Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Motorrad

Ainda não foi dessa vez que o gênero encontrou consonância com seu respectivo hollywoodiano. Ao menos nos bons, claro.
Motorrad

Antes de mais nada, o esforço que este novo exemplar do cinema nacional exibe em suas intenções é louvável nos dias de hoje: tornar os filmes de gênero acessíveis a um público que está totalmente acostumado com as dezenas de produções americanas que saem todos os anos. O trabalho não é fácil, pois ao mesmo tempo em que os próprios americanos conseguem uma pérola ou outra em um amontoado de obras de terror/suspense, a quantidade delas que são produzidas também são uma marca da experiência de uma indústria solidificada. Assim, o novo filme de Vicente Amorim (Corações Sujos, Rio Eu te Amo, Irmã Dulce), Motorrad, entra na onda de tentar estabelecer o gênero e conquistar um público que, em sua maioria, só assiste às mesmas comédias brasileiras de sempre. O problema é que, mesmo com um início promissor, o resultado decepciona pela falta total de inventividade – e ser do Brasil aqui é um detalhe, pois é somente mais um filme de terror ruim.

Mas vamos à trama: Hugo (Guilherme Prates) é um jovem que almeja fazer parte do grupo de amigos de seu irmão, Ricardo (Emílio Dantas). Aventureiros praticantes de motocross, eles partem para trilha em uma área desolada, juntamente com Paula (Carla Salle) – uma garota misteriosa que o protagonista conheceu em um ferro velho enquanto tentava roubar uma peça. Atravessando um local que havia sido fechado por um muro de pedras, eles passam a ser perseguidos por uma gangue de motoqueiros assassinos.

Se eu fosse pela minha expectativa gerada pelos 15 minutos iniciais, não esperaria estar decepcionado ao final dos 92 de projeção. Exibindo o primeiro diálogo depois de aproximadamente 10 minutos, a ambientação silenciosa é bastante eficiente e consegue criar alguma curiosidade acerca daquele mundo. Com influências visuais de obras pós-apocalípticas (mesmo que não seja o caso aqui, já que há celulares, energia e um grupo de jovens comuns), a impressão que temos é de um espaço desolador e personagens que precisam de pouco para se comunicarem. Quando o fazem, principalmente os dois irmãos, são com diálogos naturais (acredite, só vai durar em parte do 1º ato), provocativos de um afeto proveniente de “irmão mais velho e caçula”, o que promete uma empatia que seria responsável por nos segurar durante a trama principal.

Fotografado pelo experiente Gustavo Hadba (aproximadamente 61 trabalhos creditados no IMDB, alguns deles bem conhecidos), as belas paisagens da Serra da Canastra (MG) ganham um aspecto que vai além de seu encanto natural, surgindo como grandiosos espaços abertos que, apesar de magnéticos por sua imponência, também são ameaçadores quando emergem junto com o desenho de som e a trilha sonora sinistra de guitarras distorcidas concebidas por Fabiano Krieger e Lucas Marcier, que, se juntando ao ronco dos motores, cria uma lógica alarmante que promete tensão (eu disse apenas promete). E realmente não havia muito que inventar, já que a trama é simples e dependia de uma direção que assegurasse que pelo menos algumas das convenções de gênero funcionassem.

Os problemas realmente começam quando o 2º ato se inicia e a estrutura concebida pelo roteiro de L.G Bayão (do bom Ponte Aérea), adaptado de uma HQ de Danilo Bayruth, começa a se repetir demais. São sequências que se baseiam em curtas perseguições, seguidas de alguns personagens se encarando (como eles gostam de se encarar!) e mais outras perseguições. Se fosse só isso, menos mal, mas as piores marcas desse tipo de obra também começam a dar as caras: pessoas agindo de forma estúpida e tomando atitudes inverossímeis o tempo todo – como aquela em que depois de serem perseguidos até quase a morte e terem um dos amigos mortos de forma brutal, decidem acender uma fogueira no meio da noite. Mesmo que ignorássemos esses problemas, jamais nos é dado material suficiente para que ao menos sentíssemos algum temor pelo destino de qualquer um deles, pois basta pouco tempo de tela para que eles se transformem em estereótipos típicos do gênero, com direito ao descontrolado do grupo e o misterioso.

Mas, ainda mais decepcionante é que havia esperança de que a direção de Vicente Amorim conseguisse dar uma encorpada nos problemas de roteiro. Exibindo algumas tomadas interessantes no começo do filme, a estética do diretor também era promissora. Porém, assim que as sequências mais dinâmicas começaram, os problemas ficaram evidentes. As perseguições apelam para zoons rápidos e planos fechados que atrapalham muito a geografia da cena, e as lutas corporais são completamente caóticas, com uma montagem quase epiléptica que consegue a proeza de umas dezenas de planos idênticos em pouquíssimos segundos, tornando o que era para ser tenso em cansativo para os olhos. Numa ótica mais geral, a narrativa é prejudicada também pela montagem, que em vários momentos teletransportam personagens e intercalam sequências que geram buracos na lógica, dando uma estranheza que não era aquela pretendida pelos realizadores. E se falava de repetição anteriormente, o recurso eficiente da trilha angustiante interrompida pela chegada de um personagem perde seu impacto quando já está em sua 5ª ou 6ª vez, ajudando a tornar a história numa sequência de blocos repetidos pelo mesmo padrão.

Num contexto geral, Motorrad é um filme que pouco consegue chegar a algum lugar, tanto no visual quanto em sua “mitologia”, que ensaia inserir algum elemento sobrenatural – principalmente em seu 3 ato – através de um “mistério” envolvendo Paula e suas verdadeiras motivações jamais explicadas (e estava torcendo para que isso explicasse o fato dos vilões pararem a todo momento para descerem das motos e fazerem poses ameaçadores em locais altos); e se isso tinha o objetivo de despertar nossa curiosidade, faz apenas seus questionamentos soarem vazios e pretensiosos. A despeito de sua qualidade no trabalho de maquiagem e efeitos especiais (os machucados e sequências gráficas ao menos são muito bem feitas), a tensão não aparece, os personagens não saem da superfície e, por consequência, o terror não funciona, ficando apenas numa vaga expectativa.

Ainda não foi dessa vez que o gênero encontrou consonância com seu respectivo hollywoodiano. Ao menos nos bons, claro.


Deixe sua opinião:)