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Crítica: Arranha-Céu: Coragem Sem Limite

Arranha-Céu: Coragem Sem Limite ainda soa muito como o primo pobre de obras bem melhores no quesito de gênero, como é o caso da franquia Missão Impossível ...
Arranha-Céu: Coragem Sem Limite

Confirmando seu status de maior astro do cinema de ação da atualidade – e provavelmente o mais atarefado também –, Dwayne Johnson chega mais uma vez aos cinemas em mais um puro exemplar de gênero apenas 3 meses após estrelar Rampage – Destruição Total e há 6 meses de Jumanji: Bem-vindo à Selva. Ocupando um posto que já foi de Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e outros mais marcados pelas imagens de “brucutu” praticamente invulneráveis dos anos 1980, The Rock tem mais a cara dos dias de hoje: é mais boa praça, simpático e família. Embora esteja longe de apresentar um alcance dramático digno de prêmios, tem carisma que desperta simpatia do público e massa muscular na hora de encarnar o durão.

Talvez pelo equilíbrio entre as duas coisas é que seus personagens funcionam melhor quando mostram pelo menos uma característica que os torne mais humanos (a exceção fica para os trabalhos onde o que vale é a brincadeira com o estereótipo, como em Velozes e Furiosos). Por isso caiu bem (dentro dos limites de uma grande força de vontade) para o herói deste novo Arranha-Céu: Coragem Sem Limite, seu 3º blockbuster no ano. Se caso tivesse entrado com um roteiro um pouco mais inspirado em algo como o 1º Duro de Matar, o resultado não soaria tão genérico – embora há de admitir, funcional se você não espera absolutamente nada de novo.

Will Sawyer (Dwayne Johnson) é um ex-agente de operações do FBI aposentado depois de perder parte da perna esquerda em uma ação de resgate. Anos depois, após se tornar um especialista em segurança de arranha-céus, ele se prepara para um trabalho de inspeção no mais novo – e mais alto – prédio do mundo, em Hong Kong, projetado pelo magnata Zhao Long (Chin Han). Assim que começa o serviço, o local é invadido por bandidos, liderados por Kores Botha (Roland Moller), que pretendem incendiar toda a estrutura, colocando em risco sua mulher Sarah Sawyer (Neve Campbell) e seus dois filhos.

A história do ex-combatente, ex-soldado, ex-agente ou qualquer derivado que é levado a enfrentar um perigo enquanto lida com algum trauma é mais do que clichê, e é justo dizer que a obra não pretende, de fato, ser mais do que isso. Dessa vez, ao invés de ser o tipo mais indestrutível similar a outros, o protagonismo de Sawyer e até mais palpável do que se esperaria. Munido de um conflito na esfera pessoal vindo de uma escolha malfeita no passado e uma deficiência física que certamente o dificultaria em lutar com gorilas gigantes, ele se sai melhor em um “mero” combate com terroristas e um edifício em chamas. O acerto vai pelo fato dessas características servirem como pontos de fraqueza que impedem um desligamento total com a expectativa do público, mesmo que, eventualmente, até sejam usadas como armas absurdas e improváveis para sair de situações de vida ou morte – até aí, nada diferente do que se espera da proposta.

Mérito também da capacidade de Dwayne Johnson em despertar uma afeição imediata com o espectador através de uma mistura de dignidade, humildade e bravura, aquela figura natural do herói comum que o cinema americano tanto adora projetar. Detentor de habilidades táticas e com treinamento militar (como quase todos os seus personagens), ele é o selfmade que iniciou uma empresa depois de perder quase tudo e agora veste um terno para se encontrar com o empregador de um trabalho promissor; até o momento em que se tornará quase um MacGyver, mas com um pouquinho mais de vulnerabilidade. Ajuda, claro, o fato dele ao menos apanhar um pouco, se machucar e mostrar algum desespero quando tem sua família ameaçada. Daí vem também outra qualidade que é permitir uma personalidade básica para Sarah e os filhos (estes nem tanto...), que tem as próprias batalhas para percorrer, não se tornando tão dependentes do arco principal, além de possuírem um mínimo de caracterização que ajuda a dar um peso para a jornada do protagonista. Portanto, há um fator humano na história que oferece ao menos algum alento para uma trama batida.

Esta, roteirizada pelo próprio diretor, Rawson Marshall Thurber, sabe que não precisa perder muito tempo tentando dar muita seriedade ou explicações mirabolantes. Os motivos são apresentados rapidamente e os personagens são logo colocados em suas funções pré-estabelecidas. Sim, várias delas não vão além de um raso artifício, como acontece com o vilão de Roland Moller, ou a assassina com ares de ninja interpretada por Hannah Quinlivan, que é apresentada para depois sumir por boa parte da projeção; outros são tão ridículos que parecem ter saído de uma sátira, como o funcionário de seguros misterioso Mr. Pierce (Noah Taylor). No mais, há bastante exposição desnecessária e daquelas piores possíveis, colocando personagens que se conhecem há anos repetindo informações que certamente já conhecem; e como se não bastasse, eles ainda falam sozinhos para que o público tenha alguma chance de entender o falatório técnico que envolve o funcionamento da alta tecnologia do sistema de segurança do prédio. Ainda assim, algumas boas tiradas acontecem, como a piada recorrente com uma fita isolante e suas múltiplas utilidades, o que acaba servindo como uma brincadeira sobre os artifícios “mágicos” dos heróis comumente empregados nos filmes de ação.

Já na direção, Thurber alterna entre bons e maus momentos. O que público quer, afinal, em um filme desses é ver o herói escapando de situações diversas das maneiras mais fantásticas possíveis. Nesse sentido, a obra se sai bem quando o protagonista está sozinho lutando contra a própria estrutura, pendurado a alturas enormes e constantemente enquadrado em torno de espaços abismais, obrigado a saltar grandes distâncias enquanto lida com as próprias limitações. Tudo isso auxiliado até pela projeção em 3d, que, ao menos nesses momentos, consegue utilizar a profundidade de campo a favor para nos colocar na vertigem do personagem – ponto para uma tecnologia que mais erra do que acerta.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito nos embates com os vilões. Aí sim a dimensão extra passa a ser um empecilho a mais quando os confrontos corporais já são filmados de uma maneira caótica, em lutas picotadas por uma montagem frenética demais e enquadramentos que jamais permitem saber o que está acontecendo, o que torna boa parte da ação do filme decepcionante. Fora isso, a estrutura concebida pelo cineasta acaba se mostrando uma faca de dois gumes, pois basicamente tudo que acontece no 1º ato é uma pista que será indubitavelmente utilizada como um recurso da ação futuramente. Algumas delas até funcionam, outras são tão telegrafadas que fica impossível ter alguma surpresa – dessas, as que envolvem o design no arranha-céu são as mais delicadas, já que parecem ter sido concebidas apenas com a preocupação de servirem como elementos de catarse visual, mesmo que nada funcionais, o que também mostra um exagero na concepção dos ambientes (se você não parar para pensar muito, o topo do edifício serve como uma boa ambientação para a ação, desde que não se questione muito...).

Mas o ponto é exatamente esse: não se perguntar muito sobre a lógica. Não que este seja o problema – muito mais em termos de direção do que os limites da suspensão de descrença –, mas Arranha-Céu: Coragem Sem Limite ainda soa muito como o primo pobre de obras bem melhores no quesito de gênero, como é o caso da franquia Missão Impossível, por exemplo, cuja 6ª parte está próxima a estrear. Talvez esse seja justamente o preço a se pagar por querer tantos exemplares iguais em pouco tempo. Se tem alguém que está satisfeito com isso, certamente é Dwayne Johnson.


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