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Trama Alternativa: Paterson

Paterson respira poesia e fará você começar a respirar também.
Trama Alternativa: Paterson

Paterson é um motorista de ônibus que vive na cidade de Paterson, Nova Jersey, com sua namorada Laura e seu cachorro, Marvin. Em seus momentos de liberdade e solidão, ele escreve poesias que refletem momentos ou pequenos detalhes ao redor de sua vida – como uma simples caixinha de fósforos com pontas azuis ou sobre a mudança entre as estações do inverno e primavera. O longa-metragem dirigido por Jim Jarmusch (Amantes Eternos, Daunbailó e Estranhos no Paraíso), tem um ar ousado por se tratar de um tema e de aspectos que o diretor nunca explorou antes, mas ainda assim, e o mais interessante de tudo, é que ele mantém as características excêntricas de seu cinema e é extremamente fácil de reconhecê-lo no filme. A personalidade forte de Jarmusch se converte em particularidades do filme, que com ares existenciais, filosóficos e até mesmo culturais, tem uma excelente construção que visa transmitir uma poderosa mensagem para o espectador – de forma sincera e simples.

Paterson pode ser facilmente descrito como um dos filmes mais simples do diretor americano, logo ao lado de Flores Partidas e Permanent Vacation, mas a simplicidade aqui não é sinônimo de algo negativo – muito pelo contrário. A narrativa é direta, mostrando o dia-a-dia de Paterson, e uma das coisas mais interessantes dela, é que o protagonista vive em uma bolha rotineira, com leves mudanças de um dia para outro. Em tese, tal situação seria algo negativo, no entanto, o personagem se demonstra satisfeito e feliz – o que era claramente refletido em suas poesias. Motorista de ônibus como profissão e poeta nas horas vagas, o roteiro segue uma linha literalmente poética, onde o amor na sua forma branda configura-se em uma superfície leve para o enredo – em dado momento tenso do longa, um personagem apaixonado ainda pergunta: qual a graça da vida sem o amor?

Com detalhes pequenos aqui e ali, quase escondidos, como a repetição de coisas específicas – a citação de gêmeas, os sonhos de Laura e as cenas de Marvin – que parecem dizer que, de alguma maneira, o universo inteiro está interligado, ao lado dos trechos das poesias escritas por Paterson, reproduzem uma sensibilidade no enredo que reflete no visual do filme. A fotografia de Frederick Elmes (Veludo Azul, Flores Partidas e Eraserhead) auxilia no tom poético de Paterson, com tonalidades azuladas e acinzentadas – as cores que tingem a personalidade do protagonista. Sua cinematografia com movimentos calmos e parados, focados nas expressões dos personagens, são clássicas de Jarmusch e passam um aspecto mais realista (e até resgata sentimentos de filmes antigos). A montagem e a edição são bem feitas, mas em vários momentos surgem planos que se sobrepõem, o que estraga a beleza visual de certas cenas.

Adam Driver como Paterson está fascinante, é incrível como o ator consegue se moldar tão facilmente em papéis bem diferentes – e é mais impressionante ainda ao comparar sua atuação no filme de Jarmusch com suas atuações previas, como o frio e colérico Kylo Ren de Star Wars: O Despertar da Força e o cantor de country, Al Cody, em Inside Llewyn Davis. Golshifteh Farahani (Dois Amigos e À Procura de Elly), atriz que representa um grande símbolo feminista no Irã, está ótima em seu papel simples e cativante. A direção de Jim Jarmusch tem caraterísticas nítidas do diretor, além de coisas novas, que ainda eram inexploradas por ele. É difícil encontrar um cineasta tão original e que consegue transitar com extrema facilidade entre gêneros completamente diferentes – Jarmusch já dirigiu e escreveu filmes sobre vampiros modernos, presidiários que fogem da cadeia, um pai em busca de redenção e uma coletânea de curtas interligados pelo Elvis Presley. Sua versatilidade é impressionante e grandiosa, e Paterson é mais uma obra prima do diretor.

O último longa-metragem de Jarmusch mostra poesia nas pequenas coisas e no cotidiano, nos instigando a soltar o poeta dentro de nós e termos um olhar mais atento para as pequenas coisas da vida. Além de apresentar a repetição de um ângulo pouco explorado, nos fazendo perceber que talvez podemos tirar um livro em branco de uma tragédia. Paterson respira poesia e fará você começar a respirar também.


Divulgaí

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