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Crítica: Hereditário

O fã do cinema de gênero vai se deleitar com uma produção assustadora, personagens odiáveis, atuações excelentes e uma história que te deixa sem saber onde vai parar.
Crítica: Hereditário

“Impactado” e “nunca mais eu vou dormir”, foram as frases que utilizei ao conversar com alguns amigos logo depois de ver a este filme.

Atualmente o gênero de terror tem nos entregue belas surpresas como Corra! (2017), Sombras da Vida (2017), Um Lugar Silencioso (2018) e A Bruxa (2016), este último é o mais importante dos citados pois é o que se assemelha mais em termos de ritmo e estrutura narrativa com o analisado da vez. Além disso, ambos são da A24, estúdio que costuma apostar em filmes menores e mais baratos, mas que entregam qualidade e inovação, vide o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016, Moonlight.

Pois bem, depois do falecimento de sua mãe, Annie (Toni Colette) começa a descobrir um pouco mais sobre o passado dela, coisas peculiares vão sendo reveladas, e acredite, quanto menos souber melhor.

O longa começa parecendo um drama sobre aceitação e luto, as dificuldade de uma família em se reestruturar e seguir em frente após uma perda, e isso se segue ao longo das duas horas de projeção. Porém, o peso dramático aos poucos vai dando lugar a uma trama assustadora e um clima de tensão que é capaz de te deixar na ponta da cadeira.

Tanto a direção quanto o roteiro são assinados pela mesma pessoa, o estreante Ari Aster, que toma atitudes corajosas ao quase não se utilizar de jump scares - o importante aqui não é dar susto, é causar medo - e por não verbalizar os eventos do filme de maneira excessiva, ele te conta o que vai acontecer, mas você precisa estar atento.

Em seu primeiro terço o filme trata de se aprofundar mais na família, trabalhando a personalidade de cada um e os aspectos psicológicos, criando assim um senso de empatia com alguns personagens. Lá pelos trinta minutos você começa a acreditar que sabe qual caminho a estória vai seguir, mas até quando a alternativa mais óbvia é inserida, rapidamente ela é descartada e o acontecimento que traz essa mudança é no mínimo perturbador. E por deixar suas previsões de lado, assim como O Bebê de Rosemary (1968), o filme vai se tornando cada vez mais tenso e assustador apenas sugerindo que em algum momento, você não sabe qual, mas em algum momento alguma coisa muito pior pode acontecer, e não ter ideia do que esse “muito pior” pode ser, é aterrorizante.

Outro grande acerto tanto do roteiro quanto da direção está no recorte de família escolhida, a palavra Hereditário, é utilizada (mas nunca dita do filme) de todas as maneiras possíveis, chega a ser encantador ver Annie presa a um trabalho que era o mesmo de sua mãe, pois este é algo “Hereditário”.

Toni Collette já foi indicada ao Oscar por O Sexto Sentido, mas ela nunca esteve tão bem quanto aqui, sua personagem passa por todos os tipos de sentimentos e ela é capaz de expressar todos eles com maestria. Quando Annie chora, você vê verdade, a raiva que a personagem sente é a mesma que o público sentiria, o investimento emocional da atriz carrega o longa, sem ela o filme não existe, apenas com sua bela atuação somos capazes de viver juntos a degradação mental daquela família. E o desespero dela ao perder um ente querido é de travar a garganta.

Gabriel Byrne é o que tem menos tempo em tela e menos cenas para demonstrar seu potencial, sua atuação é difícil, pois seu personagem internaliza tudo que está sentindo, a maioria de suas ações são tentativas de dar suporte a sua esposa, Annie, e por vezes fica a sensação de que ele está reprimindo seus sentimentos.

Alex Wolff, que já havia feito uma boa participação em O Dia do Atentado (2017) dando vida ao terrorista Dzhokhar Tsarnaev, aqui, assim como Gabriel Byrne, seu personagem precisa internalizar a maioria de seus sentimentos, mas aos poucos as situações que o envolvem vão se tornando mais absurdas e reprimir o que sente se torna mais difícil. Apesar das dificuldades o trabalho é bom e convence quando exigido.

Por fim, Milly Shapiro, em seu filme de estréia, consegue te fazer gostar de uma personagem, acha-la esquisita – além da boa atuação, um bom trabalho de maquiagem ajuda na caracterização da jovem - e por fim odiá-la. Charlie tem um tique de estalar a língua que durante o filme vai se transformando em algo cada vez mais assustador, a jovem não só manda bem, como a sua personagem é uma espécie de estopim para a estória do longa ir se tornando mais amedrontadora. É muito promissor o futuro dessa atriz de quinze anos.

A fotografia fica sempre entre tons de amarelo e azul, algo que tem se tornado frequente nos filmes de horror, e tem belo trabalho de sombras. A grande reclamação com alguns filmes do gênero provem da falta de iluminação em alguma cenas. Em Hereditário, isso não acontece, mesmo que a cena seja bem escura, ainda é possível se ambientar e visualizar o que está na tela. As composições têm uma maneira de enquadrar as personagens como se fossem miniaturas das casas que Annie produz, passando um senso de que algo controla e observa aquela família.

Criar uma atmosfera quase palpável para um filme de terror é um trabalho difícil, para isso os eixos técnicos precisam estar bem alinhados, o design sonoro e a trilha sonora constroem bem essa ambientação, ao longo da exibição ela vai se tornando mais presente e sufocante, os ruídos inseridos e os momentos de silêncio são bem encaixados.

Outro aspecto técnico que se sobressai é a edição, o filme te mostra imagens perturbadoras só por tempo necessário para não esquece-las e logo na sequência corta para uma com o ritmo e clima completamente oposto. O ritmo é cadenciado, tomando tempo para que a construção seja feita no tempo certo, em nenhum momento o filme parece apressado. Logo na sequência de um plano estático vemos um com muitos movimentos de câmera, mostra de um bom trabalho de direção e edição.

Hereditário deve sofrer o mesmo tipo de reação que A Bruxa sofreu, o grande público pode se importar pouco, mas os fãs do cinema de gênero vão se deleitar com uma produção assustadora, personagens odiáveis, atuações excelentes e uma história que te deixa sem saber onde vai parar.

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