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Crítica: Ao Cair da Noite

No final das contas, Ao Cair da Noite é um filme sobre como um personagem é obrigado a tomar atitudes impensáveis diante de situações onde já não é mais possível se apoiar em sistemas morais que antes forneciam um freio diante do puro instinto.
Crítica: Ao Cair da Noite

A melhor definição para um filme de terror talvez seja aquela que afirma ser a obra que tem a capacidade de atingir nossos receios mais primários e nossas reações negativas mais espontâneas através de sua narrativa. A natureza desse sentimento pode ter origens diversas e, ao longo de sua existência, o gênero foi capaz de explorá-las das maneiras mais viscerais e, também, das mais silenciosas e incômodas. Você já deve ter ouvido falar daquela diferenciação que se faz entre o que é um filme de terror e um de suspense: o primeiro seria aquele baseado num sentimento mais primário de choque, geralmente associado com o macabro e o sobrenatural, e que tem o objetivo de assustar; o segundo é o que usa a ferramenta da criação de expectativa para manipular a atmosfera de incômodo, se pautando mais na tensão (na verdade é mais um recurso narrativo que foi transformado num gênero pela categorização das distribuidoras).

O fato é que nem sempre se faz somente uma coisa ou outra, o que é o caso deste Ao Cair da Noite: mais uma produção da A24, também responsável pelo celebrado A Bruxa. Aliás, se você viu esse ótimo terror de 2015, pôde perceber que não é assim tão simples dividi-lo categoricamente entre subgêneros; afinal, como é possível afirmar que ele só constrói um clima angustiante de tensão como se isso excluísse sua capacidade de apelar para o tal medo sobrenatural e primário? Mesmo que os dois filmes acabem sendo diferentes em sua proposta, suas estratégias narrativas são similares no sentido de priorizar atmosfera e personagens ao invés de focar diretamente na materialização do medo. Agora, com este último lançamento, a produtora independente entrega uma obra que pede ainda mais que o expectador confie na discussão das consequências desse medo do que no formato mais tradicional do gênero.

No filme, Paul (Joel Edgerton) é um homem que vive com sua mulher e filho numa casa isolada em uma floresta. Passando os dias constantemente num clima de vigilância por causa de ameaças externas e misteriosas que contornam o lugar, ele acaba encontrando com uma outra família desesperada por abrigo e ambas passam a conviver juntas num clima de crescente tensão e desconfiança.

Ao contrário do que se possa deduzir pelos trailers e pela campanha de marketing (envolvendo, também, a prática de enfatizar números de aprovação do Rotten Tomatoes em sites diversos) esse não é um filme que está preocupado em discutir os acontecimentos da trama em si, e sim quais suas implicações nos personagens que habitam aquele ambiente. Se o lado de fora da casa de Paul e sua família parece ser a origem das possíveis ameaças sugeridas na história, é no lado de dentro que o diretor Trey Edward Shults (do ótimo Krisha, de 2015) decide focar seu olhar, pois o que é mais revelador e instigante é justamente acompanharmos o comportamento dessas duas famílias que mal se conhecem e como a convivência entre elas reduz a distância entre a ameaça real e a pura paranoia. 

Portanto, a estratégia narrativa aqui é transferir nosso olhar daquilo que aparenta ser o núcleo da história (o mistério que envolve os acontecimentos da trama) para um olhar mais próximo dos conflitos resultantes. Se, no início, questionamos os motivos que levaram a família de Paul a viver isolados e a desconfiar de qualquer aproximação suspeita, passamos a testemunhar os conflitos gerados pela maneira como esses personagens são movidos por essa abordagem. Nesse quesito, o cineasta acerta em nos guiar de um filme de gênero para um excerto de um drama de sobrevivência.  

Assim como o exemplar do mesmo estúdio anteriormente citado, Shults e seu diretor de fotografia Drew Daniels imprimem uma bela concepção visual ao longa. Através de uma movimentação mais lenta e optando por planos mais longos (inclusive, os que se passam no interior na casa) a narrativa consegue, aos poucos, trabalhar um tom de quietude que vai se transformando em desconfiança à medida que os personagens vão avançando na história. Trabalhando bem com a palheta fria nas florestas que circundam o ambiente, a narrativa cria um contraponto visual e temático eficiente com o tom mais avermelhado das sequências que se passam no interior, o que acaba indicando diretamente onde o diretor quer que depositemos a nossa ansiedade como expectador. O ritmo comedido também é responsável por ressaltar os momentos onde há alguma descarga de adrenalina – estes, também vale dizer, se sobressaem pela escolha do design de som em pontuar a narrativa com trilhas de suspense ocasionais, fora que nossa sensação de imersão é favorecida pela contraposição entre o silêncio e os ruídos de madeira, o ranger de portas, a movimentação na floresta e o principal: os sussurros de outros personagens.

Falando neles, estes acabam sendo muito mais representativos do que as possíveis ameaças externas que se possam encontrar floresta adentro. O roteiro, também escrito pelo diretor, consegue transitar bem entre as relações de estranhamento e o drama de sobrevivência (algo que me lembrou um pouco Na Estrada, de 2009). Grande parte dos momentos que conquistam nossa simpatia se devem às atuações, principalmente a de Joel Edgerton, que consegue dar a Paul uma mistura de rigidez, coragem, determinação e compaixão. Só observar, por exemplo, a dificuldade do sujeito em se despir de seus modos de vigilância para se entregar aos poucos momentos onde demonstra carinho pela família e complacência pela situação de outros sobreviventes. A ligação que temos com Paul e sua família é a base que o expectador encontra para ancorar seu medidor ético e que, logo depois, é obrigado a questionar as próprias motivações à medida que aumenta a sensação de paranoia.

No final das contas, Ao Cair da Noite é um filme sobre como um personagem é obrigado a tomar atitudes impensáveis diante de situações onde já não é mais possível se apoiar em sistemas morais que antes forneciam um freio diante do puro instinto. Este é um filme que não aborda quem é o agente do medo, e sim a quem ele atinge e quais são as suas consequências. O foco do terror aqui (ou suspense, como queira) é escancarar o desespero da nossa decadência diante de situações extremas, e é difícil culpar os personagens pelas suas ações, já que o filme tem sucesso em conspirar contra as nossas próprias expectativas. 

E em que ponto a paranoia passa a não ser mais distinguível da realidade? Se formos observar os personagens deste longa, basta que nossos sistemas de convivência se revelem frágeis a ponto ativar nossos genes de autopreservação; mais ainda, basta que nossa integridade (e a de nossos próximos) seja seriamente ameaçada para que justifiquemos as mais drásticas ações. É verdade que o filme acaba deixando demais suas resoluções (se é que sequer podemos chamar assim) em aberto e isso termina por deixar a obra com a sensação de mais potencial não desenvolvido, mas se Shults decide não fornecer todas as respostas em torno de uma figura ou situação mais explicativa é porque ele nos força e reconhecer sua possível forma em qualquer cenário que represente ameaça, seja ela o terrorismo, uma epidemia ou a inabilidade do ser humano em atingir um estado aceitável de convivência.

Afinal, apesar do medo causado pelo macabro e o sobrenatural ter natureza diversa, o que é criado pelo isolamento, o desespero pela sobrevivência e a inaptidão de lidar com o semelhante pode ser tão assustador quanto.
         
Divulgaí

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