomia da mulher, uso de drogas e individualismo. Em seu primeiro longa metragem, o diretor Kantemir Balagov retrata um drama familiar dentro de uma comunidade judaica na região do Cáucaso do Norte da Rússia em 1998, abordando costumes religiosos e culturais de forma realista e nos conduzindo por entre as contradições de um território que tem que se adaptar a um futuro novo, com novos grupos étnicos e novas ideologias pós queda do bloco soviético.

Mirando sua lente na pequena cidade de Nalchik, o diretor constrói a partir da história da região uma narrativa capaz de fornecer um retrato surpreendentemente denso de um mundo fechado e seus habitantes. Partindo de um conflito onde um jovem casal é sequestrado, e cuja liberdade depende do pagamento de um resgate, o filme ilumina sombriamente uma história cujo valor reside em quão autenticamente se construiu um relato histórico, social e pessoal em meio ao cenário apresentado como pano de fundo. Com uma imersão sufocante na privacidade de uma comunidade, no calor de conflitos ainda estabelecidos e nas profundezas do uma geração frustrada, embora grande parte do filme nos mostre um número limitado de personagens conversando em espaços pequenos, obtemos uma quantidade considerável da experiência social daquela comunidade na qual coexistem judeus e muçulmanos.

O título original (Tesnota) se traduz como “estreiteza ou confinamento”, impressões mais que cumpridas pelo filme não só visualmente como na energia visceral e raivosa empregada na construção do relato. Sua narrativa de fato transmite uma sensação de claustrofobia e inquietação de uma cidade dividida, refletindo sobre os laços de família, as diferenças culturais e as relações interpessoais. A linha de tensão do filme é conduzida através da história de Ilana (Darya Zhovner) e sua família, e o primeiro momento de conflito chega quando seu irmão e sua noiva são sequestrados e a comunidade é capaz de reunir o dinheiro do resgate para só uma das vítimas. A solução da família é então oferecer a jovem, efetivamente vendendo-a para um casamento arranjado, o que faz explodir diversos conflitos internos na personagem e na trama.

A narrativa é quase tão intencionalmente indisciplinada quanto sua heroína rebelde que funciona bem como a representação de uma jovem mulher que quebra regras, que não está de acordo com o estabelecido e rompe com tradições do passado. Os tormentos sofridos por ela e sua família fragmentam os laços emocionais entre eles e demonstram o reflexo de toda uma sociedade local que cria uma atmosfera de constante crise e suspeita todo tempo.



O roteiro apesar de algumas cenas arrastadas é compensado pela atuação intensa da protagonista, numa vitalidade incrível em cena. A atuação de Zhovner se destaca, leva a história adiante e é o grande ponto forte. Seu bom desempenho dá força ao filme e coloca o foco todo nela, o que acaba por não se desenvolver bem outros personagens satélites que poderiam render mais para o filme e para a própria personagem central. O filme talvez se incline demais para que nós a admiremos, muito em função de seus impulsos que são tão selvagens quanto a sua fidelidade pessoal e religiosa é tão tênue. Mas como heroínas no cinema russo contemporâneo são raras e na maioria das vezes passivas ao extremo, é uma boa surpresa como o filme se constrói com força em torno da personagem.

A condução do roteiro é talvez excessivamente esquemática, mas a produção cinematográfica compensa, com um trabalho de câmera criativo de Artem Yemelyanov, essencialmente valioso para nos ligar à perspectiva da protagonista. O significado do título também se reflete em quão próxima a fotografia é, e ajuda muito a fazer de Ilana um personagem interessante, complexo e real. Yemelyanov acentua a inconstância do drama ao fotografar com bastante câmera na mão e ousadamente no formato 4:3, frequentemente optando por closes, linhas de visão e composições não tão convencionais.

A fotografia é bem intimista, trabalhando bem próxima aos atores na maior parte do tempo, acentuando a opressão sofrida pelos personagens e enfatizando a natureza fechada do ambiente onde a comunidade vive, trancada em si mesma com seus costumes e tradições. Por outro lado, a escolha força os personagens em vários momentos a se aproximarem para caberem no quadro, criando um bom contraponto na narrativa através da composição visual. As cenas são quase todas dominadas por cores primárias vibrantes, maior contraste de luz e sombra e a utilização até eficaz do já quase esgotante laranja e azul. Somente no final o filme se abre para uma cena externa com um pálido nascer de sol, mas que servem para contrastar com o caos do mundo de Ilana. A estratégia estética é tão marcante quanto funcional para a história que o diretor está contando, e tem sua peculiaridade e agressividade na dose certa.

Apesar do ritmo, que em alguns momentos sofre quedas na intensidade, e um desfecho um tanto simplório, Tesnota é um bom drama russo. Bem interessante, com uma direção consistente, momentos de tensão e mise en scène bem construídos. Balagov constrói um filme que, através de seu estilo visual claustrofóbico, que se estende para além da moldura do filme, e sua concentração dramática que lembra os Dardennes (especialmente em sua exploração da dinâmica familiar), consegue transmitir a falta de conforto e segurança de um determinado local e período histórico. O jovem diretor, com apenas 26 anos, estabelece uma assinatura muito própria e sugere em seu primeiro longa que é um cineasta para no mínimo se prestar atenção.


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