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Crítica: Slender Man - Pesadelo Sem Rosto

O resultado é um filme esteticamente monocórdico em que os principais elementos do gênero são obrigados a depender de uma súbita aparição ou de algum recurso supostamente inventivo –
Slender Man - Pesadelo Sem Rosto

Slender Man: Pesadelo Sem Rosto é o filme dos “quases”. Se formos pegar suas principais características, tanto no que concerne aos personagens quanto aos seus elementos de gênero, todos elas nascem de boas ideias, mas acabam derrotadas numa má execução. A história baseada em um monstro nascido de uma montagem na internet feita por Victor Surge (pseudônimo de Eric Knudsen, usuário de fóruns de terror) fez sucesso como um meme, depois adaptado para um jogo indie e transformado numa lenda urbana. Afirmando obter inspiração principalmente de Stephen King e H.P. Lovecraft, o criador provavelmente ficaria decepcionado que o mistério em torno dessas (e boas) grandes influências terminasse num exemplar de gênero tão desperdiçado pela falta de coragem e excesso de clichês.

A trama se passa em uma pequena cidade americana, onde vivem as amigas Hallie (Julia Goldani Telles), Wren (Joey King), Chloe (Jaz Sinclair) e Katie (Annalise Basso). Para fugir do tédio, certo dia elas resolvem assistir a um vídeo sobre uma misteriosa aparição relacionada ao desaparecimento de crianças e adolescentes. Perturbadas pelo que viram, passam a experimentar pesadelos e visões do uma criatura em forma de um homem alto e sem rosto rondando as florestas da região. Assim que uma delas desaparece, as outras decidem investigar a fundo a lenda na tentativa de entender o perigo cada vez mais real do Slender Man.

É preciso admitir que o ato inicial não faz um mau trabalho e quase (1º) torna real a possibilidade de vermos um bom filme de terror. Há uma boa apresentação do grupo de amigas e a narrativa é eficiente em passar um ar de falta de expectativa no futuro aliada a um ambiente disfuncional e tedioso. A química entre elas é boa e suas intérpretes, principalmente Julia Telles e Joey King, são competentes em trabalhar em cima de uma dinâmica mais natural na hora de representar a convivência de jovens que falam abertamente sobre sexo, fazem piadas compatíveis com a idade e assistem pornô (algo que outras obras parecem sempre tentar abordar de forma comedida ou muito irreal). Acertar o mínimo na hora de cuidar dos personagens garante ao menos um certo grau de empatia, e nisso o longa até consegue êxito.

Já a ameaça deve ser capaz de assustar na medida em que o espectador se importa com as vítimas. De um lado, temos personagens comuns que compartilham dramas e experimentam medos sobrenaturais (algo comum em Stephen King), do outro uma criatura cuja forma é envolta por mistério e cujas ações ganham peso através de histórias contadas por vítimas traumatizadas e relatos de graves consequências psicológicas (algo bem “lovecraftiniano”). O que faz o início do filme ser promissor é que o diretor Sylvain White (Os Perdedores, The Americans) parecia entender que menos é mais, fazendo com que a ameaça escondida entre as árvores na floresta e nos relances dos pesadelos se torne mais presente pela expectativa criada em torno dela. Fora isso, o fato de termos como pistas visões bizarras que surgem em rápidas montagens ajudam em conferir uma sensação de estranheza – e seria ótimo se isso tivesse se mantido ao longo da narrativa.

Infelizmente, ficou no quase (2º). Sempre que o vilão é revelado, toda a tensão vai embora e o que vemos é basicamente um boneco de cara lisa. Não ajuda o fato de que a direção escolhe os mesmos vícios de sempre que tornam o terror um dos gêneros mais maltratados pelos clichês, com direito aos segundos de silêncio que antecedem um jumpscare com um barulho alto, adolescentes fazendo as escolhas mais estúpidas possíveis, o caminhar lento no meio de cômodos com a luz desligada (porque nunca ligam as luzes na hora de procurar qualquer coisa?) e até algumas técnicas usadas com sucesso por diretores melhores – menção desonrosa para a câmera que vai e volta no mesmo ponto apenas para revelar uma ameaça que não estava lá antes (observe como James Wan faz isso melhor na maioria de seus trabalhos). Além disso, a estrutura tende a se repetir na concepção das sequências de suspense, que parecem sempre começar e terminar da mesma maneira. A exceção fica para alguns breves momentos mais inspirados no horror psicológico visualizado pelo espectador através de segmentos inspirados por delírios oníricos, mas elas são minoria em uma narrativa frouxa.

Em termos de atmosfera, o longa quase (3º) investe em um suspense constante ao invés de recorrer à surpresa – ao menos é o que acontece no início. Só que fora a decisão de abandonar a sutileza na trama, o visual também oscila de maneira bastante irregular, muito pelo fato do diretor de fotografia Luca Del Puppo não discernir a diferença entre trabalhar com as sombras ou simplesmente manter tudo escuro, inclusive em momentos onde sequer enxergamos os rostos dos personagens quando conversam casualmente na rua e nos corredores da escola. O resultado é um filme esteticamente monocórdico em que os principais elementos do gênero são obrigados a depender de uma súbita aparição ou de algum recurso supostamente inventivo – como é o caso da tentativa de inserir a tecnologia obrigatoriamente em obras que terão um público adolescente (as criaturas de hoje em dia também são transmissoras de dados wireless...).

Se forçarmos um pouco a barra, poderíamos até dizer que o roteiro de David Birke (Elle, Os 13 Pecados) quase (4º) consegue arranhar algumas metáforas no meio da história. O tema da gravidez adolescente se mistura com o terror assim como uma narração em off relaciona a lenda urbana com as paranoias da era da internet (as fake news, principalmente). Mas o fato é que a trama desanda cada vez mais ao se entregar para conveniências e explicações baratas – o pior acaba ficando evidente em uma tentativa fracassada de criar uma “reviravolta” onde não há sequer uma informação que o público já não soubesse anteriormente.

É por isso que Slender Man: Pesadelo Sem Rosto quase (5º) consegue ser razoável. Mais por culpa da adaptação do que o mistério da internet. Talvez cogitem contratar Eric Knudsen para desenvolver mais alguns monstros para futuros projetos de terror...


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