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Crítica: Como É Cruel Viver Assim

Apesar dos clichês apresentados e do roteiro previsível, Como é Cruel Viver Assim causa uma empatia e é consegue fazer o público compadecer com as dificuldades daquelas pessoas
Como É Cruel Viver Assim

Não vivemos na melhor das épocas relacionadas à empregabilidade, o país tenta a duras penas se recuperar de uma crise e a espectro social quem mais sofre em alguma instabilidade financeira é a classe baixa. E é nesse cenário que se situam os personagens de Como é Cruel Viver Assim, novo longa de Júlia Rezende conhecida por trabalhos como Meu Passado me Condena e Ponte Aérea.

Vladimir (Marcelo Valle) está desempregado e se vê fracassando em mais uma tentativa de colaborar com as contas de casa, Clivia (Fabíula Nascimento) herdou uma lavanderia que a duras penas se mantém funcionando, e é o ganha pão do casal, Regina (Deborah Lamm) é uma cuidadora que sem emprego e moradia, dorme na casa da amiga dona da lavanderia, e Primo (Sílvio Guindane) um homem meio atrapalhado que ainda não conseguiu sair da casa de sua mãe, todos são moradores da baixada fluminense e vivem suas vidas sem luxos ou privilégios. Cansados da realidade dura que os cercam e em busca de algo que norteie o futuro, eles decidem se unir para juntos realizarem o plano absurdo de sequestrar um milionário, isso sem possuir nem uma experiência com a vida à margem da lei.

O primeiro aspecto que chama atenção no longa é a fotografia, apesar do desenho de luz ser bem executado, a decisão de utilizar tons de verde causa um estranhamento, pois afinal estamos assistindo uma comédia e essa cor, com esse tom, não é utilizada para essa finalidade com frequência. O estranhamento passa quando aos poucos vamos percebendo que muito além de ser uma história cômica, o longa é em primeiro lugar um drama, não daqueles que nos fazem chorar, mas que nos fazem rir perante ao absurdo que as coisas podem chegar, e em segundo lugar um drama criminal que é de onde se herdam os tons de verde citados.

O roteiro de Fernando Ceylão embora verborrágico possui personagens reais, e alguns com camadas que vão além do estereótipo. Ceylão consegue inserir a trivialidade como elemento humorístico em meio ao mau momento de seus protagonistas, além de mostrar ao público a falta de tato que eles têm com o mundo do crime. Sabe aquele famoso diálogo de Pulp Fiction do Royale with Cheese? Temos mais ou menos a tentativa de fazer esse mesmo tipo de conversa aleatória.

A direção de arte também é um ponto marcante para quem conhece ou vive a realidade semelhante a dos personagens desta história, pois em cada um dos ambientes parece que existe uma família de verdade vivendo por ali, cheio de pequenos detalhes, uma mobília que não combina com a outra, uma riqueza de elementos aleatórios por todos os cantos. O figurino também chama atenção, as roupas de Vladimir parecem gastas como se já tivesse sido utilizada por ele inúmeras vezes, trás uma verdade visual para o longa.

A edição do longa, no entanto, tenta fazer um tipo de humor que não convence ao mostrar um personagem dizendo algo, e na cena seguinte fazendo o completo oposto, até é engraçado nas primeiras duas vezes, mas cansa.

O melhor do elenco fica a cargo de Marcelo Valle, mesmo que seu personagem tenha aspectos do “carioca malandro”, Vladimir tem um certo incômodo a respeito disso, ele sofre com sua situação e existe uma entrega emocional muito grande por parte do ator, ao ver uma mulher vendendo bolo e ninguém dando a mínima ele se sente mal, ao chegar em casa e ver sua mulher usando um vestidos de segunda mão, que os donos foram buscar em sua lavanderia, ele fica pior. É como se sua masculinidade estivesse sendo posta à prova por não poder fazer algo que lhe dê orgulho. Além disso, todos passam o tempo todo falando sobre o potencial que ele tem e nunca alcança, colocando ainda mais pressão nos ombros do personagem e reforçando a necessidade dele de tentar algo grandioso.

Fabiula Nascimento faz uma voz irritante o tempo inteiro, e a ingenuidade de sua personagem é cansativa, entre seus absurdos está o de pedir ajuda para o ex-namorado assaltante e ainda dizer em frente a ele que “Eu queria casar, só não com você”, como se fosse a coisa mais simples do mundo. A atitude da atriz talvez sirva para retratar uma pessoa humilde, mas a escolha para a voz soa errada. O ponto positivo é que em alguns momentos a preocupação que a personagem tem com o bem estar dos amigos e do sequestrado, gera alguns risos leve.

Débora Lamm e Sílvio Guindane fazem personagens mais unidimensionais e com certa previsibilidade, pois apesar dos esforços, Regina é uma personagem exagerada que tenta levar vantagem em tudo, e Sílvio é o fiel amigo atrapalhado que cedo ou tarde pisara na bola com todos.

Milhem Cortaz faz um bandido apaixonado e está bem, mas com pouco tempo para fazer mais pelo personagem. Paulo Miklos também interpreta um bandido, ele é o elo de ligação entre o personagem de Otávio Augusto e o grupo inexperiente. Miklos entrega o mesmo de sempre, embora seja bom, parece que está lendo o texto, ou neste caso, gritando as palavras escritas nele. Otávio Augusto tem sem dúvidas o pior personagem do longa, uma espécie de Vito Corleone que na verdade deveria ser engraçada, mas não é.

Mas o grande acerto é a relação de Clívia e Vladimir. A relação dos dois é bonita, Clívia apoia o marido mesmo não precisando, a boa atuação de Marcelo mostra aquela irritação do casal que passa segundos depois. Julia Rezende sabe como fazer um romance parecer real.

Apesar dos clichês apresentados e do roteiro previsível, Como é Cruel Viver Assim causa uma empatia e é consegue fazer o público compadecer com as dificuldades daquelas pessoas. É um filme que tem um carisma em meio a todo drama. Júlia Rezende aposta em um filme que foge um pouco dos seus longas anteriores, mas acerta onde já está familiarizada.



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