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Crítica: #UberXTáxis

Como é possível perceber, a discussão não é nem de longe o famoso “preto no branco” e #UberxTáxis faz questão de oferecer condições para que o espectador faça o que é o grande objetivo de um debate: acima de querer apontar respostas prontas, é agregar ideias diferentes e buscar por um consenso que beneficie todo mundo.
Crítica: #UberXTáxis

Pouco tempo depois de ter lido sobre este documentário (que teve sua pré-estreia somente em Brasília, por enquanto) me recordo de ter ficado bastante interessado com o tema que se propunha a discutir: a chegada recente dos aplicativos de transporte privado urbano e seu impacto para a população e, principalmente, para os taxistas do país. E este interesse não vinha somente pelo potencial histórico que envolve tecnologia, concorrência e as relações entre o Estado, os prestadores de serviço e o consumidor; mas também por perceber que eu (e vários outros) fazia parte direta da discussão, já que em algum momento fui um dos que um dia reclamou do preço de um táxi, observou com interesse a chegada do Uber e se viu tomando uma série de posicionamentos baseados no meu interesse imediato de consumidor.

Até aí, nada mais que natural. Entretanto, à medida que as principais discussões começavam a tomar corpo nas mídias (tradicionais e sociais) também foi inevitável o exercício de autocrítica em perceber que vários dos lugares comuns que eu ajudava a propagar eram resultado da superficialidade com que as informações eram digeridas. As generalizações e os reducionismos são um sinal de que o debate clama por mais profundidade e é aí que chego ao projeto de Maurício Costa (que também é crítico de cinema), cujo filme #UberXTáxis tem o grande mérito de tentar retirar nossa visão da superficialidade através de um trabalho que consegue unir um rico material de pesquisa com uma concisão narrativa que dá base pare que melhoremos nosso ponto de vista.

Porque a verdade é que o assunto Uber vs Táxis é muito mais complexo do que imaginamos. Inicialmente, a população parece ter recebido com ótimos olhos a chegada do aplicativo, como indicam as estatísticas mostradas no filme. O que se seguiu posteriormente foi um embate entre o novo serviço e os taxistas – inclusive, com confrontos e agressões nas ruas que ganharam destaque na mídia e só contribuiriam para inflamar a visão particular do brasileiro em relação ao assunto. Mas ao contrário do que observamos nas discussões acaloradas, aqui a obra opta em colocar o espectador num encontro de pontos de vista que preza por um bate bola de ideias constante – nesse sentido, aliás, a decisão de iniciar a narrativa mostrando uma manifestação dos taxistas na Esplanada dos Ministérios é certeira justamente porque serve como um primeiro confronto a desafiar uma generalização bastante comum que tende a colocar todos os taxistas num espectro negativo, assim somos obrigados a começar nossa reflexão pelo lado daqueles que foram bastante afetados pela chegada da nova tecnologia.

E de fato, muita gente foi afetada. Através de depoimentos de motoristas de taxis e dos presidentes do SINPETAXI-DF e SIMTETÁXI-SP é possível ter uma visão mais empática que mostra como vários motoristas perderam parte de sua renda familiar, tiveram veículos desvalorizados e muitos deles sofreram algum tipo de ridicularizarão (se é pelas más ações de uns, por enquanto não vem ao caso), o que torna perfeitamente possível entender a mobilização em prol de sua classe (nada mais justo). Do outro lado, o Uber surgiu como uma alternativa a muita gente que necessitava de uma renda auxiliar e de uma flexibilização dos horários de trabalho, aspectos discutidos com o auxílio de entrevistas dos próprios motoristas do aplicativo e de pessoas envolvidas ativamente no debate, como alguns deputados distritais e federais e especialistas em mobilidade urbana, além de representantes de outros grandes aplicativos de mobilidade no Brasil.     

Mas a estrutura arquitetada pelo documentário não se limita apenas a grandes blocos de ideias que se desenvolvem sozinhas. A partir de uma montagem que intercala uma dialética constante de argumentos de ambos os lados, a narrativa oferece um debate bastante fluido e que jamais deixa de adicionar novas camadas à discussão o tempo todo. Então o que temos é uma espécie de mesa redonda, em que assim que um aspecto é abordado, é logo confrontado em seguida, o que enriquece a capacidade do filme em oferecer as ferramentas para que o próprio espectador chegue às suas conclusões. Aliás, a fluidez da narrativa se deve ao fato da riqueza na pesquisa do material aliada a uma abordagem em constante confronto, já que a própria natureza da exposição de informações poderia deixá-la cansativa. Em alguns momentos, essa característica de certos aspectos abordados deixa alguns trechos da narrativa levemente mais penosos (talvez dependa muito de quem está vendo) e há uma narração em off ocasional que, apensar de não atrapalhar, soa um pouco redundante. Mas outro mérito do diretor é que ele consegue contornar grande parte desse potencial problema através de um ritmo que pede algumas “intervenções”, como a inserção de imagens aéreas (belas, aliás), dados, reportagens e uma preocupação em manter uma certa plasticidade nas várias entrevistas realizadas, como quando filma por dentro das viagens de carro ou quando simplesmente muda enquadramentos e ângulos, o que parece ser simples, mas tem a função de dar mais vida a uma burocracia quase sempre inevitável nesse tipo de documentário.

Nunca perdendo a chance de oferecer contraposição aos argumentos apresentados, o filme também mostra - através de opiniões em redes sociais, depoimentos no YouTube e dos principais entrevistados – que para cada aparente boa conclusão há um argumento contrário. Por exemplo, assim que somos apresentados à flexibilidade comemorada por um recém adepto do Uber, mais à frente o próprio entrevistado revela não conseguir chegar nem perto do lucro que julgava obter, além de reconhecer que grande parte de seus colegas já revelaram estar insatisfeitos com o serviço; ainda se somam à preocupação geral os problemas relativos a uma aparente falta de fiscalização acerca do processo de entrada dos motoristas e os preocupantes relatos de assédio sexual à passageiras. No lado dos taxistas, aprendemos que há inúmeros fatores que fazem com que o preço de suas corridas seja mais alto e, apesar de nossa reação natural de consumidor ser justamente procurar o mais barato, a regulamentação é defendida pelo sindicato como contraponto a várias questões, entre elas e que concerne justamente à segurança dos passageiros.

Como é possível perceber, a discussão não é nem de longe o famoso “preto no branco” e #UberxTáxis faz questão de oferecer condições para que o espectador faça o que é o grande objetivo de um debate: acima de querer apontar respostas prontas, é agregar ideias diferentes e buscar por um consenso que beneficie todo mundo. Além de fazer isso tudo, ele ainda traz uma reflexão pertinente sobre a situação atual do nosso planejamento de transportes e o serviço público (destaco o momento onde todos concordam sobre a necessidade de integração entre transportes em Brasília). Fora que há um questionamento fundamental abordado no filme, que é o quanto a chegada de uma nova tecnologia sai de apenas mais uma concorrência (seja leal ou desleal) para se tornar uma quebra de paradigma que invariavelmente irá acabar com modelos antigos. Ainda não existe resposta para isso, mas, depois do debate promovido aqui, ela ganha mais possibilidades de ser encontrada com o conhecimento adquirido.

Já havia dito em outras críticas e em outros lugares: o documentário é um gênero fascinante (e um dos meus preferidos) e sua capacidade de unir a linguagem cinematográfica com a investigação de nossa realidade é algo admirável; melhor ainda quando traz uma temática tão importante e que afeta qualquer pessoa, além de se relacionar com um assunto que, no momento, está na boca de todos os brasileiros.

Que os cineastas de Brasília continuem no mesmo caminho.


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