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Crítica: Berenice Procura

Com uma proposta interessante, discorrendo acerca de temas bastante importantes e em voga, com um elenco, em sua maioria, afiado, Berenice Procura assoma entre as atuais produções nacionais.
Berenice Procura

A representatividade tem sido uma questão cada vez mais debatida na mídia e pelos indivíduos. Um espaço maior vem sendo reivindicado pelos grupos minoritários em prol de uma condição mais equânime. As questões de gênero vêm ganhando destaque e sendo frequentemente discutidas, visto a conscientização quanto a falar sobre para que a problematização possa gerar mudanças. Tendo em vista a importância da representatividade e da discussão de gênero na sociedade, podemos falar sobre a potência que o filme nacional Berenice Procura corresponde.

O longa acompanha a protagonista Berenice (Cláudia Abreu), uma mulher forte, mas em uma profunda crise existencial. Dividindo o tempo entre a casa, os afazeres domésticos e a profissão de taxista (que assumiu após a morte do pai, antigo dono do táxi que passa dirigir), ela ainda precisa lidar com um marido (Eduardo Moscovis) machista e conservador, que não consegue aceitar o fim do casamento, bem como com um filho (Caio Manhente) de 15 anos com o humor típico dos adolescentes em fase de descoberta da própria sexualidade. Em meio a esse turbilhão, Berenice acaba envolvida na investigação do assassinato de uma transexual recentemente ocorrido em Copacabana.

Por falar em Copacabana, o bairro carioca não é apenas cenário dos acontecimentos da narrativa, mas praticamente um personagem. O bairro, famoso por seu calçadão, surge com imponência: o filme já se inicia na renomada praia, com uma criança jogando bola e, de repente, deparando-se com um cadáver. “Mais um travesti morto na cidade maravilhosa” poderia ser a notícia acerca do ocorrido (e, inclusive, surge como algo similar). Expondo a banalização de um assassinato que contém chances de corresponder a crime de ódio, bem como o desrespeito para com a vítima – referida pelas reportagens como “um/o travesti”, não importando, que, na verdade, trata-se de uma mulher transexual (Valentina Sampaio) –, a trama denuncia a transfobia tão presente na nossa sociedade, a ponto de mal podemos percebê-la, seja por meio tanto da violência física e visível quanto da invisível.

Tendo em vista que um cadáver encontrado em plena manhã em uma praia não há como ser ocultado, o crime acaba virando notícia nos telejornais. A forma como a situação é tratada é construída narrativamente a fim de ressaltar o descaso policial e o sensacionalismo barato e mesquinho da mídia. As autoridades demonstram apenas querer encerrar o caso o mais breve possível, promovendo interrogatórios a fim de encontrar um culpado antes que o assassinato cause ainda mais alarde. Enquanto isso, o repórter da rede de TV local (Eduardo Moscovis – o marido de Berenice) age de modo a explorar a dramatização em torno do ocorrido em prol da audiência, chegando a fazer a cobertura até mesmo do velório da vítima.

O desenrolar dos fatos vai percorrer diversos espaços periféricos e abordar temas de grande importância. O longa traz à cena uma favela em contraste com a Zona Sul do Rio de Janeiro, bem como criminalidade, a vida noturna, uma boate LGBT, drag queens, lésbicas, gays, transexuais, um adolescente em momento de construção identitária, uma mulher em busca de seu próprio espaço, o contraste entre o conceito de família tradicional, novas configurações de família e uma família em desarranjo.

Adaptação de um livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza publicado em 2005, o filme ressignifica a imagem da vítima, que no romance, era uma travesti – visto seu contexto, no qual a transexualidade ainda não era tão abordada –, surgindo na telona como a mulher transexual Isabelle. A representação dessa minoria e dos seus dilemas é profunda e sensível, sendo bem executada pela preocupação com as minúcias e sutilezas dessa realidade marginalizada. Ainda no viés da identidade de gênero, problematiza muito bem a busca de uma compreensão da própria sexualidade suscitada pela puberdade, momento no qual a liberdade para uma autoexploração facilita o encontro de si mesmo e de suas próprias vontades, em contraponto ao cerceamento, que apenas produz um recalque dos desejos íntimos.

Embora descortine e alvitre um debate acerca do preconceito e da transfobia, como o próprio título anuncia, Berenice Procura traz uma mulher em busca, acima de tudo, de se encontrar: Berenice está à procura de espaço, de protagonismo, de liberdade, de independência (financeira, emocional, sexual). Essa procura, essa inconformação a mantém num entre-lugar: ela é dona de casa, mas também taxista; ela está convicta de que seu casamento já acabou, porém ainda vive sob o mesmo teto que o marido; ela se preocupa com o filho, quer mais intimidade com ele, mas tem dificuldades para se aproximar; ela lida com parte dos afazeres domésticos, mas relega outros à praticidade (como comprar quentinha para não precisar mais cozinhar). Berenice é uma mulher em processo de transformação e autoconhecimento.

Com direção de Allan Fiterman e roteiro de Flávia Guimarães e José Carvalho, o longa conta com um elenco principal de peso. Cláudia Abreu e Eduardo Moscovis entregam interpretações bastante viscerais: ela como uma mulher comum, simples, forte e batalhadora, apesar de fragilizada; ele como um homem viril, machista, conservador e explosivo. Vera Holtz também é destaque, roubando a cena no papel da dona de uma boate LGTB detestável e gananciosa. O contraponto é justamente que, por querer abrir espaço para novos nomes, em prol da representatividade, formou-se um elenco que inclui pessoas que não são atores e atrizes (ou iniciantes, sem experiência), que portanto, consequentemente, apresentam atuações esforçadas, porém pouco convincentes.

Outro problema dessa produção nacional é apontar para dois caminhos e não se estabelecer solidamente em nenhum deles. Por um lado, propõe-se como um suspense investigativo, entretanto, não instaura uma aura de mistério nem mesmo aguça a curiosidade do espectador quanto a trilhar um percurso de tensão gradativa, tendo em vista o constante surgimento e entrecruzamento de subtramas que abafam uma possível exploração do suspense. Por outro lado, também se assume como drama, o que funciona bem, aliás, por meio de uma boa construção dos dilemas vividos pelos personagens, porém poderia ser melhor explorado caso esse teor dramático convergisse para uma mesma direção, intensificando-se, em vez de ser distribuído entre vários focos.

O que se assemelha ao estranhamento causado pelo uso e abuso de desfoque pelo diretor: em diversos momentos, enquanto uma determinada ação acontece, o diretor direciona o foco da câmera para outro ângulo da cena, deixando justamente o ponto de movimento e ação desfocado. Bem como em uma cena de sexo que ocorre dentro de um veículo, quando é utilizado não apenas o desfoque, mas também uns closes completamente desconcertados, que causam no espectador uma impressão de desorientação do diretor (que, talvez, poderia não saber o que filmar e preferiu fazer uns closes bem aleatórios, que acabam por arruinar a referida cena). Pode ser que, tanto na direção estética quanto na da trama, a incerteza a respeito dos fins pretendidos tenham comprometido um pouco a qualidade desta produção, que, a despeito dessas observações, merece destaque e atenção.

Com uma proposta interessante, discorrendo acerca de temas bastante importantes e em voga, com um elenco, em sua maioria, afiado, Berenice Procura assoma entre as atuais produções nacionais. Ainda que seu pretendido diferencial possa se ver esmaecido devido à falta de maior contundência, de todo modo, o longa pode ser considerado como uma grata surpresa em nosso cinema.


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