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Crítica: As Duas Irenes

O contraste de fatores expostos na obra é o ponto chave do seu entendimento. Delicadeza com atuação corretamente direcionada e uma bela apresentação da história faz com que nos aproximamos dos personagens e torçamos por eles.

Irene, uma pequena garota de 13 anos, mora numa cidade do interior e está com suas emoções desabrochando. Vinda de uma família tradicional, a menina descobre que seu pai construiu outra família e tem outra filha, com a mesma idade e o mesmo nome que ela. Em meio a descobertas pessoais, a jovem começa a buscar informações e se aproximar de sua nova irmã. Numa época onde ser criança é obedecer a ordens rígidas, Irene vai perceber que, no mundo adulto, nem tudo é feito de verdades. A trama se passa em tempos antigos, recheada de referências a costumes e ditados característicos de uma sociedade tradicional, e ao criar uma linha delicada e sutil, o filme transborda em sua mensagem e nos apresenta uma bela obra-prima.

Ser criança não é algo metódico. Viver numa época de extrema restrição como antigamente reflete um pouco o conservadorismo que ainda existe hoje. Não sair com um vestido curto ou que apareça demais o corpo era uma fenda impregnada naqueles tempos para designar respeito e bom comportamento. Ao apresentar uma personagem tão inocente divagando por esses tabus, sem ter noção do que realmente é ser adulta, a metáfora que nos passa é a de fragilidade. O crescimento e suas consequências atribuídas a um pacote de sensações que serão experimentadas numa simples garota de 13 anos que não tem nenhuma orientação de como prosseguir com isso. À medida que as cenas passam, percebe-se uma maturidade que vai se sobressaindo, aos poucos, da inocência da Irene do começo do filme. Mostrar tudo isso em uma hora e vinte minutos de filme, com um toque sutil e inteligente, é uma bela representação do Brasil numa indústria cinematográfica cercada de grandes títulos de enormes produtoras.

As Irenes são interpretadas por Priscila Bittencourt e Isabela Torres com devida maestria e são os destaques do longa. Marco Ricca faz com excelência o pai das meninas, que esconde sua traição das duas esposas. No papel de mãe, Susana Ribeiro é a mãe mais controlada, rígida e que preza pelo valor da família que constituiu. Já Inês Peixoto é a mãe apaixonada que sempre espera pelo marido ansiosamente voltar para casa.

A técnica deste filme é belíssima. Desde o cenário composto por objetos da época até a trilha sonora que remete aos hits dançantes, a produção intensifica os detalhes e compõe uma trama repleta de minimalismos que se fazem necessária. A fotografia atribui grande atenção ao utilizar cores não tão vivas e reproduzir um cotidiano de uma vizinhança calma e monótona. As imagens agradam e somam ao produto final. A edição e a montagem refletem a coesão e a exatidão na hora de construir a carga dramática do filme. O que se diz no roteiro é calmamente pensado para trazer o ar do questionamento sem que se perca a intensão da palavra e do gesto. O trabalho dirigido por Fabio Meira é minuciosamente bem feito e uma grande atração brasileira nos festivais internacionais.

O contraste de fatores expostos na obra é o ponto chave do seu entendimento. Delicadeza com atuação corretamente direcionada e uma bela apresentação da história faz com que nos aproximamos dos personagens e torçamos por eles. Principalmente quando vemos o ponto de vista de uma garota tão comum no meio de uma narrativa bem profunda. As Duas Irenes é uma produção que ultimamente estava em falta no Brasil e ficamos felizes em poder apreciar sua ideia jovem e intimista.


Divulgaí

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