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Crítica: As Boas Maneiras

Certamente inusitado para o grande público, mas com qualidade inquestionável para quem aposta em um cinema de gênero com traços autorais
Crítica: As Boas Maneiras

Uma das coisas que mais se escuta quando o público brasileiro, acostumado a não ver a maioria das ótimas obras do próprio cinema, brada quando decide resumir nossa produção em uma sentença é que “aqui tudo é social, favela e político”. Uma simplificação que parece se moldar perfeitamente para uma justificativa de que não se faz cinema de gênero no país. É criado um sistema binário onde se acredita que para que o Brasil seja capaz de criar e desenvolver um grande mercado independente é necessário que se foque nos formatos puros e nas fórmulas (que são fórmulas porque funcionam), enquanto que os “filmes de arte” ficam ali nos festivais sendo apreciados por uma minoria.

De fato, se faz pouco desses filmes por aqui. Fora as comédias largamente produzidas e distribuídas pela Globo e os dramas novelísticos disfarçados de cinematográficos, as tentativas de se enveredar pela ficção científica e terror, por exemplo, representam uma minoria. Essas produções inevitavelmente irão se deparar com a escolha: ou eu sigo toda a cartilha e aposto no sucesso comercial ou eu tento algo diferente que junte nossa identidade às convenções do gênero.

Se pensamos na 2ª saída, é impossível não lembrar do trabalho da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas. Já se tornando marca registrada o horror com verve social, os cineastas têm uma filmografia marcada pelo passo além, a confiança de que o público saberá absorver sua realidade a projetá-la em filmes de monstros e espíritos. Exemplo que representa bem isso é o ótimo Trabalhar Cansa, exibido no Festival de Cannes de 2011, suspense/horror que tomava o cidadão de classe média no meio da crise econômica e materializava seu medo em uma história ousada e muito tensa. Dessa vez, aliado ao esmero técnico costumeiro, seu último trabalho, As Boas Maneiras, vencedor do Festival do Rio em 2017, retorna ainda mais decidido a fazer cinema de gênero sem deixar de enriquecer sua narrativa com elementos sociais, políticos e folclóricos.

Na trama, Ana (Marjorie Estiano) é uma jovem solteira de classe média alta que contrata uma babá, Clara (Isabél Zuaa), com o intuito de prepará-la para cuidar do filho que nascerá em pouco tempo. À medida que a gravidez avança, ela começa a apresentar um comportamento cada vez mais estranho e Clara nota que há algo de errado no ambiente e sua relação com Ana fica cada vez mais misteriosa.

Se pareci vago na sinopse é porque foi proposital. Deixar que o espectador absorva todos os pontos que vão sendo plantados na trama é essencial para que a proposta de Dutra e Rojas funcione. Extremamente habilidosos em conceber um clima tenso e incômodo, a dupla já mostrou o que sabe em trabalhos anteriores, mantendo aqui a constante sensação de que algo está errado a todo momento, inclusive quando não deveria. Em cada diálogo, cada ambiente e cada sequência, a estratégia é incrivelmente eficiente, já que durante boa parte do filme (e da 1ª metade) não sabemos o que está acontecendo, mas mesmo assim o clima se mantém mergulhado em um mistério responsável por nos manter investidos na trama o tempo todo.

Narrativamente estruturado como uma mistura de drama de personagem com elementos de horror, essa 1ª parte do filme é impecavelmente uma jornada angustiante pelas personalidades de Ana e Clara, construída ao redor de situações que se encaixariam originalmente em um suspense psicológico e que aqui encontram uma harmonia curiosa nas mãos dos diretores. Enquanto observamos o relacionamento entre as duas sendo construído cuidadosamente, os sinais de que não estamos em uma realidade parecida com a nossa estão sempre presentes. Desde a mudança no tom e na fotografia em momentos específicos que colocam Ana em sonhos aterrorizantes, até no trabalho de design de produção e som, as escolhas na ambientação e na trama tratam de preparar o terreno para que o filme vá se transformando num exercício peculiar de gênero (ou vários deles), sem que haja a necessidade de um discurso direto que explique tudo.



Dessa maneira, os diretores fazem questão de salientar o aspecto fantástico da obra quando, por exemplo, retratam os planos de fundo da cidade como pinturas distantes e estilizadas, como se traduzissem o aspecto de uma fábula moderna em flertes com a realidade – os colocando, inclusive, para contrastar com os ambientes relativos a Clara e ao interior do apartamento de Ana. Já este é onde se passa grande parte da 1ª metade do filme e é onde os diretores tem espaço para trabalhar o local como parte essencial – com o destaque ficando para forma como a fotografia de Rui Poças faz com que as incursões noturnas de sonambulismo de Ana ganhem um aspecto de mistério potencializado no mergulho em azul lunar com interrupções rubras; enquanto que o som segue o melhor estilo contido, intensificando os silêncios e os ruídos reverberantes, e se traduzindo em detalhes significativos – como quando Clara parece estar empurrando o portão de um castelo ao entrar pela enorme porta do apartamento de Ana. A transição de drama com elementos sobrenaturais para uma fantasia que brinca com folclores famosos é bastante eficaz e os recursos responsáveis por isso vão surgindo, antes pontualmente, numa crescente que nos acostuma à abordagem.

Boa parte de nosso investimento na obra se deve à atenção dada às suas personagens principais. Fazendo algo que os bons exemplares do tipo vêm fazendo pelo mundo todo ultimamente, o roteiro – também de Dutra e Rojas – permite que os comentários sociais da história sejam parte integrante do terror psicológico e direto da narrativa, sem que jamais figure como uma subtrama panfletária deslocada. Assim, grande parte de um passado complicado de Clara, caracterizado com uma precisão assombrosa de Isabél Zuaa, transparece com um peso no olhar que se liga na maneira como sua classe foi acostumada a ser tratada e de como ela também foi treinada a não insistir muito ao questionar (basta ver, por exemplo, como Ana assume rapidamente que o serviço de babá englobará automaticamente todas as tarefas de uma empregada doméstica). Endurecida pelas circunstâncias, ela representa determinação ao mesmo tempo em que demonstra empatia sempre que Ana sente os incômodos da gravidez ou revela as lamentações de um passado recente – elementos críticos que são constantemente usados para aprofundar a dimensão dos conflitos na trama.

Não só por parte de Clara, mas Ana, que inevitavelmente surge para o espectador como uma patricinha mimada que se preocupa em manter as aparências fazendo compras em lojas caras, logo ganha camadas que atingem em cheio nosso julgamento precipitado, revelando um passado igualmente trágico e comovente, independente da diferença de classes. Auxiliada pela abordagem da dupla de cineastas – adotando uma estratégia de estender a permanência dos planos nos rostos das atrizes enquanto suas personagens reagem, evitando o usual vai e vem dos planos e contraplanos – Marjorie Estiano brilha com uma performance inesperadamente vulnerável e seu afeto crescente por Clara é perfeitamente compreensível nas circunstâncias apresentadas. Além de conseguir, em pouco tempo, expor certas tendências e pequenas tradições que ainda insistem em se esconder nas relações rotineiras, o envolvente clima da obra cria uma bela relação de necessidade mútua entre duas personagens tão diferentes, subvertendo as expectativas criadas. Aliás, todo o impacto que o horror do filme consegue se deve justamente pelo envolvimento emocional que temos com elas. Quanto mais nos vemos na tela, mais sentimos seus temores e, principalmente, seus medos.

Se nessa 1ª metade temos um exemplar impecável de um drama/terror, é na 2ª que o caminho escolhido pelos diretores se mostra ainda mais ousado. Assumindo mais diretamente a estrutura de uma fantasia (baseada em um folclore bastante reconhecido por qualquer um), mas delimitada por ambientes mais reais, a história muda e decide quase que recomeçar um outro filme a partir das consequências do primeiro. Em termos dos elementos característicos e a própria forma narrativa, a dupla mantém a fidelidade com as convenções que escolheu (com direito até a segmentos musicais), mas também perde parte de sua força por não contar mais com a tensão quase insuportável e o mistério impressos anteriormente, o que era parte imprescindível. Sem isso, toda uma boa (e longa) parte de As Boas Maneiras sobrevive mais como um exercício de narrativa cinematográfica (não que isso seja um problema por si só) sem a substância que havia anteriormente.

Fora isso, as atuações mirins oscilam bastante e a decisão de escancarar as ameaças visualmente tiram boa parte do impacto que uma direção mais comedida poderia oferecer – basta notar que já seriam suficientes os momentos em que são mostradas as consequências das ameaças em certos personagens sem que fosse preciso mostrar todo o processo (tentando ser vago novamente para evitar os spoilers...). Não que o resultado seja ruim (o trabalho de computação gráfica é competente), mas o impacto causado pela excelente maquiagem prática na 1ª parte é bem mais eficiente e continuaria assim caso fosse usado com parcimônia na 2ª. Ainda assim, é possível absorver bastante coisa em relação aos paralelos temáticos desenvolvidos anteriormente, principalmente levando em conta o arco de Clara e como as imposições da trama refletem em seus conflitos.

Certamente inusitado para o grande público, mas com qualidade inquestionável para quem aposta em um cinema de gênero com traços autorais, a repetição dessa parceria reforça o ótimo trabalho da dupla. Assim como seus filmes anteriores, Quando Eu Era Vivo (2014, Dutra e Gabriela Amaral), O Silêncio do Céu (2016, Dutra), Sinfonia da Necrópole (2014, Rojas) e Trabalhar Cansa (2011, Dutra e Rojas), As Boas Maneiras continua um caminho possível para este cinema que tanta gente (eu incluso) almeja – e sem parecer que está unicamente tentando sê-lo.


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