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Crítica: ELA

Poucos filmes têm a capacidade de mexer com nossas estruturas psicológicas e emocionais como “Ela”, de Spike Jonze (“Quero ser John Malkovich”, “Onde vivem os monstros”). São tantos pequenos detalhes que nos impactam que é até difícil dizer afinal se o filme veio para alertar essa sociedade hedonista ou se veio para resigná-la de suas falhas. Isso porque a grande problemática do filme gira em torno da relação amorosa de um homem com um sistema operacional, e claro, apresenta os desdobramentos e dúvidas geradas por esse envolvimento. De qualquer maneira, vale a pena conferir o novo trabalho do diretor, que marcou o ano de 2013 e concorre a cinco estatuetas do Oscar, incluindo a de Melhor Filme.

Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, um escritor do futuro, vive seus dias amargurado devido ao seu recente divórcio. Sua rotina muda quando ele adquire um novo sistema operacional que, pasmem-se, é chamado de “OS” (nada sugestivo, né?). O tal sistema possui autoconsciência, e por isso pensa, se relaciona e reage a impulsos como seres humanos, com a diferença de não possuir um corpo. O solitário Theodore então se apaixona pela inteligência artificial, que se apresenta a ele como “Samantha”, e que a propósito ganha vida através da voz de ninguém menos que Scarlett Johansson. O filme conta ainda com a atuação discreta porém necessária de Amy Adams, que interpreta a homônima Amy, amiga de Theodore.

Em relação aos elementos técnicos do filme, vale ressaltar que a estética é impecável, a direção de arte parece bem baseada no design de traços limpos que hoje timidamente vão surgindo e que serão uma realidade nesse futuro não tão distante. A fotografia é bem feita, e a composição dos elementos em cada frame é de uma sinergia impressionante; trata-se de um visual suave e convincente. Temos ainda que concordar que são muito bem pensados os figurinos, que flutuam entre o passado e as sutis inovações do futuro – a insistente camisa laranja do Theodore é quase um personagem por si só. Importante também elogiar o trabalho de William Butler e Owen Pallett, com uma música que nos coloca de frente para o dilema de Theodore e nos faz refletir junto com ele.

Além disso, a produção de Jonze conta com sutilezas que precisam ser destacadas. Primeiro, em diferentes momentos vemos as pessoas conversando com seus próprios sistemas operacionais, lendo e apagando e-mails, marcando reuniões, ajustando seus despertadores. São vários indivíduos em um mesmo ambiente, mas nenhum deles percebe um ao outro. E a sacada do filme é que isso não está nada longe de acontecer, na verdade, em outra dimensão, é o que vemos nas ruas, nos transportes, até em festas. Bom ou ruim, é uma nova ordem social que nasce.

Voltando aos protagonistas, eles contam, entre tantos problemas, com questões práticas que implicam a relação – como possibilitar o toque entre os dois, por exemplo? Além disso, existem as questões éticas e sociais sobre relacionar-se com uma máquina. O relacionamento do casal me intriga principalmente por me parecer estar sendo apresentado como algo positivo, afinal Theodore afirma estar feliz assim, em seu romance virtual. Existe o conflito, mas acho que em determinados momentos, o valor romântico da trama abafa as dúvidas que surgem. Sem querer ser moralista, acho preocupante que o relacionamento amoroso com uma máquina seja considerado natural, especialmente nesse caso, em que Samantha funciona para Theodore como uma fuga do mundo real, dos problemas tangíveis do cotidiano. Na verdade, a atitude do escritor pode ser usada como um paralelo com a nossa própria realidade. À nossa maneira, buscamos refúgios em ambientes virtuais; os altos índices de acesso às redes sociais confirmam isso.

Contudo, o que me preocupa no filme é a sua neutralidade, não existe um posicionamento explícito quanto ao que seria correto. Ao mesmo tempo, e vou me contradizer aqui, esse é um fator louvável, porque se a opinião de Jonze é apresentada, ela se disfarça entre uma cena e outra. Sendo assim, a neutralidade do filme beira a condenação e paralelamente beira a genialidade. Dessa forma, o público irá decidir baseado no drama de Theodore, se relacionamentos afetivos entre humanos e máquinas devem ser aceitos nesse futuro tão próximo de nós. Pessoalmente, não acho que o envolvimento amoroso com inteligências artificiais deva ser encorajado. Talvez seja culpa de “O exterminador do Futuro” (James Cameron, 1984), mas eu realmente acho que pode não ser uma boa ideia dotar máquinas de privilégios naturalmente humanos e dar espaço para que elas se manifestem.


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