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Crítica: Te Peguei!

No meio de toda a comédia, ainda há espaço para remoer um pouco sobre a idade e as amizades que inevitavelmente tendem a se separar com o tempo.
Te Peguei!

Os melhores filmes podem surgir das mais simplórias premissas que se possa imaginar. Em seu livro Da Criação ao Roteiro – uma das grandes referências na área aqui no Brasil –, Doc Comparato aponta que uma ideia pode surgir de qualquer lugar, desde uma história completa em outra mídia até um recorte de jornal; é “qualquer coisa que desperte a necessidade de escrever”. Assim, quando li uma rápida sinopse sobre esta comédia dirigida por Jeff Tomsic sobre cinco marmanjos em seus quarenta e tantos anos que insistem em brincar de pega-pega (Tag em sua versão em inglês), a reação imediata foi de desprezo por algo que já parecia fadado ao fracasso.

Mas acontece que nos filmes o que sempre vale é como você conta sua história, independente se ela parte ou não da mais tola ideia (se assim fosse, um filme inteiro sobre alguém indo do ponto A ao B não resultaria no excelente Mad Max – A Estrada da Fúria). Baseado num artigo real do Wall Street Journal de 2013, Te Peguei! (Tag) fala sobre Hogan (Ed Helms), Chilli (Jake Johnson), Kevin (Hannibal Buress) e Bob (Jon Hamm), amigos de infância que todo mês de maio retomam a brincadeira de perseguir uns aos outros através de várias localidades do país com o objetivo de passar o rótulo de “perseguidor” a quem for tocado. Prestes a se aposentar do jogo, Jerry (Jeremy Renner) – melhor jogador de todos e nunca pego – virará o alvo principal do grupo de amigos determinados a não desperdiçar a última chance de pegá-lo ao menos uma vez.

Difícil imaginar algo bom saindo daí, mas Tomsic até que consegue usar a desculpa para produzir uma comédia satisfatória e despretensiosa sobre a amizades duradouras. Para tirar logo da frente o que não funciona, vamos logo aos problemas do longa – comuns, inclusive, à maioria dos exemplares do gênero. Um deles recai sobre o maior o objetivo de uma comédia: ser engraçado. Para ser justo antes de começar, o humor funciona sim durante vários momentos do longa, mas também oscila bastante na diferença entre abordagens. Os roteiristas Mark Steilen e Rob McKittrick erram mais do que acertam quando a graça tem de vir dos diálogos: as piadas literárias. Várias delas não surtem o efeito, seja pela falta de conteúdo ou a inabilidade em controlar o timming das punch lines (a conclusão certeira da piada). O resultado é que há vários segmentos construídos em tornos destas, o que acaba produzindo um peso morto e alguns silêncios constrangedores.

Outros problemas vêm dos personagens e como alguns deles ou surgem largados na trama ou ganham uma carga dramática desnecessária e que não surte efeito, já que tudo é melhor quando não levado tão a sério. A jornalista que segue o grupo com o objetivo de escrever a história sobre os amigos, Rebecca (Annabelle Wallis), por exemplo, tem o claro objetivo de servir como uma forma de “receber” a exposição do roteiro como um intermediário para o público. A lógica é bem aplicada às vezes, mas logo é evidente notar que isso não impede que dezenas de outros diálogos expositivos transbordem nas conversas entre os amigos e até em monólogos entoados sem motivo aparente. Fora isso, a personagem basicamente se limita a seguir o grupo sem ter muito o que fazer, fazendo sua participação fazer mais sentido por causa de um fator externo (ela é baseada em um jornalista que escreveu a matéria original).

Mas o lado bom é que a produção tem nas mãos um elenco afiado e carismático. Ed Helms faz uma variação do seu atrapalhado bondoso ocasionalmente maluco e Jon Hamm continua a exibir um alcance impressionante em papeis que nada se parecem com outros que já viveu (era quase impossível imaginar o intimidador Don Draper, de Mad Men, se transformar em alguém tão inofensivo e engraçado). Já Jake Johnson e Hanniball Buress por vezes parecem sozinhos demais nas tentativas de humor, funcionando mais quando inseridos em uma dinâmica de colaboração com outros atores. Pegando emprestado de maneira óbvia várias características de seu Gavião Arqueiro em Vingadores (a habilidade de lançar rosquinhas com enorme acurácia não é à toa), Jeremy Renner é o que mais aparece exarado e, portanto, o que acaba sendo talvez o grande responsável pela parte do filme que mais funciona.

Pois é justamente quando a narrativa se solta e passa brincar com o excesso é que Te Peguei! tem seus bons momentos. Ao contrário das piadas diretamente faladas, as visuais ganham energia surpreendente nas mãos de Jeff Tomsic. Há várias brincadeiras com elementos de ação, aventura e até suspense, todas auxiliadas pela capacidade do cineasta em criar humor extrapolando gags em direção à sátira – como exemplo as sequências que se passam em uma emboscada na floresta e a perseguição em uma reunião de Alcoólicos Anônimos (uma qualidade que me lembrou da boa comédia recente A Noite do Jogo). Até as vozes em off funcionam quando inseridas no mesmo contexto, servindo como um adicional para o absurdo, com destaque para as cenas onde os personagens “pensam” em voz alta enquanto planejam as próximas ações em câmera lenta.

No meio de toda a comédia, ainda há espaço para remoer um pouco sobre a idade e as amizades que inevitavelmente tendem a se separar com o tempo. Apesar de não haver qualquer sutileza em relação a isso (basta observar como a moral da história já é jogada desde o início e repetida incessantemente pelos próprios personagens), o longa consegue entreter pela honestidade de sua proposta, mesmo que fique a sensação de potencial desperdiçado caso caísse nas mãos de um texto mais ousado e afiado.  


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