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Crítica: Depois Daquela Montanha

Esse filme pode até agradar se você não se importa com a extrema familiaridade do gênero (e nem com os suspiros de “olha que romântico...”), mas é uma decepção por não conseguir saber em qual vertente focar suas potenciais qualidades.
Crítica: Depois Daquela Montanha

Chegando essa semana em cartaz em todo o país, Depois Daquela Montanha, adaptação do livro homônimo originalmente lançado em 2010, é o novo longa que estampa os fortes nomes de Idris Elba e Kate Winslet em seus materiais promocionais. A tática não poderia ser outra, já que um elenco premiado e conhecido do grande público (mais ela do que ele) é o suficiente para despertar algum interesse de boa parte do público, ainda mais se prometendo uma espécie de história de amor em meio a uma luta pela sobrevivência. Acontece que, apesar de apresentar um 1º ato que abre bem as cortinas e jogar firme na aposta do expectador com uma introdução aos personagens e à trama eficientes, o filme é sabotado por um anacronismo de gênero que não consegue escapar de um roteiro fraco e que jamais parece saber como pesar seus elementos na narrativa.

O filme conta a história de Ben (Idris Elba), um médico neurocirurgião que retorna de uma conferência, e Alex (Kate Winslet), uma jornalista que viaja para trabalhar como fotógrafa. Os dois se conhecem no aeroporto depois de terem a mesma viagem cancelada para a cidade de Denver. Depois de decidirem partir em um voo improvisado em um pequeno avião, acabam sofrendo um acidente que os deixa isolados em meio a um ambiente frio e hostil, sendo obrigados a sobreviver juntos através da ajuda e compreensão mútua.

Se dependêssemos apenas do 1º ato como condição de julgar previamente este novo longa, até que não seria difícil elogiar a eficiência impressa na apresentação dos protagonistas e na condução da narrativa. Não perdendo muito tempo, o filme sabe que é necessário pouco (menos é mais) para que se apresente uma boa premissa e um bom gancho de roteiro. Os personagens não surgem como heróis e nem através de coincidências forçadas, mas mais como uma consequência da personalidade de Alex e do compromisso de Ben. O que também ajuda muito, evidentemente, é o carisma individual de Elba e Winslet, que acaba dando uma agradável sensação de empatia imediata pelo casal (não pela relação futura em si).

Dirigido por Hany Abu-Assad, dos ótimos Paradise Now (2005) e Omar (2013), o filme, além do apontado anteriormente, ainda conta com um ótimo plano sequência do acidente que deixa o casal machucado e perdido. Com a câmera se movimentando entre os passageiros e o piloto (interpretado por Beau Bridges, irmão de Jeff Bridges) através de travellings e panorâmicas que vagam com fluidez entre o ambiente e a crescente tensão causada pela iminência da queda, temos a impressão que veremos um uma história vistosa e poderosa pela frente. Infelizmente, os problemas causados pelo fraco roteiro e pela indecisão de tom da narrativa acabam transformando um bom potencial numa breguice (por falta de um termo que cai melhor).

Isto porque o filme é, basicamente, um vai e volta sobre sobrevivência e sobre romance, sendo que os dois não parecem se completar, fazendo com que a narrativa resulte numa falta de unidade, repleta de alguns momentos inspirados e outros apenas ruins (ou “fofos” demais, se quiser chamar assim). É como eu disse, o talento dos atores facilita que acompanhemos sua trajetória, mas não é o suficiente para mascarar um roteiro que flerta com um romance sem sal e um jogo de conflitos que sempre surge apressado e inorgânico. Portanto, quando vemos que Alex e Ben tem a sua “primeira briga”, esta surge forçada e revela um certo desespero em querer nos fazer acreditar na profundidade da relação entre os dois; o que também acontece quando os sentimentos que crescem entre os dois acabem vindo através de diálogos bregas (olha o termo aí novamente) e flashbacks que existem para reforçar a “fofura” entre os dois em situações que aconteceram a menos de 1 hora de projeção.

Mesmo na parte de sobrevivência – e eu cheguei a achar que veria algo como Vivos (1993) – as situações são sempre amortecidas em prol de apelar para a nossa esperança de ver o casal junto. Claro, de qualquer maneira, o sentimento de esperança seria o responsável por guiar nossa expectativa em relação à trama, mas nunca há uma real sensação de desespero que se esperaria em uma situação semelhante (ainda colocam um cachorro para servir de alívio cômico. Afinal, que resiste né!?). O que acontece é que vemos um romance meio sem graça se desenvolvendo através de clichês disfarçados pelo escopo de um ambiente original para a história, o que tende a piorar ainda mais com um 3º ato que dura mais que o necessário e resiste ainda menos à cafonice dos diálogos e resoluções.

Esse filme pode até agradar se você não se importa com a extrema familiaridade do gênero (e nem com os suspiros de “olha que romântico...”), mas é uma decepção por não conseguir saber em qual vertente focar suas potenciais qualidades. Portanto, a não ser que se contente com o mínimo, a experiência de assistir Depois Daquela Montanha acaba sendo quase tão vazia e inóspita quanto as montanhas geladas que circundam Alex e Ben.


Divulgaí

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