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Crítica: Em Ritmo de Fuga

No fim das contas, este é um filme que preza justamente o que deveria mais importar nos filmes.
Crítica: Em Ritmo de Fuga

Você já deve ter escutado algumas vezes, durante um bate papo casual sobre cinema, aquela certa tendência que alguns têm de categorizar os filmes numa clara linha divisória entre “cinema de arte” e “cinema pipoca”. Parece fácil – e mais confortável – dividir a arte em dois extremos que facilitem o nosso posicionamento sobre uma obra: se é blockbuster, devemos “nos desligar” e procurar nos divertir; se é arte, aí tudo parece mudar de figura. A verdade é que a sétima arte (ou qualquer outra arte) seria tristemente reduzida se simplesmente ignorássemos todo o percurso de nossa experiência, seja ela causada por temáticas e reflexões profundas ou por puro exercício de linguagem.

Pois, no cinema, não deveria haver essa separação. O que faz um filme funcionar não se resume apenas ao seu fim, mas sim ao processo e ao quão recompensadora foi a trajetória. Se falamos em uma filmografia que certamente sabe se aproveitar do processo cinematográfico, a de Edgar Wright cairia como uma luva. Detentor de um grande talento na manipulação da gramática visual, o diretor da Trilogia do Cornetto e de Scott Pilgrim Contra o Mundo continua a exibir em seu novo projeto a mesma habilidade de usar o potencial da narrativa cinematográfica a fim de encher os nossos olhos com o melhor (e bem feito) tipo de diversão no cinema.      

Na trama de Em Ritmo de Fuga, o rapaz Baby (Ansel Elgort) é um habilidoso motorista de fuga que trabalha para o chefão Doc (Kevin Spacey) realizando assaltos ousados com uma equipe repleta de personagens peculiares. Lidando com alguns traumas do passado, Baby começa a questionar sua função quando se apaixona pela garçonete Debora (Lily James), se vendo cada vez mais envolvido em situações perigosas para si mesmo e, principalmente, para aqueles de quem gosta.

O objetivo aqui é simples: te divertir usando a agilidade típica que Edgar Wright costuma exibir em seus trabalhos. Aí voltamos ao processo, pois aqui importa muito mais admirar a narrativa da obra do que se preocupar com o peso de sua história. Me permitindo usar a simplificação a qual critiquei antes a fim de ser sucinto: se há filmes pipoca ruins, também há aqueles que são bem executados, o que certamente se aplica nesse exemplar. Porque se preocupar tanto com a originalidade da história se poucos diretores atuais conseguem unir tão bem agilidade, ritmo visual e música num entretenimento de qualidade?

Falando em agilidade, num canto do triângulo temos como representante a direção de Wright. O cineasta mostra que é possível construir ótimas sequências de ação mesmo utilizando muitos cortes (ao contrário de Michael Bay, por exemplo). Se há alguém por trás das câmeras para se preocupar com a nossa percepção visual, temos como resultado um filme que equilibra com grande eficiência sua abordagem com a imagem. Transitando com fluidez entre planos sequências e planos de menos de um segundo de duração, o diretor e seu fotógrafo Bill Pope jamais deixam transparecer qualquer desequilíbrio no tom da narrativa. O resultado é que, mesmo com tudo explodindo na tela, sabemos exatamente o que está acontecendo, consequentemente, aumentando nosso prazer cinéfilo em admirar a pura técnica do filme.

Claro que seria impossível falar em apuro visual (e sonoro) sem citar os dois outros pontos da figura:  trabalho de montagem e design de som. Talvez a maior característica da filmografia de Wright, a junção das imagens, transições, efeitos sonoros e trilha, é aquela que continua a dar identidade a seus filmes – e a transformá-los em obras tão divertidas e bem executadas. As gags visuais, tão presentes na carreira do diretor, dão o ar pop e cool que este filme merece. Aqui há de se destacar o trabalho conjunto dos montadores Jonathan Amos e Paul Machliss com a equipe de edição e mixagem de som, que transforma cada transição na narrativa num empolgante jogo de bate-bola entre áudio e imagem.

Assim, quando parte da trilha sonora começa a tocar (aliás, excelente trilha sonora) sempre esperamos esta servir de elemento para algum correspondente visual: o som da música se transformando em motivos gestuais, como uma mão brincando com um maço de dinheiro ou uma música dublada pelo protagonista; até sequências inteiras trabalhando primariamente a favor da música do que qualquer outra coisa, como um tiroteio onde os barulhos dos disparos estão sempre em sincronia com as batidas da canção da trilha (quer algo que denote mais preocupação com a linguagem em si do que com a coerência na história?). A regra principal aqui é brincar com a diegese sonora na narrativa, isto é, não é tão crucial assim saber se os personagens obedecem somente ao que acontece nas suas realidades ou também à nossa percepção de expectador, o que importa é a união rítmica entre as duas.

A força de Em Ritmo de Fuga está realmente em sua narrativa visual, mas, mesmo reconhecendo que o roteiro, escrito pelo próprio diretor, recorra a clichês para estruturar sua trama, como o personagem que quer sair da vida do crime realizando aquele “último trabalho” ou a paixão pela mulher que representa a vida comum almejada, Wright tem consciência que sua história tem um leve caráter satírico (outra grande característica de sua filmografia). Isso pode ser constatado pela maneira como aqueles personagens são caracterizados: Baby é o protagonista que tem atitudes que o colocam como o “bom coração” do grupo, através de situações propositalmente cômicas (sequência que envolve um roubo de carro e uma bolsa), interpretado por Ansel Elgort com competência. Alguns membros da equipe de assalto foram claramente escritos para dar espaço a um divertido exagero na composição, como o explosivo Bats de Jamie Foxx e o misterioso e perigoso Buddy de Jon Hamm. Até a maneira como o enredo se envereda para um claro exercício de gênero, principalmente a partir do 3º ato, revela a intenção do diretor de não levar aquilo tudo tão a sério.   
   
No fim das contas, esta é uma obra que preza justamente o que deveria mais importar nos filmes. Não é somente a história em si, mas talvez mais importante, a narrativa em sua definição: a maneira como aquela história é contada. Portanto, se você ainda tem o costume de separar o cinema entre arte e pipoca, saiba que elas podem andar perfeitamente juntas. Quem disse que se divertir com qualidade não é produto de um excelente trabalho artístico? Edgar Wright está aí para isso. Portanto, adicione a canção Easy na sua playlist (tem que ser a original de Lionel Richie) para os momentos emotivos e Brighton Rock, do Queen, para embalar suas perseguições (se tiver alguma, claro). Divirta-se!  


Divulgaí

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