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Crítica: Tungstênio

Tungstênio tem a difícil missão de adaptar uma história em quadrinhos que tem uma bagagem internacional e uma qualidade inquestionável, que praticamente clamava por uma adaptação nas telonas.
TUNGSTENIO

Dirigido por Heitor Dhalia, dos excelentes O Cheiro do Ralo e Nina, Tungstênio tem a difícil missão de adaptar uma história em quadrinhos que tem uma bagagem internacional e uma qualidade inquestionável, que praticamente clamava por uma adaptação nas telonas.

O longa mostra uma realidade “esquecida” de Salvador – Bahia, e tudo começa com um evento de crime ambiental de dois pescadores, os dois homens utilizam bombas para pescar peixes, e este ato é o responsável por desencadear diversos acontecimentos que criam uma espiral violenta e realista, e aí começam as histórias de Seu Ney, Caju, Keira e Richard.

A história brinca muito com o tempo em que todo o causo ocorre, alguns trechos são passados mais de uma vez por diferentes pontos de vista, algo que o faz lembrar a edição e montagem de Cidade de Deus. A edição, aliás, faz um excelente trabalho e ajuda muito na criação de tensão do filme, toda a história envolve uma crescente de tensões e violência, mas a conclusão é que é a chave, como feito durante os 90 minutos, o filme encerra de maneira crua e realista, não sabemos ao certo o que acontecerá com as personagens, nem como a vida delas vai ser depois daquela tarde, um gosto de angústia pode ser sentido, e a busca de resolução de seus objetivos se fecham, mas não se pode dizer que é da maneira que o público espera.

A trilha sonora conta com um berimbau que lá pela metade da produção a cada vez que toca causa mais tensão, e a sensação de que algo pior pode acontecer.

As atuações do filme são boas, o jovem Wesley Guimarães que da vida a Caju, um personagem que é um pequeno traficante da região tentando lutar por sua honra e sobreviver um dia após o outro, é também quem tem o melhor desenvolvimento em cena, e o responsável por abrir e fechar o filme. Zé Dumont faz um ex-militar que sente falta dos tempos de ditadura, dos tempos em que ele ajudava a governar o país, um comentário ácido sobre a nossos “vizinhos” de hoje em dia e a postura de pedir intervenção militar em tempos de protestos.

O narrador interpretado por Milhem Cortaz tem um jeito provocativo e contraditório. Diferente de um condutor para a trama, aqui a função dele é de instigar novos eventos, e até aborrecer o público, ele também é um espectador de sua própria história, mas ele interage com ela, ele está na cabeça de Seu Ney, no ouvido de Caju, e nos pensamentos de Richard. A voz do filme é como um agente do caos que permeia por toda a obra, o problema é que em diversos momentos ele incomoda sendo apenas uma maneira desleixada de dizer exatamente o que já é mostrado em cena, ou pior, dizendo algo que deveria ser mostrado, mas que não foi.

Samira Carvalho tem nas mãos uns dos personagens mais difíceis do filme, suas cenas envolvem violência, sexo e muito peso emocional, Keira vive um relacionamento abusivo, e a dificuldade de lidar com essa carga é sentida em alguns pequenos momentos, mas no geral sua atuação é convincente, infelizmente, a ausência de diálogos e a necessidade do filme de estar sempre num nível crescente dificulta para que a atriz seja vista de maneira mais ponderada, vale dizer também que ela é a única atriz do elenco a não fazer parte da região nordeste e que o sotaque de Keira é um grande esforço de sua interprete. Felipe Bolivera vive Richard um policial que não tem medo de partir para ação, e ele entrega isso ao público, nos raros momentos em que ele e Keira não estão brigando, ou que o personagem não está gritando (quase todo mundo no filme faz isso), é possível ver um homem capaz de ser sedutor, extrovertido e até perverso.

A cinematografia é muito ágil e tenta a todo instante trazer aspectos dos quadrinhos com a uma visão que já ocorre nos antigos trabalhos de Dhalia, planos quase claustrofóbicos, sempre próximos do rosto dos personagens, e outrora buscando ângulos oblíquos, toda essa inquietude combina com o longa, mas também acontece pela dificuldade de adaptar o material de origem, que mesmo sendo uma página fixa, consegue ser frenética.

A compreensão de Heitor Dhalia ao quadrinho é precisa, por isso além de um belo filme, Tungstênio também é uma bela adaptação do quadrinho homônimo de Marcelo Quintanilha, a direção é capaz de manter-se fiel a obra original, mas sem perder as características de seu regente, porém a escolha de ritmo e a ausência de respiros tiram um pouco do equilíbrio do longa, que se arrasta no primeiro ato, e se mantém num tom muito acima no segundo. No geral, a beleza estética e o levantamento de discussões sociais merecem ser vistos no cinema.


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